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Edição 119

Poesia Maranhense Contemporânea (III)

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Data de Publicação: 20 de janeiro de 2006
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(O poeta Celso Borges ao passado: Never More!)

Por: Alberico Carneiro

O estudo da origem explosiva e a lenta evolução do poema de caráter experimental ou marginal, no Maranhão, carece, indiscutivelmente, de uma base contextual.

As primeiras incursões transgressoras de filho de solo maranhense, que apontam para uma nova maneira de conceber o poema, portanto diferente da convencional ou tradicional, encontram-se no monumental discurso poético, que Sousândrade propôs no épico O Guesa ou O Guesa Errante. Nessa obra, estão as vertentes literárias das raízes da moderna poesia brasileira.

Publicado em 1865, O Guesa é pleno de invenções vocabulares, principalmente nos episódios Tatuturema e O Inferno de Wall Street.

A invenção vocabular atém-se à área de criatividade que tem a ver com a linguagem ao nível da revolução metalingüística. Trata-se da criação de neologismos, com o uso de recursos de hibridação lingüística – polissemias.

Algumas referências ao trabalho inovador de Sousândrade poderão ser conferidas nas edições 8, 9, 10, 52 e 53 do Suplemento Cultural & Literário JP Guesa Errante que, no Anuário I, edição de 2003, correspondem às páginas 26 a 34 e 144 a 148.

Ressaltem-se que os dois episódios mencionados transgridem, também, a estrutura do poema convencional.

Somente em 1954, no Maranhão e no Brasil, o terremoto clandestino de Sousândrade teria eco em Ferreira Gullar, quando da edição de A Luta Corporal, obra poética, revolucionária, divisória de águas.

O caráter polêmico da obra gullariana inclui a explosão da sintaxe e da estética tradicional do poema, que se amplia e aprofunda com as obras Poema Sujo, 1976, e Crime na Flora, 1986.

As experiências marginais de Ferreira Gullar demarcaram mudanças radicais na concepção do poema que, a partir dele, deixa de ter uma estrutura imutável.

Para se ter um perfil das transgressões gullarianas, conferir as edições 74, 75 e 76 do Suplemento Cultural & Literário JP Guesa Errante que, no Anuário II, edição de 2004, correspondem às páginas 129-149.

As rupturas experimentais de Ferreira Gullar, que em alguns pontos confinam com as experiências de E. E. Cummings e os transracionais russos, vão além da explosão da sintaxe, passando pela revitalização de palavras do ponto de vista semântico e pela busca de começar a criação do poema a partir do nada ou do caos, quer dizer, demiurgicamente, ou seja o escritor procede como deus da criação literária.

Em 1970, o poeta Raimundo Fontenele acena para um novo tipo de construção do poema, desfamiliarizado e desenraizado. A pedra de toque é a obra Chegada Temporal, 1970; depois vieram Às Mãos do Dia, 1972; Presença, 1980; Pelos Caminhos pelos Cabelos, 1982; A Colheita do Mundo. 1986; Venenos, 1994 e Marginais, 2001.

O estatuto poético de Raimundo Fontenele acena para uma guinada no universo da poesia marginal ou experimental maranhense, quando persegue uma linguagem poética que busca resgatar a poesia em seu estado quase puro. Puro total é impossível, como é impossível assistir no dia seguinte ao mesmo pôr-de-sol de ontem.

Ave rara, tipo transgressor rebelde, ele nos lembrará, com superior maturidade, as incursões de marginais como Edgar Alan Poe, Baudelaire, Rimbaud, porém muito mais libertário, porque avança para uma linha de fogo muito mais despida da camisa de força das convenções idiotas de versificação que ainda amordaçaram certos gênios por imposições burguesas acadêmicas da encantação pelo métrico que, às vezes, amputoa o poético.

Raimundo Fontenele é uma espécie de poeta goliardo ou vagante moderno, cuja poesia tem pontos de confluência com a poesia hippie, beat, pé-na-estrada, de Allan Ginsberg e Jack Kerouac.

