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Edição 115

JORGE NASCIMENTO - Da Ausência Restituída com os Olhos de Zé Core para a Rainha

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Data de Publicação: 20 de janeiro de 2006
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Para que se possa emitir um juízo crítico sobre a obra literária do escritor, poeta, contista e memorialista Jorge Nascimento, apontamos duas obras fundamentais deste maranhense, que mais expressam as técnicas de construção tanto do poema, quanto da prosa de sua obra no campo da criação literária, Ausência Restituída, poema, publicado em 1972 e Zé Coré ou Olhos para a Rainha, conto, publicado em 1973.

Ausência Restituída, na aparência, é um livro de sonetos, mas, na realidade, na obra em questão, os 14 versos são apenas pretexto para que Jorge Nascimento construa o que pretende: um único poema, em que os sonetos são capítulos.

Os capítulos são escritos em versos bárbaros, heterométricos ou heterodoxos com até 22 duas sílabas poéticas, o que dá aos pressupostos sonetos uma acentuação bizarra.

Ressalte-se que até então os sonetos eram escritos em versos decassílabos ou dodecassílabos, também chamados de alexandrinos e, geralmente, em gênero lírico.

Jorge Nascimento transgride os cânones e códigos vérsicos dessa tradição e funda uma outra estética que se caracteriza por, pretextualmente, conservar os 14 versos, mas dando-lhes uma estrutura alongada, heterométrica.

Outro aspecto singular que nos chamou a atenção na estética dos versos de Jorge Nascimento é o fato de ele usar um recurso até então nada ortodoxo, o de camuflar ou embutir estrategicamente vários versos ou várias medidas, até três, num único verso.

Os casos da prática dessa bizarria são inúmeros e serão sublinhados em maior escala em texto mais amplo. Por exemplo, no poema A Infância, o primeiro verso se constitui de três versos hexassílabos:

Os Demônios sonhavam/com o Flagelo de Deus/nas regiões clandestinas:/
No poema O Discurso ele embute vários decassílabos e eneassílabos:
Considerai que o desertor é uma/excrescência violentando a sorte/
Tesouro dos diademas soluçantes,/vôo amargo onde só um olho arde/


A lista de transgressões propositais é prodigiosa.

A essas transgressões somem-se o assunto dos textos cujo eixo histórico se desloca para a História Universal e tem, assim, um viés parnasiano.

A linguagem é outro dado a merecer análise, pelo seu caráter decadentista, pois Jorge Nascimento funde, de maneira sincrética, nos capítulos de seu poema bárbaro e bizarro, elementos do barroco épico, do romantismo, do parnasianismo, do realismo e do naturalismo. Linguagem velada, a encapsular no discurso poético momentos de retórica, cuja base é um vocabulário luxuriante, períodos redundantes que resulta num texto circuloquial ou perifrástico. Uma linguagem que se tece propositalmente descosida, monologal e incoerente, num discurso que mescla delírio épico, alucinação e hiperestesia que se aproxima, às vezes, da linguagem nonsense, ou aparentemente sem sentido.

Mas esse poema, pretextualmente sobre fatos históricos universais, como os Unos e Átila, supomos, seja em boa dosagem autobiográfico. Sem aprofundar, apresentemos um indicador, no capítulo Antes da Batalha:

Como as vacas esquartejadas no matadouro fulminante dessa hora breve,/
Deslizando no corredor vermelho sem os gritos dos infortúnios lanceteados./


Podemos concluir dizendo que o poema Ausência Restituída é uma circunavegação poética autobiográfica em linguagem alegórica e nonsense, ou seja, um texto cujo sentido é encontrado justamente no que, aparentemente, é sem sentido.

Zé Coré ou Olhos para a Rainha é um conto que se situa na categoria do monólogo interior, com todas as implicações que envolvem o fluxo da memória, a partir do flash-back, que anula o tempo cronológico e instaura a introspecção psicológica. Percebe-se que, neste conto, o narrador-escritor conta a história de um protagonista-autor. Em outras palavras, a vida de Zé Coré pode conter alguns elementos da infância do próprio Jorge Nascimento. E essa verossimilhança estabelece o caráter também realista da obra.

Diríamos que o tom alucinatório da obra, a persistência das percepções sensoriais que assume um caráter pesadelar, levando o texto à hiperestesia, apontam para um conto que se situa, pela linguagem que apresenta, na linha decadentista.

