Data de Publicação: 20 de janeiro de 2006

A criança é um estado de espírito eterno, enquanto dure a existência das lembranças pelo fluxo da memória ( a existência do bípede, um quadrúpede em potencial em permanente estágio de jogo: Esquecer quem há de?).
A criança é o eterno ser que finge a vida inteira em haver-se transformado em adulto. Na realidade, nunca deixará de ser um pseudo-adulto.
Há as exceções dos que fingem chegar à adultidade, o que é possível a todos, apenas do ponto de vista cronológico, nunca do ponto de vista psicológico.
Há exemplos típicos de quantos tentaram tapear a realidade. Dentre eles, destaquem-se, no panorama universal, Calígula, Nero, Hitler, que usaram as crianças que havia dentro deles para brincar de matar, de genocidar, por puro prazer, como crianças, por curiosidade, matam coletividades de formigas, abelhas ou libélulas. E para a idade da inocência, tanto faz.?
Será que os carrascos que praticaram decaptações, na Europa, durante séculos, perderam as crianças que os fizeram existir, sentir e compartilhar?

O professor e escritor brasileiro, Josué de Castro, uma das maiores expressões internacionais nas áreas de antropologia e sociologia política, em sua obra mestra, Geopolítica da Fome, chama a atenção dos educadores e pais do mundo inteiro para a sua tese sobre o ser humano: biológica e psicologicamente, somos, no ‘adulto’, uma conseqüência do que fomos durante a vida no útero até os sete anos de idade. Daí para frente, pouco ou quase nada pode ser acrescentado, do ponto de vista humano..
Sem dúvida, Josué de Castro, um dos mestres de saudosa memória brasileira, representa, no contexto das pesquisas sobre a sobrevivência neste Planeta, uma das vozes que pôde, de maneira sintética e prática, expressar o que Freud, Jung, Piaget e alguns outros expressaram sobre o ser humano.
Na realidade, Josué de Castro conseguiu ir além da tradição dos mestres europeus, porque conviveu com Homens Caranguejos.

No panorama da Literatura sobre a criança e o adolescente, Monteiro Lobato está além dos fundadores de literatura sobre e para a infância, porque, antes de tudo, sofreu, na própria carne, os dissabores que são resultados de crimes cometidos contra aqueles que acreditam, na teoria e na prática, que somos eternas crianças. Numa criança adulta as injustiças sempre doem muito mais. Afinal de contas, quem nunca foi um Malazarte, um Cancão de Fogo, um Macunaíma?
O imaginário da criança é a única realidade possível, quando não corrompido pelo que formulou McLuham, de maneira pessimista, sobre a sobrevivência do livro, em As Galáxias de Gutenberg.


