Data de Publicação: 20 de janeiro de 2006
Na sua mais consagrada obra de ficção, Os tambores de São Luís, Josué Montello, depois de enfocar as rodas vadias da velha Rua Formosa, destaca ainda um dos logradouros mais aprazíveis da cidade: a Praça da Alegria. Ocorre que, por uma ironia do destino, esta antiga praça foi um cenário de tristezas e de muitos tormentos. Era lá que, nos tempos da escravidão, se armava o patíbulo para a execução de negros escravos. A designação primitiva deste logradouro, Largo da Forca Velha, ajustada ao cadafalso, acabou substituída por outra, que lhe deu o povo: Praça da Alegria. A nova denominação inspirou-se na circunstância de que os pobres condenados, vistos de longe, pareciam pular de contente, logo que eram soltos no espaço com a corda no pescoço.
Montello conta no romance que, à medida que a cidade se expandia e povoava, começaram a aumentar os protestos contra os enforcamentos de cativos na Praça da Alegria. Área essencialmente residencial, com muitas crianças nas ruas, uma escola mais adiante, convinha evitar que o patíbulo continuasse a ser armado ali. Como o castigo da forca recaía, habitualmente, em negros assassinos, que se vingavam de seus senhores, houve quem alvitrasse que o cadafalso fosse erguido no próprio lugar do delito, tornando, assim, mais exemplar o suplício do criminoso. Mas se viu logo ser isso impossível, visto que os crimes freqüentemente ocorriam no interior das casas. Optou-se, então, por uma solução volante. A forca passou a ser armada, não mais na Praça da Alegria, mas na Praia Grande, no Largo da Cadeia, no Largo de Santiago, no Largo do Desterro e mesmo no chão baldio do Apicum, por trás da Quinta do Barão. Todos os sinistros apetrechos necessários às execuções passaram a ser guardados no Arsenal de Marinha, de onde eram retirados na calada da noite, e logo armados no local escolhido pelo Tribunal da Relação, para que, nessa mesma noite, ocorresse o enforcamento.
Numa das passagens fundamentais do romance, Montello descreve a cena do enforcamento de um negro, em praça pública, no centro da cidade:
Impelido para fora do estrado, o corpo ficou suspenso no ar, com os músculos do pescoço retesados, no esforço para conter o arrocho da corda. Nisto o negro conseguiu partir o nó que lhe atava os pulsos e levou as mãos acima da cabeça, tentando segurar-se na corda. Como não podia mover os pés, ainda apeados, contorcia-se todo, iluminado pelo clarão vermelho das quatro tochas, enquanto a multidão, cá embaixo, de respiração suspensa lhe acompanhava os movimentos, com um brilho de júbilo nos olhos espantados.
Conseguindo agarrar a corda, o negro ensaiou puxar o corpo para cima, tentando afrouxar o laço que o enforcava, mas as forças lhe faltaram. Tentou outra vez, estimulado pelos gritos do povaréu que se pôs a aplaudi-lo, e novamente falhou. De dentes cerrados, pescoço endurecido, quis insistir na luta desigual, contorcendo-se, pulando, a balançar-se no espaço, sempre puxado pela corda e de pronto os braços lhe caíram, com os ombros curvos, a cabeça pendida, a língua para fora da boca. Logo um toque leve de corneta vibrou no ar, anunciando o fim da cerimônia.
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