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Edição 121

Uma viagem pela história das artes plásticas no Maranhão

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Data de Publicação: 3 de janeiro de 2006
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Luiz de Mello publica livro sobre origens da arte maranhense

Autor de quase uma dezena de livros, o contista e pesquisador Luiz de Mello tornou-se, ao longo dos últimos 20 anos, um especialista no mapeamento da histórica das artes plásticas.

Com impressionante paciência e perseverança, o escritor vem realizando um cuidadoso trabalho de investigação de fontes biográficas e bibliográficas, compilando registros de fatos e personagens da história da arte. O resultado desse esforço é a sua mais recente obra sobre a origem das expressões da pintura, escultura, gravura e fotografia neste Estado. Trata-se de Cronologia das Artes Plásticas no Maranhão, um livro singular, minucioso e surpreendente.

Baseado em pesquisa histórica, que cobre o período de 1842 a 1930, o escritor faz o formidável resgate de quase 100 anos de trabalho plástico em São Luís e parte do interior do Estado.

Numa cidade carente de pesquisa histórica como São Luís, é raro encontrar quem melhor do que Luiz de Mello vá na fonte certa e dela extraia a informação precisa.

Com 478 páginas, Cronologia das Artes Plásticas no Maranhão não é a primeira obra de pesquisa – de boa pesquisa e de interpretação saudável – assinada por ele ou feita por encomenda para estudiosos de diferentes áreas sociais, políticas e culturais.

No ano de 2002, cercado por um grupo restrito de amigos e colaboradores, Luiz de Mello lançou outro fruto de sua pesquisa histórica e cultural, o livro Pintores Maranhenses do Século XIX.

Como assinalou o cronista Ubiratan Teixeira em um de seus artigos, o forte em Luiz de Melo não é o marketing, mas o conteúdo denso, sumarento e confiável de seus livros – quer seja ficção, quer seja pesquisa e erudição. O título é aberto, dando ao interessado a informação imediata de que ele precisa para saber o que vai encontrar na sua leitura: quem pintou o quê nesta cidade ao longo do século XIX. Não só quem pintou, mas os que abriram as picadas, pavimentaram o caminho, instilaram o fermento e construíram a base que possibilitou o aparecimento de figuras como Antônio Almeida, Zaque Pedro, Floriano Teixeira, J. Figueiredo, Cadmo Silva, Ana Borges, Péricles Rocha, Airton Marinho e um punhado de iluminados que pintaram, pintam e pintarão o Maranhão.

Amigos e admiradores como Jesus Santos, Nauro Machado e Renato Castelo Branco são unânimes em reconhecer a formidável capacidade de trabalho do escritor Luiz de Mello. Aliás, houve um período em que Luiz de Mello não fazia outra coisa nas 24 horas do dia, que não fosse pesquisar, pesquisar e pesquisar. Com esta tarefa árdua e com um trabalho minucioso, ele produz uma obra rica de informações, mas nem por isso destituída de sabor literário.

É Ubiratan Teixeira quem volta à baila para assinalar que Luiz de Mello é um excelente escritor e que raros ficcionistas de nossa atualidade a ele se ombreiam.

Ubiratan Teixeira observa que a obra de Luiz de Mello é recheada “de outra pintura, a que fala sobre o tempo e a geografia em que os pintores atuavam, as intrigas, os descaminhos dos artistas, confirmando a face mesquinha do maranhense diante do conterrâneo, a rudeza do relacionamento, esse caráter nefando do maranhense para com o maranhense, principalmente se o fulano não faz parte da patota”.

Reconhecido não apenas como excelente contista, mas também como um pesquisador de mérito, Luiz de Mello confessa que, depois de realizar muitas pesquisas, iniciadas em 1986, compreendeu que o Maranhão não podia continuar sem passado artístico e, por isso resolveu dedicar toda a sua atenção às artes plásticas, a partir de 1842, por ocasião da chegada do pintor italiano Domingos Tribuzi. “Quando compreendi que outros autores não se haviam aprofundado no assunto, deliberei realizar tudo isso sozinho, sem verbas do governo ou das entidades culturais de São Luís, de permeio a pesquisas para terceiros. Só para se ter uma idéia: não existem, em trabalhos anteriores, referências a Cardoso Homem, João Bindseil, Desiré Trubert e Joseph Dumas; e mesmo aquelas sobre Domingos Tribuzi, Leon Righini, Horácio Tribuzi, João Manoel da Cunha e José Maria Bílio Júnior são vagas, resumidas e, às vezes, errôneas”, afirma Luiz de Mello.