Orson Welles, na obra literára e cinematográfica revolucionária, Cidadão Kane, cria um protagonista que, na pele de um octogenário moribundo, se lembra de um brinquedo, possivelmente um trenó ou bicicleta ou (...). Esse brinquedo que evoca, evoca na memória do ancião a memória da criança que ele sempre foi. Na realidade, esse brinquedo representa aquele bem que foi subtraído à criança em sua fase da vida mais sensível.
Por falar nisso, acho oportuno lembrar aqui um dos maiores poetas do cinema contemporâneo, o japonês Akira Kurosawa, o dos filmes Sonhos e Dodeskaden.
No caso de Orson Welles o brinquedo, Rosebud, que ao longo de décadas ficou abandonado numa dispensa, ressurge para o Cidadão Kane na hora da morte, naturalmente pelo fluxo da memória e no monólogo interior.
Ao morrer Kane apenas murmura ou sussurra em sua solidão interior: Rosebud, uma palavra mágica nonsense que, para ele, significava, no momento, a infância revisitada e reconquistada.
Akira Kurosawa, em seus filmes, dá uma dimensão genial do que seja a criança que sobrevive eternamente no adulto, quando demonstra através de personagens marginais que, sem nenhuma perspectiva de vida, em estado de fome e de miséria, conseguem ser alegres e extrovertidos, sobrevivendo através das crianças que carregam em suas almas.
Na realidade sempre foram os adultos e não as crianças que, por necessidade de voltarem à Terra do Nunca, criaram o imaginário de toda uma literatura, daí os contos universalmente conhecidos como Branca de Neve e os Setes Anões, A Gata Borralheira, Gulliver, O Gigante de Botas de Sete Léguas, Ali Babá e os Quarenta Ladrões. Porém, todos esses mitos fazem parte de um mundo inverossímil.
Os adultos criam mitos que são paradigmas das próprias concepções que têm sobre o que seja melhor para o universo dos sonhos e desejos das crianças. Os adultos também se tornam mitos, através de seus atos de bondade ou de maldade. As crianças, porém, não têm necessidade de criar mitos, pois elas próprias representam qualquer ficção que queiram criar.
No desenho das flores
No cabelo cacheado
Como laranja é a cor preferida
De nós rosas vermelhas!
A parede é para desenhar
(p.08)
A borboleta bebe a água
Mais leve, mais leve
A água é mais leve que a busca da borboleta
(p.09)
A natureza é linda, bela
Linda como a arara
Bela como a natureza
Do passarinho
(p.10)
Passarinho maluco
Vai, Vai
Aonde nunca chega
Quando eu vou sair daqui?
Não tenho tempo
(p.11)
Coração
O amor de abre
O castelo não se abre
O desenho é uma história
E a flor não se abre
A rosa que se espinha
E o nunca do amor
(p.06)
Eu só vejo as plantas
E as pessoas e os animais
A praia é grande!
(p.12)
A noite é um cinema
Amanhã é um sol nascente
Nos teus olhos que vão amanhecer
O arco-íris dos meus lábios
(p.22)
O mar balança
A lancha e o meu coração
O mar, o mar, o mar ...
(p.15)Henriqueta Evangeline
Nasceu em 09 de agosto de 1998 Henriqueta Evangeline, filha de Luís Augusto Rabelo Júnior e Conceição de Maria Correa Feitosa.
Iniciou os estudos no Colégio Colméia, passou pelo Batista e está no Colégio Santa Tereza, há dois anos, onde cursa a 1ª série do ensino fundamental. Faz inglês no ICBEU.
Na contracapa do livro Castelo da Poesia, de Henriqueta Evangeline, lançado em 2004 e reeditado em 2005, pela Editora Lithograf, o escritor Sérgio Brito, afirma: a poeta , não como Casimiro de Abreu, cuja vocação poética teria sido despertada aos 8 anos ao correr pelas campinas, peito aberto, braços nus, /atrás das asas ligeiras/ das borboletas azuis, mas em sua solidão de filha única, tendo como fonte de inspiração a paisagem urbana da Praia Grande, no Centro Histórico de São Luís, onde vive e de onde vê árvores, aves, flores e sereias, estas, no mar que, como ela revela, balança a lancha e o meu coração.
Henriqueta Evangeline Feitosa Rabelo tem apenas 6 anos e já é uma verdadeira poetisa.
Ser poeta aos 6 anos de idade é um fato raro ou no mínimo, uma exceção à regra, porém às vezes aflora na mente de uma criança o precoce dom da poesia. Henriqueta Evangeline é um desses casos singulares ao estrear em 2004 com a publicação do livro Castelo da Poesia, uma coletânea de micropoemas surrealistas e em linguagem nonsense que ela tão belamente emoldura com suas próprias ilustrações, demonstrando um outro lado da sua veia artística em termos de criação também como poeta de uma das formas das artes plásticas, a pintura.
O que há de especial nos pequenos poemas de Henriqueta Evangeline é a técnica com que ela costura sua emotividade, utilizando-se daquele pretexto que dá às palavras sentido poético, a sutileza, com o que ela surpreende e enternece o leitor, valendo-se do deslance inesperado e inusitado.
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