Data de Publicação: 3 de janeiro de 2006
A Lenda
A lenda do guesa é proveniente da tribo de índios Muyscas, da Colômbia, na América Latina e foi resgatada em livro por Humboldt.
Há milênios, em remotos tempos pré-colombianos, os índios muyscanos foram visitados por uma entidade sobrenatural, uma espécie de deus pagão, Bochica ou o Sol.

Bochica determinou à tribo que adorassem como deus o Sol, e em homenagem a ele construíssem um templo, o Templo do Sol. E, com base no movimento e ação do Sol, ordenou as estações, inventou um calendário e estabeleceu uma ordem para sacrifícios que deveriam ser celebrados de 15 em 15 anos. Esses intervalos de tempo, de caráter contínuo e permanentes, tinham em vista a assegurar a fertilidade, a prosperidade e a paz.

Assim, ficava estabelecido que, de 15 em 15 anos, uma pessoa da tribo deveria ser sacrificada.
O escolhido ou eleito para o ritual do sacrifício propiciatório deveria ser um recém-nascido, do sexo masculino, raptado ou tirado de uma família humilde.

A criança, então, era recolhida ao Templo do Sol, onde era batizada com o nome de guesa.
No Templo do Sol, o guesa recebia dos mais velhos ou sábios uma educação e instrução especiais até atingir a idade de 10 anos.
Entre os 10 e os 15 anos, percorria um caminho de peregrinação e provações, chamado Caminho do Suna ou do Sol.
A jornada era equivalente ao itinerário diário de Bochica ou do Sol. Ou seja, durante as 12 horas de todos os dias, o guesa era obrigado a fazer um percurso, durante o qual era submetido a inúmeras provações sobre-humanas, tendo em vista a disciplina e a resistência à dor.

Aos 15 anos, o guesa, cumprindo os rituais sagrados da jornada de purgação e purificação, que incluíam peregrinações, jejum, provas de desempenho físico e de competência espiritual, era conduzido em procissão pelos chefes tribais até os sacerdotes, que o amarravam numa coluna sacrificatória.
O guesa era morto e o seu coração era extirpado e apresentado como oferenda ao deus Bochica ou Sol.
Finalidade do RitualEnterrado o coração do guesa no local das semeaduras, o seu sangue era borrifado ou aspergido e espalhado pelos campos. O sacrifício asseguraria a prosperidade, a fertilidade do solo, a prodigalidade das colheitas e a paz contínuas.
Significado da palavra guesaA palavra significa escolhido para o sacrifício, órfão de pais vivos escolhido como salvador.
Literariamente, a palavra adquire outros significados.
O Guesa como Mito
A lenda é fruto do imaginário popular. O mito carece da sustentação de um texto literário que universalize a lenda de um ponto de vista de uma realidade ficcional, ou seja, a entidade legendária passa a existir como verdadeira, pela carga de verossimilhança de que é munida.
A assunção do guesa à categoria de Guesa deu-se quando o escritor, poeta Sousândrade, publicou o poema O Guesa, em que se inspira na lenda.
No poema, ele próprio, Sousândrade, plasma-se um Guesa Errante, pois ele se imagina sacrificar a si próprio em função da revitalização da cultura indígena, como redentor e para benefício de toda a humanidade. A partir desse ponto de vista, o guesa não mais simboliza apenas um muysca, mas todos os índios do mundo e o Caminho do Suna ou do Sol passa a ter uma abrangência universal de libertação.
Sousândrade, pessoalmente, foi um órfão que, quando adulto, fez a viagem de circunavegação da realidade ficcional de um Guesa literário.
Identidade dos guesas com JesusOs guesas nasceram de famílias humildes como Jesus e, como Jesus são desfamiliarizados e desenraizados das famílias genéticas, para serem adotados pelo mundo.
Os guesas, como Jesus, tiveram educação e instrução especiais.
Jesus percorreu os caminhos do mundo; os guesas, o do Suna. Todos foram submetidos a provas, sacrifícios e mortes cruéis.
O guesa é uma espécie anônima de índio, mas que, após o sacrifício de sua própria vida, usada como oferenda pela remissão dos débitos da tribo muysca com o deus Sol, assume um papel sobrenatural.
Ao dar um caráter de universalidade ao guesa, no poema autobiográfico, Sousândrade dá à lenda uma dimensão de mito.
Na realidade, Sousândrade perdeu os pais quando ainda era criança e acabou sendo deserdado de boa parte da fortuna que seus genitores deixaram-lhe ao morrer.
Por causa desse gancho retomado por Sousândrade, a palavra guesa passou a ser sinônimo também de artista daquele que se oferece verdadeiramente em sacrifício pela arte, ou seja, para criar uma obra literária que consuma todas as suas energias e até a sua própria vida.
Neste campo semântico, guesa significa todo ser humano que se sacrifica por uma causa humana de dimensão impessoal. Assim, guesa passa à categoria de mártir, órfão de pais vivos, tipo Édipo, exilado em sua própria pátria, messias, redentor, salvador, misto Sísifo e Tântalo.
NatalOs nascimentos de Cristo e dos inúmeros guesas que há pelo mundo são celebrados como eventos especiais, dignos daqueles cujo papel no mundo é serem sacrificados a bem da humanidade, isto é, morreram para que outros tenham vida, vida em abundância e prodigalidade.
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