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Edição 116

Poesia Maranhense Contemporânea (I)

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Data de Publicação: 20 de janeiro de 2006
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(Ou De como as Carmina Burana e a Coena Cypriani fundaram a Poesia do Iii Milênio)

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Introdução


Qual a poesia que queremos para o III Milênio? Qual a linguagem poética que nos tocará o coração, passada a fase do formalismo, dos clichês, das blagues, do deboche e da banalização?

De onde vem essa poesia que se quer desenraizada e desfamiliarizada, escrita para todas as tribos e para todas as pátrias?

As indagações nos arremetem a dialogar com textos e escritores de várias vertentes.

Virá da proposta poética lírico-social, panfletária e revolucionária de Maiakóvski, o poeta russo que, na primeira metade do século XX, propôs para a poesia uma linguagem que serviria também para comerciais?

Virá do Uivo, do norte-americano Allen Ginsberg? Do On The Road (Pé-na-Estrada), de Jack Kerouac; do Almoço Nu, de William Burroughs; dos poemas eternecedores de Dylan Thomas sobre as vastidões desoladas do mar; da lírica emocionada de Lawrence Ferlinghetti?

Virá do haicai japonês, milenar micropoema que surpreende e encanta gerações e gerações de poetas e leitores, através de estratégia da singeleza, sutileza e surpresa?

Que poesia é essa que, a partir de meados da segunda metade do século XX, vem-se construindo experimentalmente e sedimentando-se em vanguardas de pioneiros e desbravadores marginais?

Virá de Lautréamont, Rimbaud, Edgar Allan Poe, Baudelaire? Ou virá dos poetas iluminados e alucinados como Arnaut Daniel e Cia?

Virá de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Florbela Espanca?

Virá de James Joyce, E. E. Cummings e Emily Dickinson?

Virá de Ferreira Gullar?

Virá dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari?

Virá da poesia libertária, intrigante, transgressora, irreverente e estranha da geração punk, do be-bop e do rock dos Beatles, que passa também pelos hippies, poesia essa que tem a ver com as Carmina Burana dos monges goliardos vagantes da Alemanha do século XIII? Ou da Coena Cypriani?

Onde está essa poesia que vem de cinco décadas? Onde deságua?

Qual é a poesia do III Milênio?

Nasce na confluência da intertextualização?

Supomos que as respostas para tais indagações estejam num paradoxo, numa ambigüidade, num casamento Ocidente/Oriente, que tenha e inclua Fernando Pessoa, Cummings, Gullar e Omar Kayyan, Tagor, e Rilke e tantos outros iluminados. E daí essa mescla que nasce do particular para o universal, como soma e resultado do que se foi babelizando numa mistura de linguagens em busca de um Esperanto.

Mas, a pergunta principal é: Onde está essa poesia no Brasil e, particularmente, no Maranhão?

E a penúltima pergunta: O que nela aponta, de fato, para uma nova linguagem poética?

E a última: O que nela se caracteriza por uma concepção equivocada de poesia, sendo flagrantes exemplos de lugares-comuns, clichês, blagues, banalização?

É tarefa das falanges e legiões de leitores separar o joio do trigo.

Não resta dúvida que há uma certa dosagem de crítica, de deboche, de escamoteamento, de sátira proposital, uma forma transgressora de denunciar a persistência e permanência da consagração de textos secularmente desgastados, com prejuízo da fatura e fortuna da criação literária inesgotáveis que as novas gerações de poetas têm legado ao patrimônio do contexto literário nacional, sem que este seja integrado, com o devido olhar contemporâneo, ao que há de melhor do passado.

CARMINA BURANA
(ARDE NO MEU CORAÇÃO)


I Arde dentro de mim uma forte emoção; minha fala manifesta a amargura de minha mente. Criado a partir da matéria – a cinza é o elemento donde fui tirado – pareço-me com a folha jogada pelo vento.

II É próprio do homem sensato assentar os alicerces da casa na rocha; a mim, podem me comparar à correnteza do rio que, debaixo do céu, nunca pára.

