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Edição 124

Prezado amigo Alberico Carneiro,

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Data de Publicação: 25 de janeiro de 2006
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Estou enviando, conforme prometi, os primeiros fragmentos inéditos do poema “A estrela enlouquecida”. É um poema ambicioso. Mas, como dizia um dramaturgo americano, cujo nome me escapa, se é para fracassar, que fracassemos estrondosamente.

Os alexandrinos do meu “bateau ivre”, que é “A estrela enlouquecida”, não são ortodoxos. Vão nascendo conforme o ouvido e não conforme a contagem pelos dedos...”

“Quanto ao prometido do poema inconsútil”, sobre “as visões” da estrela, você tem razão: verifico agora, ao relê-lo (a letra está incompreensível até para mim) que não tem pontuação, nem vírgula, nem ponto, nem pausa alguma. Bem sabemos que não se trata de inovação: apenas tentei falar, numa espécie de poema em prosa, ao final, rematando o epílogo, das “visões” da “Estrela Enlouquecida”, numa linguagem inconsútil e sempre ininterrupta, procurando ser como a própria natureza e como a própria vida, que na essência, não é compartimentada, prosseguindo sempre no espaço curvo, num continuum do espaço-tempo, mesmo quando cai num buraco negro, onde a luz fica retida, mas sempre capaz de, de súbito, escapar e seguir sempre.

... Conforme o demonstra a Física moderna (Relatividade e Física Quântica).

Já foi dito que hoje só se pode filosofar com a Física.

Não estou me metendo a fogueteiro, pois me falta formação científica. Mas, com a minha curiosidade de repórter, o meu livro de estréia foi o ensaio-reportagem O Centenário da “Origem das Espécies” sobre a obra monumental de Charles Darwin (edição do Serviço de Documentação do DASP – Rio – 1959).

Se o admirável bioquímico Asimov escreveu sobre os sonetos de Shakespeare (“scorn not the sonnet”...), não é de todo descabido que um poeta, ainda que limitado, meta o bedelho na Física.

“Do poema inconsútil” deve dar menos de duas páginas datilografadas. Tão logo o retrabalhe, envio-o a vocês, para que “O Vagalume”, se assim o julgarem, tenha a prioridade de publicá-lo”.

Rio, 15/11/1994

A Estrela Enlouquecida
Esboço, fragmentos inéditos, especial para o Vagalume)


(Tal como o “bateau ivre”, a estrela enlouquecida
varando a Vila Láctea um dia lhe escapou.
E como essa estrela era a da minha vida
pelo mar me vi como o barco de Rimbaud.

Mas era um mar sem mar, ausente água, oceano,
um dia sem dia sem noite; e o enlouquecido astro,
estrela nave além do além copernicano
consumia no espaço luminoso rastro.

Não perdia porém a condição humana
e a existência na terra em vôo eu vislumbrava,
[...]

Reflexos de areia acinzentada, répteis
fossilizados no planeta indiferente,
enquanto sobre a rampa escorrem os projéteis,
assim como asteróides deslizam em nossa mente.

Que mundo silencioso, escancarada estrela,
que gigantescas luas, que passivos espelhos,
penhascos e planícies extáticas pela
vastidão desses brancos, negros e vermelhos.

Petrificados rios, oceanos paralíticos,
e volumes imóveis, e ondas de montanhas
brancas vistas em pânico por pupilas estranhas
e limitadas por seus extremos raquíticos.

Jamais vistas tamanhas extensões demoníacas,
a luz olhando a luz, o cósmico Narciso,
quem sabe Deus olhando a morte da genesíaca
fonte de onde criara o amor no paraíso.
[...]


Como o poeta do abismo, eu por ser ser humano
desabei prisioneiro de outro tempo com
a vertigem que nem me agarrar pude neste oceano
“ni nager sous les yeux des pontons”.
[...]



(1ª versão para epílogo)

Quem me dera do sonho da vida desperto
Ser instante externo a humanas ilusões.
Quem me dera escapar finalmente liberto
do cárcere de onde só fogem as minhas visões.
[...]



(2ª versão para epílogo)

Pudesse eu me apagar, de mim mesmo desperto,
no instante exterior sem humanas percepções,
e assim escapar finalmente liberto
do cárcere de onde só fogem as minhas visões.


Manoel Caetano, 1994
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br