Data de Publicação: 3 de janeiro de 2006
Será que alguém tem motivo menos narcisista para escrever prefácios? Ou o prefácio não é apenas isso, essa vaidade mórbida de querer aparecer e reger uma orquestra que não lhe pertence? Ou que o prefácio algum dia venha ser um gênero paralelo, senhor absoluto de si, como sugeriu Jorge Borges?
Embora esta forma ingrata de agradecer ao contista Luiz de Mello a chance que ele me dá de aparecer neste seu primoroso livro de contos, conheço escritores que fizeram do prefácio, obra de arte. O dramaturgo irlandês Bernard Shaw foi um deles. Quando ele prefaciou suas próprias obras, o fez com um vigor tamanho e arte tão especial que seus prefácios, sobretudo os feitos para Santa Joana e Pigmaleão, excederam os textos dramáticos e hoje são considerados obras autônomas e invulgares.
Esse Jorge Luis Borges, também, não foi nenhum tolo e nenhum leviano escrevendo prefácio (ou prólogos). Tanto que acabou reunindo os mais significativos deles num livro que pode ser lido como uma obra única, de ensaio. E ainda se deu ao luxo de escrever o Prólogo dos Prólogos, onde deixou a professoral advertência: “O prólogo, quando os astros são propícios, não é uma forma subalterna de brinde; é uma espécie lateral de crítica”.
Mesmo assim continuo considerando os prefácios desnecessários. Não encontro onde a essencialidade destes apêndices na interioridade da obra prefaciada. Prólogo ou prefácio, é isso o que circula pelos dicionários: “discurso ou advertência, ordinariamente breve, que antecede uma obra escrita”. E ainda não apareceu o teórico disposto a disciplinar o caráter e a função deste trêfego penetra, além dessa frugal função ornatória: critico ou encomiástico, dependendo da relação prefaciador/prefaciado. A extensão? Nada definido academicamente.
Foram bastante desenvolvidos os prefácios/ensaios do Conde Prozor às peças do dramaturgo norueguês Henrique Ibsen.
Faz algum tempo, interessado em rever a famosa conferência de Sartre, O Existencialismo é um Humanismo, dei com uma tradução portuguesa do senhor Vergílio Ferreira (Editorial Presença) que, para o texto de menos de cem folhas do filósofo francês, o retórico e laudatório ensaísta lusitano aprontou um estudo/prefácio de quase trezentas páginas.
Eu, de mim, continuo dizendo, não encontro uma justificativa plausível para a existência deste corpo estranho apensado a uma obra literária. Mesmo para os quadros extremos, quando a obra discute uma idéia profundamente hermética e, do lado de cá, fiquemos com pressentimento de que o leitor não possua bagagem bastante para entender o discutido, continuo considerando o prefácio apenas uma bisbilhotice literária.
E discordo de Borges, quando ele admite que o prefácio possa ser uma espécie lateral de crítica. Afinal de contas, este é um espaço privilegiado, onde a relação fraterna tem muito que ver.
Se não houvesse o elo de amizade entre mim e Mello, com toda certeza eu estaria aqui me esforçando, a fim de reunir um raciocínio lógico na apresentação deste contista. Mas esse caráter do relacionamento é safado e destituído de mérito: inibe e transtorna.
A obra de Luiz de Mello é muito forte e sobrevivente a qualquer tipo de revisão.
Ele é o monge solitário que produz uma obra carregada de tensões. Leio e releio suas histórias e me esvazio na sua geografia de delírios.
Luiz de Mello não é um iniciante. Já publicou bastante na imprensa de São Luís, já ganhou prêmios literários, já figura em antologias de curso nacional. Mas este é seu primeiro livro só seu e isso tem-lhe mexido com os nervos.
Vítima e agente de uma comunidade carente e ociosa, ninguém pode acusar o mundo ficcional de Luiz de Mello de caótico e desconexo. Ninguém poderá dizer, inclusive, que esta coleção não faz sentido.
Também não deve ter feito sentido, para os leitores de sua época, o mundo ficcional de Faulkner, de Kafka, de Proust, de Orwell, de James Joyce e ainda hoje tem estudioso procurando o sentido da poesia de Sousândrade, se em arte há uma lógica primária para a construção das coisas.
Longe de mim querer admitir que, no estágio presente, a obra de Luiz de Mello esteja em plano de similitude com a dos escritores referidos. Não que ele seja desprovido de talento e nunca chegue lá. Porém, se o artista reflete o seu continente, o Maranhão do escritor vem da várias décadas atravessando uma situação confusa em todos os sentidos. Foram décadas traumáticas, profundo mergulho num limbo da apatia e narcose.
Quem escreve atualmente no Maranhão para a permanência?
Boa pergunta.
Os ficcionistas retroagiram a um estágio de crisálida e, se não fosse Nauro Machado, hoje um poeta de nível nacional, a poesia maranhense deste século seria uma torturante indagação.
Luiz de Mello com sua prosa absurda coloca em questão tudo o que já foi feito em águas passadas e convoca os escritores para uma reflexão madura.
Não há como incluir a sua literatura em modelos já conhecidos: nem nos moldes dos beats americanos, nem dos europeus surrealistas, tampouco do imaginário fantástico dos latino-americanos. Este seu delírio é único; a angústia de sua solidão não tem par. O estilo seccionado de sua frase, o soluço de suas construções surgem da sua própria experiência angustiante de vida.
O mundo recriado pelo artista é caótico. O corte frio do diálogo, da frase seccionada como que para mostrar seu interior absurdo, injeta um elenco de indagações no leitor.
Nesse mundo conflitado se entrechocam a loucura, o sonho de onde são sugadas formas de vida marginal.
Se o leitor ousar perguntar onde ele pretende chegar, a resposta é uma só: a lugar nenhum.
É angustiante, por exemplo, a versão que ele dá do apocalipse. E irônica a sua releitura das tentações bíblicas essenciais.
Poucos escritores na história universal da arte são donos dos seus personagens: sem transgredir com o seu delírio, sem violentar a sua logicidade do absurdo, ele se apropria de cada personagem e o conduz tiranicamente para o rumo que lhe apraz. É quando ele volta a ser tomado pelos espíritos líricos e entra em transe.
Premiado no Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís, em 1987, somente agora este livro está sendo publicado.
Depois desta série, Luiz de Mello já produziu outros tantos contos, outros tantos livros.
São Luís, março de 1989
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