ZÉ CORÉ
(ou) Olhos para a Rainha


Há poucos dias, lendo sua correspondência, Dona Carochinha encontrou uma carta que dizia assim:

Dona Carochinha: O meu nome de batismo é José Calixto dos Anjos, mas todos só me chamam de “Zé Coré” – que é a parte branca que fica por trás do vermelhinho. Não pense que vou me zangar com isso e explico por quê. Quando é tempo dela (aí pros lado de setembro em diante, novembro até mais), gosto de andar à toa pelas ruas de onde moro, procurando barracas onde tenha melancia pra vender. E quase sempre encontro alguém comprando uma na banca de “Seu Isi”. (Ele foi batizado pelos padrinhos de Isidoro, mas acho melhor somente o abreviado, que sai mais ligeiro e é mais fácil). Aí chega um freguês, se resolve e começa a apalpar a melancia com o dedo do meio feito um anzol (até lembra a mãe, quando me cai de cascudo) e diz muito sério, sem levantar a cabeça: “Quanto é esta aqui, nosso amigo?” “Seu Isi”, nessa hora, puxa a perna de pau mais pra cima (atropelaram ele uma vez e nunca mais “Seu Isi” prestou pra trabalhar em outras coisas); sunga os óculos, amarrado num barbante, que fica pendurado o tempo todo em cima do narigão e responde igualzinho à voz dum quati que eu vi na feira do Mercado Grande: “Dois mil, para o senhor cidadão”. “Duas mil pratas, gente boa?” – pergunta outra vez o aparecido. “Seu Isi” torna a comparecer com o breque dele: “Exatamente, cavalheiro” (Ainda não sei o que é cidadão nem cavalheiro, mas acho bacana). “Para outra pessoa seria caro” – continua. “O senhor não faz idéia quanto prejuízo estou tendo com essa partida. Estragou a metade e me pediram os olhos da cara... Um absurdo. O senhor sabe quanto custava uma melancia do tipo desta aqui, por exemplo – no seu tempo de rapaz novo”? Aí “Seu Isi” conta pro freguês uma porção de estórias da era dos cem réis quando tudo era mais barato e melhor. O “cavalheiro” fica só de cabeça baixa resmungando:“hum-hum”, era mesmo? Ora veja, calcule só! – sem ligar muito para a conversa dele. “Seu Isi” tem a mania de se queixar, o mesmo que Seu Tonico Rocha, dono do “Recanto Feliz”, mas vai ver, os dois ficam ouvindo música o dia todo, bem alto, pra quem quiser também emprestam dinheiro pra receber depois e tem dois filhos no Grupo Escolar “Francisco Brandão”, sendo um do meu tamanho. (Eu tou do outro lado da calçada, jogando pezinho com uma chupa de laranja e vou bispando a infuca deles.) Só depois é que me aproximo, parecendo que não quero nada, mas quero sim. Pelo jeito de sentir as coisas descubro logo que o freguês não é daqui. Principalmente esse de que vou falar pra senhora. Ele veio de longe, é queimado de sol e o braço é enorme de grosso, com um relógio no pulso. É um bocado arriliado. A Senhora vai ver: “O Senhor podia me dar o coré, moço?” – indago pra ele, e ouço a resposta do aparecido com a boca cheia: “Pra que, menino?” “Pra mim aproveitar a banda... Mas se o senhor vai comer, eu não faço questão...” “Não, menino, não vou comer o coré. Na minha idade não se faz isto, nem fica bem pra mim ser visto aqui comendo coré. Fico envergonhado. No meu tempo de criança era do que mais gostava misturado com açúcar mulatinho. Iche! Como era bom... Olha aí, safadinho, o que é que tu quer mesmo comigo, hem? Vai ver melhor e tu é um pivete mandado pelo teu chefe pra afanar meu relógio e se mandar por aí, com o trabalho do dia! Vai desembuchando! Tua cara é de gente que não presta! Como é mesmo o teu nome?” “Meu nome é Zé Coré e não vim a mando de ninguém. Taí, “Seu Isi” que me conhece a tempos. Eu sou pivete, “Seu Isi? Diga pra ele”. (Nessas ocasiões ele sempre me socorre.) “Não não é. Esse menino até que não é dos piores. É, isto sim, uma ovelha tresmalhada à procura do rebanho”. “Seu Isi é assim: gosta de caprichar no português, mas é porque ele vive só lendo a Bíblia. O freguês vendo isto se anima comigo: “Zé Coré? Zé Coré nunca foi nome de gente nem de bicho também”. “Então é José Calixto dos Anjos... E o seu, como é?” “O meu é Chico Bóia”. “Chico Bóia? Também não é nome de gente!” “Me chamam de Chico Bóia porque gosto de um prato bem adubado, com molhinho de pimenta malagueta... “ “O senhor é de onde? Em que lugar cortaram o seu umbigo?” “A bem dizer, fui mesmo criad