Para melhores esclarecimentos, conferir o Suplemento Cultural & Literário JP Guesa Errante, edição 45 que, no Anuário I, corresponde à página 130.

Luís Augusto Cassas é outro poeta que se articula ao nível dos experimentalismos e apresenta fortes indícios de transgressão do poema tradicional. Essa leitura perpassa várias de suas obras, entre elas República dos Becos, 1981; Rosebud, 1990; Ópera Barroca, 1998; O Retorno da Aura, 1994 e O Vampiro da Praia Grande, 2002. .

Conferir nossa opinião crítica sobre o poeta Luís Augusto Cassas, no Suplemento Cultural & Literário JP Guesa Errante, as edições 33 e 47 que, no Anuário I, correspondem às páginas 98-99 e 132.

Outro poeta contemporâneo que se tem destacado pela invenção de uma nova estrutura para o poema, felizmente, ufa, e que busca e consegue, também, fugir aos padrões convencionais, é Fernando Abreu. Demos graças a Deus que sempre existiu por escrever torto por linhas retas.

Optando pelos poemas curtos, quase haicais, Fernando Abreu, oportunamente, investe numa experiência aberta ao diálogo com outras linguagens poéticas irreverentes que vai de Cummings a Paulo Leminski.

São atestados dessa nova dicção no panorama da moderna poesia experimental maranhense as obras de sua autoria, Relatos do Escambau, 1998 e O Umbigo do Mudo, 2003.

Para melhor conhecê-lo, conferir no Suplemento Cultural & Literário JP Guesa Errante, a edição 69 que, no Anuário II, corresponde às páginas 102 e 103.

O poeta Celso Borges vem, nos últimos anos, desenvolvendo um trabalho marginal que vale a pena conferir. É o que pretendemos ler para começar esse novo ciclo da novidade:

XXI POEMAS DE CELSO BORGES

| amor |

como padece o amor
– frágil –
como padece entre as rameiras
entre o chão e as esteiras de toda a vida
como padece feito pedra desgastada pela correnteza
como padece a vida do dia-a-dia
a vida e as esporas rastejantes

o amor
objeto da cidade em movimento
(p. 31)


| narciso acha feio o espelho |

rugas rugem no rosto
rasgam a pele pelo meio, rangem
abrem trilhas trevos, travessia de mau gosto
deixam rastro raízes imposto

rugas surgem na vertigem da cara
rasgam traços furam faros, ferem
fazem falhas fendas de carne rara
fabricam ferida que nunca sara

rugas mudam de cor a seda virgem
rasgam finos poros plantam fuligem
fundam sem truque a falta de infância
riscam estrias sobre tenra elegância

rugas inauguram dor e cicatriz na juventude
rasgam ventas mancham murcham toda plenitude
marcham com navalhas impondo duro corte
golpeiam o futuro anunciam sua morte

rugas vagam entre massas maçãs e narinas
rasgam véus vãos secam flores femininas
espalham decadência cegam punhais e beleza
quebram espelhos afiam lâminas trevas tristeza
(p. 35)


| pária |

somos poucos
cada vez menos

somos loucos
cada vez mais

somos além
dessa matéria óbvia
que nos faz dizer
– tá tudo bem.
(p. 39)


| now |

o sucesso do amanhã é um comércio
que desconheço como poeta
não me cabe exercitar a beleza do futuro
ou colorir utopias quase sempre alheias.
eis o preço que pago por trazer comigo
o presente em estado de emergência.
(p. 75)


| in |

te ponho dentro do poema
entre vírgulas, parêntesis
tua pele passa e brilhas folha a folha
te vejo entre aliterações e rimas

teu corpo vivo nu no verso
teu corpo verso
viva o verso no universo de teu corpo vivo
vivo. Vivo!

o futuro não é delicado com a gente
mas delicado multiplica-se nas páginas
– tu és o livro do mundo e ponto final
(p. 49)


| persona non grata |

eu disse quase tudo
eu quase não disse nada
é disso que sou feito
nem leite nem nata
persona non grata

esse o meu futuro
o ouro de que me acumulo
o verbo o pulo
o salto por cima do muro
(p.86)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br