Estudiosos de artes plásticas já declararam que o primeiro escultor maranhense é Celso Antônio de Menezes, que apareceu em 1917, seguido de Newton Sá e outros. Mas Luiz de Mello prova, na sua cronologia, que havia escultores maranhenses na São Luís do século 19. Ele garante que o português Cardoso Homem, primeiro professor de escultura da Casa dos Educandos Artífices, foi quem introduziu a escultura nesta capital, em 1848. Entretanto, quase todos os escritores maranhenses que escreveram sobre belas-artes só se referem a Domingos Tribuzi.

Quanto a Leon Righini, pintor importantíssimo no cenário das artes plásticas no Brasil, Luiz de Mello assegura que é o nosso primeiro paisagista, jamais suplantado por qualquer outro de seu tempo.

Desiré Trubert, que chegou a São Luís em setembro de 1865 e daqui se retirou em maio de 1868, é outro paisagista ignorado. Deixou paisagens de valor, participou da primeira polêmica de pintura com Domingos Tribuzi e Leon Righini; integrou a Exposição Provincial do Maranhão e a Exposição Nacional do Rio de Janeiro, ocorridas em 1866, tendo doado duas paisagens ao imperador D. Pedro II.

Aos 61 anos de idade, Luiz de Mello diz que desconhece que fim tiveram as marinhas de Trubert, mas observa que esse obscuro pintor francês precisa sair do esquecimento, pelo menos entre nós, e ser incluído na lista dos primeiros artistas plásticos ativos no Maranhão quando, um dia, alguém tiver a feliz idéia de organizar uma do gênero.

Luiz de Mello observa ainda que Desiré Trubert é o nosso segundo paisagista, no que se refere ao século 19. Na avaliação do pesquisador, as referências a José Maria Bílio Júnior, Domingos Tribuzi, João Manoel da Cunha, Francisco Peixo Franco de Sá, Horácio Tribuzi, Giovani Venere, Cardoso Homem, Francisco Raimundo Diniz, Luiz Monticelli, João Bindseil, Joseph Dumas, Aluísio Azevedo, João Afonso do Nascimento, Joaquim Ferreira Barbosa – em se tratando apenas daqueles do século 19 – são precisas, norteiam, esclarecem dúvidas, apontam caminhos para os que quiserem, futuramente, elaborar monografias ou ensaios acerca de artes plásticas em São Luís.

Apenas no primeiro período (1852-1882), há cinco polêmicas envolvendo artistas plásticos: a primeira em 1852, entre Cardoso Homem e João Lisboa; a segunda em 1856, entre Leon Righini e o empresário José Maria Ramonda; a terceira em 1866, entre Domingos Tribuzi, Desiré Trubert e Leon Righini; a quarta em 1877, entre José Maria Bílio Júnior e o cenógrafo francês Leon Chapelin; a quinta em 1882, entre João Manoel da Cunha e o empresário Pascoal Mário Muzella.

Tais polêmicas, tão importantes do ponto de vista histórico, não haviam sido descobertas por outros historiadores ao longo do tempo. Certas compilações de textos de jornais de Portugal, Rio de Janeiro, Belém e Recife fornecem valiosos informes sobre escultores e pintores como, por exemplo, Leon Righini, Giovani Venere, Horácio Tribuzi, Francisco Peixoto Franco de Sá, Luiz Luz etc.

Sobre Francisco Peixoto Franco de Sá o pesquisador esclarece que “foi este que me deu um trabalho danado, porque várias leis autorizavam-lhe verbas para estudar na Europa, a partir de 1864, e somente em 1871 o pintor seguiu para Madri, onde permaneceria até 1877, transferindo-se em seguida para Paris, já na condição de bolsista do Imperador Pedro II. Só em 1896 Franco de Sá voltou ao Brasil, fixando residência no Rio de Janeiro até morrer em 1904. O que resta do espólio artístico maranhense, notadamente de pintores do século 19? Praticamente nada. De Domingos Tribuzi, nosso primeiro pintor, restam duas estampas (litogravuras) que ele executou para o Museu Maranhense, primeiro jornal ilustrado que circulou em São Luís, em 1842. De Horácio Tribuzi, creio que dois retratos a óleo, que se encontram no Museu Histórico (Rua do Sol), além da grande tela representando O Comércio (na Associação Comercial) e a Justiça, ainda hoje mal conservada numa sala do Tribunal de Justiça”, afirma Luiz de Mello.

