Data de Publicação: 3 de janeiro de 2006

Amigos leitores, o fim do ano se aproxima e junto com ele começam a brotar aqueles sentimentos característicos dessa época, ou seja, sazonais. Monstros adormecidos, que despertam ávidos, para recuperar o tempo perdido. E sem mais nem porque, recebemos de bom grado de nossos amigos ocultos, ou não, presentes que jamais compraríamos para nós mesmos e nem ousaríamos dar a ninguém. Mas não se preocupem, não vou me demorar neste manifesto anti-consumo. É que me dói na alma essa coisa de confraternização a qualquer custo. E foi pensando nisso que escolhi este filme para me dar corda e algumas linhas nesta edição do Guesa, pois queria algo que viesse na contramão disso tudo, tão enfeitado e iluminado, exigindo atenção.
O filme é um média-metragem do diretor russo Andrei Tarkovski, de 1960, intitulado O Rolo Compressor e o Violinista. O mesmo foi apresentando como conclusão de curso no Instituto Central de Cinema da U.R.S.S. e narra a amizade entre um menino músico e um operário, de forma poética e sentimental (quem é mais sentimental que eu). Tarkovski, logo em sua estréia, já dá indício de uma estética extremamente poética que lhe será peculiar ao longo de sua carreira no mundo da sétima arte.
Na primeira seqüência, vemos o pequeno Sacha fechando a porta de casa e descendo as escadas com o seu violino. Aflito, se esconde dos amigos que o recriminam por ser músico, sendo alvo de maus tratos e chacotas. O operário Sergei se posiciona energicamente em defesa do garoto, e este, pode enfim, prosseguir em paz seu caminho rumo à escola de música. É o início de uma grande amizade. O artista começa a interagir com o operário de quem aprende lições que não são ensinadas na escola nem em casa, mas sim na própria vida e no convívio com o outro.
Tarkovski com esse filme mostra como o artista e o operário se complementam e de como a sensibilidade e a fragilidade podem adquirir força para conviver bem com os outros, sabendo se impor, com mais consciência política. E ao mesmo tempo proporcionando um pouco da sensibilidade do artista ao operário, através da música.
Os dois passam juntos uma boa parte do dia e o operário lhe ensina a operar seu rolo compressor para a alegria do garoto e admiração de seus colegas que começam a olhar com outros olhos o pequeno músico. Ao descobrir que aquele é o último dia de serviço do operário ali, os amigos combinam de irem juntos ao cinema.
O pequeno Sacha volta pra casa e ensaia seu instrumento, mas sempre atento ao relógio. Ansioso, se arruma para o encontro, mas sua mãe logo o impede de sair, argumentando já ter marcado um outro compromisso para o menino.
Diante da impossibilidade de ir ao encontro do amigo, o pequeno músico pega uma das folhas de suas partituras e escreve um bilhete na tentativa de se desculpar. Faz um aviãozinho e o joga através da janela...

É, amigos leitores, o natal está chegando e eu desejaria que o que movesse essa patuscada toda de ceia, peru Sadia e o que quer que seja, fossem sentimentos como esse, autênticos, verdadeiros. Mas, enfim, o que é que se há de fazer?!! Espero que pelo menos assistam ao filme e na hora da ceia se lembrem que existe algo muito maior do que tudo isso.
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