Data de Publicação: 20 de janeiro de 2006
Para dar curso à série de textos que vem escrevendo sobre o Universo Poético das Ruas e Praças de São Luís, o jornalista e escritor Manoel dos Santos Neto evoca, através do mega-romance Os Tambores de São Luís, de Josué Montello, histórias, mitos e poesia da antiga Rua Formosa, hoje Afonso Pena e rememora os bate-papos no seu famoso Canto Pequeno, espécie de reedição libertária do Senado da Praça João Lisboa.
O pretexto, que tem uma perspectiva de duplo resgate, nos conduz até a época em que o saudoso e, então, jovem jornalista, Ribamar Bogéa, num remoto 29 de maio, há 55 anos, conjecturava sobre o Beco Pequeno, em que possivelmente se inspirou para fundar o seu Jornal Pequeno, espécie de tributo à tribuna popular dos humildes, naqueles idos.
O pretexto também traz à memória de Manoel dos Santos Neto o tormentoso Largo da Forca Velha, hoje, paradoxal e sadicamente Praça da Alegria, quando deveria ser do Luto ou da Vergonha.
O romance em questão, obra fundadora e mestra, enquanto do gênero mega-romance, Os Tambores de São Luís, tem afinidades com duas outra obras monumentais, no panorama internacional.
Com O Tambor, de Günter Grass, obra romanesca de 1953, cuja narrativa também é marcada pela batida explosiva do tambor do protagonista Oscar Maktizerat.
Com Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, obra de 1967, tem como afinidade a montagem de uma quilométriga árvore genealógica de personagens, que só encontra contrapartida na Bíblia Sagrada.
Em O Tambor, de Günter Grass, os pretextos da história, dentre outros, são uma cidadezinha remota da Alemanha e uma plantação de batatas, a partir do que o fio da meada é acionado.
Em Cem Anos de Solidão, os pretextos básicos são um vilarejozinho remoto do fim do mundo da Colômbia, Aracataca, a que chama Macondo, com sua plantação de bananas.
Em Os Tambores de São Luís, Josué Montello escolhe para pretexto uma ilhazinha remota e inverossímil, na época, São Luís.
Sem plantação de batatas ou bananas para justificar as quase quinhentas páginas do romance, Josué Montello investe no pretexto de uma alta sociedade, burguesa e parasita, que vive exclusivamente às custas do braço escravo negro, que é quem acaba construindo o hoje mundialmente reconhecido patrimônio da humanidade, o que não deixa de ser um acinte, já que esse patrimônio histórico foi construído às custas de sucessivos genocídios, sangue, suor, lágrimas e injustiças, para engordar o patrimônio particular de famílias tradicionais. Sim, não se trata de um patrimônio arquitetônico tombado, mas do mais imenso e abjeto pelourinho da História da Escravidão Negra.
Fica como consolo a boa intenção poética de Manoel dos Santos Neto ao relembrar os 30 anos de lançameto da primeira edição de Os Tambores de São Luís, sem dúvida uma obra de arrojo e ousadia de Josué Montello, que está aberta nas páginas 2 e 3, desta edição.
Na página de cinema, Vicente F. Júnior nos traz uma análise sobre o controvertido e polêmico filme 9 Songs ( 9 Canções), uma película que vale pelas canções, segundo a argumentação impecável de Vicente. Vale a pena conferir ou comprar o cd com a trilha sonora respectiva.
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