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Edição 119

Editorial

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Data de Publicação: 20 de janeiro de 2006
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Num momento em que, no cenário da poesia brasileira marginal ou experimental, inúmeros poetas caem na cilada do caminho mais fácil dos poemas clichês, papéis carbonos, lugares-comuns, blagues e equívocos retumbantes, é consolador dialogar com os textos de um poeta maranhense, como Celso Borges que, nesta edição, se compõe nas páginas 2 e 3. Lendo-o, tem-se a impressão de que muitos ainda não entenderam que a opção pelo poema mais curto tenha uma finalidade radicalmente diferente que a de encontrar o caminho mais fácil.

Construindo os poemas com a convicção de que a eleição dos textos curtos tem mais que ver com a busca de inserir o poema na página com o mínimo de palavras possível, mas com o máximo de significados, Celso Borges, pelo desvio e às avessas, tem procurado uma maneira nova de significar-se poeticamente, identificando-se com uma linguagem que aponta para os mais revolucionários signos e códigos poéticos. Trata-se da visão poundiana do condensare (acumular), proposta pelo poeta faber (trabalhador, que se exercita com febre e ardor). Isto, sem perder de vista uma profunda ligação com as vivências interiores do solitário cidadão cibernético.

É essencial de sua poética a emotividade e o enternecimento que se cruzam paradoxalmente numa sociedade global, sem esperança nem medo, conforme diria Nietzsche.

Essa consciência tem, no panorama internacional, pontos de freqüência, convergência e confluência com a linguagem de E. E. Cummings.

Poeta transgressor, Celso Borges aponta para aquele campo de investigação poemática experimental que inclui releitura e desconstrução. Desse ponto de vista, ele faz referências a inúmeros poetas, despreconceituosamente, passando por Olavo Bilac, Raimundo Correia, Gonçalves Dias, mas também por Fernando Pessoa, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar e indo até Edgar Alan Poe e E. E. Cummings.

Em Universo Poético das Ruas e Praças de São Luís (V), o jornalista e escritor Manoel Santos Neto faz uma leitura brilhante do Largo dos Amores ou Praça Gonçalves Dias.

O escritor Mário Meireles, de saudosa memória, contava que foi justamente no lugar em que se edificou a praça que recebeu o nome do poeta dos sabiás, que Gonçalves Dias e Ana Amélia se encontraram pela última vez e, às escondidas, em São Luís. Muito tempo depois teriam um outro encontro, em Lisboa, Portugal, do qual nasceria o incomparável Ainda Uma Vez Adeus, uma autobiografia do amor trágico que os marcou para sempre.

Conta-se que, certa feita, houve um recital de poemas no Teatro Artur Azevedo lá pelo final do século XIX. Um dos poemas declamados e mais longamente ovacionado foi justamente o Ainda Uma Vez Adeus, de Gonçalves Dias.

Consta que, ao final dos aplausos e cessado o burburinho, ouviu-se, vindo de um dos camarotes, os soluços intermitentes de alguém. Foram verificar. Tratava-se de uma velhinha. E aquela velhinha era Ana Amélia. O poema tinha cumprido o seu papel de perdão e compaixão.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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