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Edição 120

II - A velha Rua Formosa e seu famoso Canto Pequeno

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Data de Publicação: 20 de janeiro de 2006
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II - A velha Rua Formosa e seu famoso Canto Pequeno

Uma das surpresas de Os tambores de São Luís, o romance monumental do escritor Josué Montello, é o curioso resgate da velha Rua Formosa, ou Rua Afonso Pena, no contexto do romance, porque lá existia o Canto Pequeno, onde rodas vadias se reuniam para falar gostosamente da vida alheia. Muito provavelmente foi o Canto Pequeno que inspirou o jornalista José Ribamar Bogéa (1921-1996) a fundar o seu diário intitulando-o de Jornal Pequeno. Em Os tambores de São Luís, o Canto Pequeno, situado nas proximidades do sobrado onde Bogéa instalou a redação e as oficinas de seu jornal, é retratado como um dos locais da capital maranhense, de onde saíam os apelidos para os governantes e políticos famosos da época. Montello lembra, em seu romance, que de muitos dos poderosos efêmeros que governaram o Maranhão, o povo vingou-se deles com o labéu dos apelidos: ao comendador Fernando Pereira Leite de Toyos, do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima, capitão-general da Capitania, alcunhou de Cavalo Velho, por ser um tanto burro e já idoso; ao Dr. Francisco Manuel da Câmara, que era moreno carregado, apelidou de Cabrinha; ao general Bernardo da Silveira, por ter um incisivo muito pulado, chamou de Dente de Alho.

No livro Breve História das Ruas de São Luís, do escritor Domingos Vieira Filho, o Canto Pequeno, é descrito como o local preferido dos negros de canga ou de ganho em dias de semana, com suas rodilhas caprichosamente feitas, falastrões e ruidosos. E alguns domingos antes do carnaval costumava um magote de pretos aí se reunir em atorda medonha. Ainda hoje, na esquina da Rua Afonso Pena com a Rua Henriques Leal, ou Rua Direita, há uma das capelas dos Passos, tombada pelo Patrimônio Histórico.

Também num de seus livros mais recentes - Um beiral para os bem-te-vis -, Josué Montello desenvolve uma romântica narrativa com várias referências ao Jornal Pequeno, que sabe de tudo quanto se passa em São Luís.

Ribamar Bogéa, na pele do velho Zé Pequeno, aparece numa das cenas capitais da trama, quando Venâncio Sezefredo reage, irado, à publicação da foto de sua neta, completamente nua, na garupa de uma moto, na capa do jornal.

Além de Ribamar Bogéa, outro ilustre personagem de Um beiral para os bem-te-vis é o padre e escritor João Mohana (1925-1995) que, durante muitos anos, viveu num dos antigos sobrados da Rua Afonso Pena, logo em frente ao casarão, onde hoje funciona o Hotel Pousada Colonial.

É importante assinalar que, com o livro A Grande Música do Maranhão, o padre João Mohana faz um formidável registro da riqueza da sonoridade maranhense, transmitindo a emoção de mostrar a beleza de que é capaz o espírito humano.

Polidas pedras, estreitas ruas,
velhos sobrados, velhas torres,
vosso sono é longe e atento:
guarda feitos, memórias, nomes;
guarda gemidos dos escravos –
fome de liberdade entre dores -,
guarda os passos firmes e eternos
dos santos e poetas maiores.


(Do poema As Vozes, de Bandeira Tribuzi)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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