Data de Publicação: 20 de janeiro de 2006
Esta edição Guesa Errante tem um caráter todo especial – homenagear a criança. Desse ponto de vista, procura resgatar uma memória da infância revisitada por escritores e obras literárias. Fixa-lhe o perfil no contexto da literatura, da biologia, da psicologia e da psicanálise. É um resgate que, sem dúvida, em tempo oportuno se acrescerá de novos estudos.
E o primeiro mito literário relativo à criança poderá ser evocado através da figura do próprio Guesa Errante, um símbolo do menino que, logo ao nascer, é arrancado aos pais e criado no exílio. Será posteriormente imolado ao completar 15 anos, tendo o seu coração extirpado, para oferenda ao deus-Sol, segundo o mito ritual dos índios muyscanos da Colômbia.
Sousândrade, em quem o nome deste Suplemento tem suporte, em função de sua obra literária, o poema épico O Guesa, procura resgatar esse mito da criança abandonada ou traída, tomando como paradigma, por recorrência ou confluência, sua própria vida de menino roubado em bens, quando ficou órfão e acabou se tornando um andarilho ou sem raiz. Daí o aspecto autobiográfico da epopéia em questão.
Este prólogo é um pretexto para dizer e enfatizar aqui o número alarmante de crianças abandonadas que perambulam e trafegam sem destino por ruas, praças, avenidas e outros logradouros públicos da Ilha dos Amores, sem nenhum amor por parte dos poderes competentes.
Numa sociedade de capitalismo selvagem e de instituições públicas administrativamente perversas, como a brasileira, vale uma profunda reflexão, hoje, sobre o que seja controle e poder neste país e sobre a necessidade urgentíssima de uma radical reforma administrativa, sem a qual é impossível o exercício das instituições democráticas.
No panorama universal, dois fortes mitos se irmanam ao Guesa, o de Oskar, a criança que se recusa a crescer biologicamente, protagonista do romance O Tambor, de Günter Grass, na Alemanha, diante das atrocidades perpetradas durante a Segunda Guerra Mundial em campos de concentração, inclusive contra crianças. O segundo é o mito criado em torno da vida do poeta francês Rimbaud que, a partir dos dezessete anos, se recusa a crescer psicologicamente e a ficar adulto, mesmo tendo morrido após os trinta anos de idade.
Ambas as recusas são formas de protesto contra a intransigência, intolerância e prepotência dos adultos, cujas ações corruptas desestimulam as crianças a crescerem como e com adultos.
Para resgatar o acervo ou a história da literatura infantil, nesta edição, a professora e escritora Dinacy Corrêa faz um mapeamento cronológico dessa literatura desde o século XVIII, numa panorâmica internacional, brasileira e maranhense.
São obras e autores que buscam criar correspondentes ao imaginário das crianças.
O estudo da escritora Dinacy Corrêa constitui uma contribuição primorosa, em termos de pesquisa direcionada para crianças de todas as idades.
De maneira didática, Dinacy Correa faz uma retrospectiva de obras de Literatura Infantil de época.
Para representar a criança, neste 12 de outubro, ninguém melhor do que uma criança poeta que, no caso, trata-se de Henriqueta Evangeline, autora do livro Castelo da Poesia. Sem dúvida, uma poeta cuja precocidade se expressa através dos micropoemas surrealistas que ela tão belamente emoldura com suas próprias ilustrações.
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