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Edição 121

O realismo fantástico de Luiz de Mello

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Data de Publicação: 3 de janeiro de 2006
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Por: Arlete Nogueira da Cruz

A singularidade de Luiz de Mello é instigante. Quem o vê desde os anos 60, transeunte de uma cidade que lhe tem sido indiferente, sabe que em quase nada ele mudou nestes vinte anos.

Munido de misteriosa capanga debaixo do braço, com aqueles seus óculos espelhados, devolvendo generoso a imagem de quem o procura ver, percorre com igual passo as ruas de São Luis, o mesmo homem íntegro, avesso a qualquer tipo de servidão subalterna, pobre. O que poderia ser confundido com apatia, nele é perigoso consolo. Perigoso porque é consolo sem nenhum consolador ou forma de consolação.

Estou agora saindo da leitura de seus contos, com eles acostumada desde o final dos anos 50, e ainda sob a atmosfera pesada que os envolve e dentro do universo de completa singularidade que acaba urdindo a extraordinária unidade que o livro apresenta.

Poder-se-ia dizer que os contos de Luiz de Mello são fantásticos, policiais. Mas prefiro chamá-los de tétricos. Há, de fato, algo de tetro neles, como se presos a excitante pesadelo: “por que a obscuridade me deixava tão extasiado?” – indaga aquele condenado dentro da névoa, espiando o comprido corredor sob pilares de ferro do hospital. O que é considerado uma “bela casa” é a casa que foi decorada de panos pretos, feito estúdio fotográfico, no conto A Bailarina.

Há algo de fúnebre, funesto, nos contos de Luiz de Mello. Nada mete medo a seus personagens senão os mortos que, paradoxalmente, também os atraem. O herói é aquele visitante do museu da “Praça dos Mortos” que afirma: “À exceção dos mortos, nada receio”. E a amada nada mais é senão uma defunta (São Luis?): “O rapaz cheio de rosas era um coveiro? Lamentava supor que minha amada fosse defunta”.

Homens esqueléticos são personagens obsessivos em Luiz de Mello. Um deles, impressionante, aquele ser do final dos tempos, todo paralisado, apenas mexendo os olhos com gosto de fel para que não fossem devorados: “tinha os pés negros, as pernas azuis, o tronco amarelo, braços mulatos e cabeça ruiva”, uma mistura das raças humanas, servindo de alimentação ao último sobrevivente. Cada parte tirada desse esquelético, para ser comida, era renascida imediatamente. Outro personagem esquelético, também impressionante, é o do cadáver que emitia uma música capaz de atrair o sonâmbulo sentado no chão, junto à parede: “E a canção me parecia tão triste, tão medonha, que eu quis saber quem a executava. Corri pelo corredor, batendo nas paredes, me arranhando nas portas das salas e quartos sem luz (...) impossível penetrar no quarto principal, de onde fluía a névoa que se espalhava pelo casarão (...) e a música não vinha do quarto nebuloso, o produtor da obscuridade (...) Não sei quanto tempo durou a busca. Indo e voltando no corredor, eu não tinha observado uma pequena porta fechada (...) resolvi abri-la. Era um quarto excessivamente claro. E, deitado numa rede, um homem cadavérico cantava”. Como o sonâmbulo impediu-lhe o canto libertador, tornou-se ali companheiro do cadavérico condenado.

A semântica de Luiz de Mello é devastadora denúncia dos novos tempos: névoa, pocilga, lodos, lufadas quentes, lama, fumaça, mormaços, homens cadavéricos, seres condenados, quartos escuros, velhos navios, carcaças, ruínas, tráfego intenso, ruas apinhadas, gestos inúteis, barulho, correnteza traiçoeiras, trânsito estrangulado, buzinas impertinentes, neuroses coletivas, hospitais, monóxido de carbono, psicopatas, bêbados, prostitutas, mendigos, revólveres, barbitúricos, operários, asfalto, espelho e relógios.

São Luis, que talvez não perceba o autor destes contos e a sua observação, não aparece uma vez sequer como cenário na ficção de Luiz de Mello. Rio de Janeiro, algumas cidades do Pará e de Goiás servem às vezes de ambiente no desenrolar de suas tramas. Mas na verdade o que ele descreve é a atmosfera desta cidade que o tem fiel às suas ruas e à tragédia de seu povo.

Tardará muito a aparecer outra dicção, de sanluizense limitado por questões econômicas ao norte e sul, leste e oeste da cidade, tão singular quanto a de Luiz de Mello. Estupendo o conto Depressão. Bastaria este para torná-lo o grande narrador das coisas que estão aí a indignar os homens e as mulheres livres de São Luis. Como nós, o operário Alex que sabe “nunca mais o sol esquentará aquelas pedras” que o asfalto da modernidade e de seu discutível progresso veio para cobrir.

(Orelhas do livro Meridiano Oposto, de Luiz de Mello)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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