Ele descobriu, com suas pesquisas, que havia dois retratos de Carlos Gomes no início do século passado, e ambos a crayon. O primeiro, por João Manoel da Cunha, desapareceu misteriosamente do salão nobre do Teatro São Luiz; e o segundo, por Luiz Luz, talvez seja o que atualmente se acha no almoxarifado do extinto Centro Caixeiral. Luiz Luz, que faleceu em 1910, foi excelente retratista a crayon, cenógrafo, atuou em São Luís, Teresina e Belém. Era pai do pintor Firmo Luz, outro ignorado, e Luiz de Mello presume que seria parente do artista plástico Milton Luz. Menos profissional que Luiz Luz, Levy Damasceno Ferreira executava retratos a crayon como hobby, visto que era funcionário graduado do Tesouro Público do Estado. Levy Damasceno faz parte da História das Artes Plásticas do Maranhão e, no entanto, está, como tantos outros, completamente desconhecido. Na residência da Sra. Helosine Mattos, viúva do médico Odorico Amaral de Mattos, há um grande retrato a crayon, do historiador Ribeiro do Amaral, confeccionado por Levy Damasceno em 1914. Apesar de Luiz Mello haver registrado inúmeros retratos a crayon, de autoria de Levy, apenas esses dois, já mencionados, foram localizados no final da década de 90. Levy Damasceno Ferreira, falecido em 1940, era pai do pintor Rubens Damasceno Ferreira, falecido em Niterói em 1979.

Da última geração de artistas plásticos, inseridos na cronologia, destacam-se Nestablo Ramos, Luís Ory, Luiz Luz, Manoel Valente, Levy Damasceno, Evandro Rocha, Inácio Raposo, Newton Pavão, Mário Carvalho, Newton Sá, Celso Antônio, Celino Porciúncula de Moraes, Raimundo Porciúncula de Moraes, sendo o principal, o reorganizador da pintura no Maranhão, o cearense José de Paula Barros, que para São Luís veio em 1915, para uma exposição de pintura e terminou fundando a primeira Escola de Belas-Artes que existiu na capital maranhense, no prédio que hoje é a sede da Academia Maranhense de Letras. José de Paula Barros formou gerações de pintores, foi um verdadeiro mestre, realizando quase a mesma coisa que Domingos Tribuzi realizara no século 19: dedicando-se ao ensino da pintura, do desenho e da escultura.

Diversos pintores, entre os quais Newton Pavão e Levy Damasceno, foram alunos de Paula Barros. Vale lembrar ainda que Inácio Raposo, só mencionado como poeta e jornalista, formou-se em arquitetura pela antiga Academia Nacional de Belas-Artes, e era um bom desenhista, um magnífico retratista. Em 1993, Luiz de Mello localizou cinco retratos a óleo, pintados por José de Paula Barros, num salão do Asilo de Mendicidade de São Luís. Paula Barros, como era mais conhecido, bastante requisitado dentro e fora do Maranhão, pintou dezenas e dezenas de retratos a óleo e crayon. Dedicava-se também às paisagens, às marinhas etc.

Todavia, o que resta do espólio desse pintor? Segundo Luiz de Mello, restam alguns retratos bastante mutilados, a óleo, crayon, foto-crayon e três paisagens de São Luís. Uma delas encontra-se na residência da Sra. Maria Frassinetti Sardinha, filha de Amina Paula Barros e que também é pintora, apesar da idade avançada.

Pelo tratamento dado ao material histórico e por fugir da aridez acadêmica, o livro de Luiz de Mello – formidável resgate da história das artes plásticas no Maranhão - interessa não só aos especialistas, como também aos estudantes e leigos.

Biografia

Luiz de Mello nasceu em São Luís-Ma, 1944. Iniciou sua trajetória no panorama literpario maranhense em meados da década de 60, colaborando em diversos suplementos literários de S. Luís. É autor de Meridiano Oposto (contos), Os Pintores Domingos e Horácio Tribuzi (ensaio histórico), Os Segredos de Guímel (contos) e Cronologia das Artes Plásticas no Maranhão.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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