III Ando como uma nave sem timoneiro, assim como um pássaro que sem rumo voa nos céus; não me seguram algemas, não me tranca chave; convivo com meus comparsas, na companhia de malandros.

IV Um temperamento grave me parece coisa pesada; é brincar que é gostoso, mais doce que um favo de mel; quando Vênus manda, a labuta é suave, mas ela não é o próprio das pessoas ignaras.

V Eu ando pelo caminho largo; já que sou jovem, convivo com o vício, não ligo para a virtude, procuro antes a volúpia do que a salvação; morto já, quanto à alma, só cuido de minha pele.

VI Distintíssimo prelado, peço sua licença: minha morte será boa, morrerei na felicidade se o charme das moças saciar meu coração e se pelo menos puder cobiçar no coração e se pelo menos puder cobiçar no coração aquelas que não puder afagar.

VII É coisa dificílima vencer a natureza, guardar sua pureza quando se olha uma virgem; jovens, não podemos observar lei tão dura e renunciar ao remédio para nossos corpos levianos.

VIII Quem for deitado na brasa não há de consumir-se no fogo? Será tido por casto alguém que more em Pádua, onde Vênus acena com o dedo aos jovens, os enlaça com os olhos e os prende com seu rosto?

IX Se se deixar Hipólito em Pádua hoje, no dia seguinte não será mais o mesmo Hipólito. Em todas as ruas se encontram leitos para Vênus, mas entre suas torres não há nenhuma torre da Virtude.

X Em segundo lugar, respondo à acusação de ser um jogador: quando, perdendo no jogo, me deixam pelado, o corpo fica frio externamente, mas fico suando na mente e é assim que faço os melhores poemas e canções.

XI Em terceiro lugar, lembro-me da taberna: esta nunca desprezei nem desprezarei até o momento em que eu avistar os santos anjos cantando para os defuntos: “Descanso terno”.

XII Eu me proponho morrer na taberna: haja algum vinho perto da boca do moribundo; então cantarão com toda alegria os coros dos anjos: “Que Deus seja clemente para com este beberrão”.

XIII A lamparina da alma se acende com copos de vinho, o coração imbuído de néctar levanta vôo às alturas. Para mim, o vinho da taberna é mais saboroso que aquela bebida, misturada com água, do prelado.

XIV Alguns poetas evitam lugares públicos e procuram esconderijos secretos; eles estudam, se esforçam, passam noites em branco, pelejam para valer, e com tudo isso produzem poucas obras de arte.

XV Esses grupos de poetas vivem em jejum e abstinência, vivem longe dos debates públicos e das brigas no tribunal; a fim de produzir uma obra imortal eles se matam estudando, escravos do trabalho.

XVI A natureza concede seus dons a cada um: eu, para mim, jejuando, nunca fui capaz de escrever; quando em jejum, qualquer menino ganha de mim. Odeio a sede e o jejum, como se fosse um túmulo.

XVII A natureza concede seus talentos a cada um: eu faço poemas enquanto bebo vinho bom e aquilo que tem de melhor nos tonéis dos taberneiros; vinho desta qualidade é que gera uma abundância de frases.

XVIII Eu faço versos parecidos com o vinho que bebo, nada posso produzir sem comer primeiro; o que escrevo em jejum, no fundo, não vale nada. Mas depois de alguns cálices, deixo Ovídio (Nasão) para trás.

XIX Minha cabeça nunca está para poesia se eu não encher a barriga primeiro; quando Baco domina meu cérebro, Febo (Apolo) se apodera de mim e fala maravilhas.

XX Fui eu mesmo que confessei minha maldade: dela me acusam agora seus empregados. Mas entre eles não há nenhum para acusar a si mesmo, embora eles também gostem de um jogo e procurem o prazer mundano.

(CARMINA BURANA – Canções de Beuern. Tradução, introdução e notas de Maurice van Woensel. São Paulo: Ars Poetica Editora Ltda., p.149-152, 1994)
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