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Edição 118

Poesia Maranhense Contemporânea (II)

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Data de Publicação: 20 de janeiro de 2006
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Dentre os poetas que têm influenciado a literatura experimental ou marginal contemporânea, um dos nomes mais expressivos no panorama universal é o norte-americano E. E. Cummings (1894-1962).

O caráter transgressor ou arbitrário da obra poética de E. E. Cummings extrapola a todos os níveis de experimentalismos que o procederam. Ele não desconstrói radicalmente apenas a estética do poema, quer metrificado, quer na linha do livre-metrismo. Cummings instaura um processo radical de desconstrução da linguagem poética articulada pelo avesso, cuja base principal caracteriza-se pela redução das palavras às articulações silábicas ou a cacos. Assim, ele cria o poema a partir do caos, revelando-se um poeta demiurgo revitalizador da semântica.

Um poeta, portanto, diferente de todos que o precederam: estranho, desfamiliarizado, desenraizado, órfão demolidor e desestruturador. Ele vai além de qualquer limite, aliás, para ele não há limites nem fronteiras ou territórios demarcados. Ele é o próprio território da linguagem poética devassada e devastada, levada às máximas (in) conseqüências.

Ele não só rejeita os cânones e códigos sintáticos, vérsicos, ortográficos e mórficos convencionais, como viola magistralmente o estatuto da pontuação, das notações léxicas, do uso de letras maiúsculas. Cummings faz mutações e clonagens nas palavras. Opera milagres semânticos. É uma espécie de cirurgião do poema, capaz de desconstruí-lo para fazê-lo melhor e novo, criado a sua própria imagem e (des)semelhança.

Ele nos instiga a ir além, a ousar, à rebelião, quando desconstrói arbitrariamente as palavras, reduzindo-as a morfemas mínimos, a sílabas fraturadas, a fonemas, a cacos, começando do zero, do caos, minimalisticamente demiurgo.

Cummings, a partir do nada, de insignificâncias chega a tesouros de faturas e fortunas semânticas.

Há em seus poemas aquela busca de reproduzir uma linguagem que substitua e represente as articulações da linguagem que se instaura no ser humano, antes do discurso poético mentalmente organizado; por trás das normas, lá antes na desordenação do inconsciente onde o poema ainda está inarticulado ou desarticulado como texto em gestação, embrionariamente genial.

Transgressoramente, supomos, é isso que ele pretende nos passar, nos surpreendendo com uma estrutura poética telegráfica de códigos morse, em que as letras são representadas por conjuntos de pontos, traços susceptíveis de serem transmitidos telegraficamente, alguns poemas quase em relevo como se em braille.

São poemas que procuram apagar os indícios, as pegadas ou rastros do discurso poético coerente ou organizado, com dissoluções inesperadas, lances inusitados e surpreendentemente desconcertantes, chegando ao apogeu do poema nonsense.

Da obra 40 POEM(A)S, E. E. Cummings, tradução de Augusto de Campos, destacamos os poemas 37, 35, 32, 30, 29 e 27, em versão bilíngüe. Dessas desconstruções radicais apresentamos transcrições, transcriações e traduversões, a título de exemplos, de como os poemas seriam em versões bem-comportadamente modernas.

E.E. CUMMINGS ainda acessível para todos

BIOGRAFIA de E.E. CUMMINGS


Edward Eastlin Cummings nasceu em Cambridge, Massachusetts, Estados Unidos da América do Norte, em 14 de outubro de 1894. Entre 1911 e 1915 especializou-se em literatura grega, em Havard.

Segundo Haroldo de Campos, “Um autêntico homem sem profissão, Cummings viveu por toda a sua vida dos parcos ganhos de poeta e pintor.(...)

Falecido aos 67 anos de idade, em 3 de setembro de 1962, Cummings pertence à estirpe dos inventores da poesia moderna, ao rol daqueles poucos que realmete transformaram a linguagem poética de nosso tempo, em sintonia com o prospecto de uma civilização cujos crescentes progressos científicos vão abolindo vertiginosamente as fronteiras entre a realidade e a ficção. Sua obra poética, reunida em Poems (1923/1954), Harcourt, Brace), livro ao qual se devem acrescentar os 95 Poems de 1958 (idem), oferece duas vertentes: poemas em que o autor mantém um aspecto formal mais tradicional, em que respeita o fluxo linear dos signos (embora a sintaxe sofra constantemente a interferência de elipse e parênteses e a semântica seja objeto de uma inusitada elaboração), e poemas em que a sintaxe já é ostensivamente visual, nascendo de uma como que sinestesia tipográfica.”

nalgum lugar

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer aparência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua intensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas


(E.E. Cummings. Nalgum lugar. Tradução de Augusto de Campos. In Líricas, Zeca Baleiro)

Como seriam os poemas numa versão bem-comportadamente moderna, ficando o dito pelo não dito, já que os poemas de E. E. Cummings são imutáveis em sua estrutura:

Poema nº 32

eis o mais feio:
sub suburbano,
no horizonte sobre a terra,
entre cujas sujas casas
assoma a mancha ovoamarelada
do ocaso invernal


Poema nº 37

névoa (como em sonho)

torna grande cada diminutivo
faz o óbvio estranho
até que nós mesmos viremos
magicamente mundos


Poema nº 27

imóvel você está dormindo:
abelha na única rosa


Poema nº 35

Um riso sem um rosto
(um olhar sem um eu)

cuidado (não toque)
ou desaparecerá sem ruído
(na doce terra)

& ninguém
(inclusive nós mesmos)
relembrará
(por uma fração de um momento)

onde o que como quando
por que qual quem
(ou qualquer coisa
)

Poema nº 30

“mas por que”

o maior dos mágicos vivos
(a quem você e eu algumas vezes chamamos abril)
quantas vezes há de pensar
quando as flores são sempre incrivelmente belas:
tanta gente é assim tão incrivelmente feia


Poema nº 29

o velho prega cartazes:
Fique a Distância
& o jovem os arranca
(o velho grita:
Não Ultrapasse)

o jovem ri
(se o velho ralha:
Proibido Pare
Não Deve
Não Pode)

& e o jovem vai em frente
ficando velho


Poema nº 28

veja esta velha quase dama
suavemente a jogar migalhas

uma a uma a
dois três quatro cinco seis
pard’ais
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