Busca 



 


Edição 106

Editorial

Diminuir corpo de texto Aumentar corpo de texto

Data de Publicação: 5 de janeiro de 2006
Índice Texto Anterior Próximo Texto 
O nascimento de Alberico Carneiro


O suplemento Guesa Errante pára. Param nossas almas. Pára a alma de Dinacy Corrêa. Param todos os poetas. Fechamos nossas páginas. Assis Brasil fechou A Poesia Maranhense do Século XX. Nauro Machado está respirando mais. Hoje, não há editorial nem responsabilidades de nenhum de nós, todos poetas. É a hora dos mortos e dos vivos. É a hora de brigar com a gramática, de alimentar peixes e deixar que os céus respondam a tudo.

Vocês não percebem, mas os poetas também sexagenarizam-se. É a idade do nosso professor. Professor de literatura, professor de medos, professor de amores, professor de poesia. Alberico Carneiro ultrapassou todos os umbrais da solidão. Escreveu livros que não sabemos escrever, aprendeu línguas que nunca foram faladas e comprou uma vastidão de sons, metáforas, ideologias e tudo isso para quê? Apenas para descobrir que nasceu em Primeira Cruz, para aprender o jogo das serpentes, se zangar com as cigarras e descobrir o inverso de todos os aniversários.

Alberico Carneiro Filho não é apenas poeta. É bem pior que isso. Ele inventou a solidão, ele compôs a dor e, na solidez dos seus sessenta ontens, está ensinando a todos nós que não se escrevem editoriais para poetas, que os poetas por sis sós são o editorial da criação.

Deixem ele doer agora. Ele descobriu, finalmente, sessenta anos depois, que sua infância acabou. Que já não há Primeira Cruz, que faltou energia nas lâmpadas dos Vagalumes, que as serpentes não tem mais venenos e que a única alma que tinha aliou-se a outras almas.

Ele sabe que poetas não vivem, choram. E sabe também que o Brasil está muito mais interessado na cotação do dólar do que na sua “coleção de obscuras mágoas”. Que o mundo onde vive prefere heróis rasteiros como George Bush do que “Capoeira”, “Quelemente” e “Caboré”.

Os sessenta ontens do maior, mais triste, mais culto e amado dos nossos poetas amanheceram nas salinas, porque o hoje ele inventa nas páginas do Guesa Errante, talvez pungido de amor.

Talvez seja ousadia demais se preocupar com O Diário de um Alcoólatra, talvez não seja moral sair por aí com O Andrógino debaixo do braço. Mas a literatura peca. E ai do pecado se não fosse a literatura. E ai da literatura, se não fosse o pecado.

Não o julguem agora. Em setembro ele – e logo ele que só sabe fazer amigos – vai atirar sessenta ontens nas caras de vocês. E só aí saberão vocês, senhores poetas de todas as esquinas, onde mexe e o que é a verdadeira poesia.

Professor, só temos medo do dia em que completarás sessenta amanhãs. Hoje só queremos beber o mijo porque Alberico Carneiro acaba de nascer.

J. M. Cunha Santos
Josilda Bogéa Anchieta
Hilda Bogéa
Manoel dos Santos Neto
Marcelo Araújo
Dinacy Corrêa
..... e toda a equipe do Jornal Pequeno
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br