o pelas terras do mundo, mas nasci na Paraíba, em “Três Lagoinhas”. Há mais de 20 anos que não vou naqueles cafundós. Mas todo mês mando dinheiro pra “velha”. “Quem é a velha?” “É minha mãe”. “Aann...” Naquelas brenha... A vida era dura... Ainda é. Ficou o Vadico e Nhá Doca, minha irmã. O inferno tava no corredor, na foice, na meaçaba, no chibé com isca de carne assada, nos cabras do Coronel Fortunato das Várzeas, nas posse dele, com a burra entupida de dinheiro, o inferno tava em tudo... Todo dia tinha uma pinima com a gente. No ano que vem vou aparecer por lá... Esta melancia tá gostosa, hein Zé Coré?” “Tá, sim senhor. Tá um bocado gostosa!” “Tu tem umas aparência do Vadico... Tira outra”. “Não, Senhor. Tou satisfeito. De que é que o Senhor vive?” “Sou marítimo. Embarcadiço. Um sujeito que passa a vida toda trepado num barco e enferruja com ele”. “O senhor conhece o mundo todo?” “O mundo todo é do tamanho do quintal de minha casa, lá em Santa Maria da Boca do Monte, no Rio Grande do Sul”. “O que é isto que fizeram em seu braço, Seu Chico?” “É uma tatuagem”. “Tatua... Como é o nome?” “Ta-tu-a-gem. É feita com tinta que não larga mais, o resto da vida. Tá vendo essa âncora aqui? É a âncora de “Japiassu”, que afundou em Shangai. Quase que eu vou com ele também, nos mares da China, terra de muito grogue e de marinheiro desgarrado aos boléu, sem ter o que fazer. Terra boa, menino. Um lugar tão distante que você nem imagina. Fica escondido atrás daquele mar...” “Tudo que tem aqui tem lá também?” “Nem sempre, meu filho. Nem sempre. Não tem, por exemplo, uma melancia gostosa como essa aqui. É servido de mais uma?” “Não senhor. Elas custam caro...” “O dinheiro que faz aproximar a amizade nunca é bastante caro. Escolha o tamanho que quiser.”

Ah! Minhas conversas com aquele moço... Nessa hora era feliz e não comia coré! Mas ele tinha que ir simbora. A senhora sabe: os daqui tão sempre se queixando da falta de dinheiro. E continuamos conversando: “Quando eu crescer mais, Seu Chico Bola, quero ser marítimo para conhecer o mundo como conheço o quintal de Seu Elesbão, quando vou roubar mangas por lá!” “Ora, não me faça rir agora, Zé. Opa! Que sede medonha! Também... Passei a noite toda na pândega. Não tenha pressa em crescer. Vá devagar mesmo. Você não gosta de morar nessa rua?” “Gostava antes, mas agora não gosto mais... Quero é ir embora para longe daqui, junto com minha mãe. Nós agora só vivemos mudando de casa. Só nesse mês já moramos em mais de 5 delas. A gente não tem sossego...” “Eu sei, garoto. Eu sei. Um dia isto vai mudar. Ainda existe muita coisa errada, muita coisa pra ser consertada. Essa gente toda devia ter outro destino. Todos nós cabemos debaixo das asas de Nosso Senhor. Eu topei a parada, meu filho. Um dia me levantei com a cachorra e disse pro Coronel Fortunato das Várzeas: “Coronel, vou embora. Naquelas viagens que fiz na cidade tirei minha carteira e já vou embarcar”. O Coronel tava comendo cuscus, molhado no leite e com uma terrina de coalhada de lado. Me olhou por baixo dos olhos, bem devagar, esticando as palavras: “Esse mundo tá chegando no fim. Meus alugados querendo debandar pras estranja, só pode ser coisa do diabo. E tua família, desinfeliz? E tua família?” “Eles se arrumam, Coronel”. Foi uma luta pra mim de sair de lá. O homem me cantou mais do que mulher-dama, querendo que eu ficasse. Saí enxotado, com o rabo entre as pernas, como se fosse um cão lazarento: “Pois vai. Quando tu voltar de tua Oropa, no miserê, vem me pedir uma terrina de coalhada, dessa coalhada que dou pros meus porcos e eu te dou... Tá ouvindo bem, Gota Serena? Conheci teu pai; nós crescemos juntos. Era um cabra em que a gente podia confiar. Eu te vi nascer, Chico. Eu te vi no cueiro e agora tu me desrespeita...” “O senhor matou meu pai, matou meu avô e vai me matar também, só de trabalhar de alugado, se eu ficar mais tempo...” “Tá certo, amarelão, tá certo. Tu já engrossou o cangote com o meu pirão, agora tem de provar do meu cinturão... Mas não vou te fazer nada em respeito à consideração que tenho pelo Aristides, teu pai... Vá simbora. Eu te espero na encruzilhada, daqui a uns anos, com uma caneta de estanho na mão pra me pedir uma esmola em nome do Padim Ciço, quando tu voltar rico das estranja. Vai timbora antes que eu perca a paciência. Num gosto de olhar muito tempo pra um cabra safado como tu... Sujeito ordinário de tua marca, eu mando ferrar no mourão e faço aquele negócio que tu já viu fazer... Só pra ti nunca mais cantar de galo no meu terreiro. Vai e não olha pra trás. Apanha teus terém e some de minhas terras...”

“Foi assim, meu amigo. Foi assim, sem tirar nem pôr. Inda tive sorte de num ter virado capão... Agora preciso voltar pro navio. Estava só me entertendo um pouco pra pegar o batente a bordo. Olha minhas mãos: parecem finas? Parecem mãos de moça-donzela? Diga”. “Não senhor, Seu Chico. Puxa! Tem cada um calo...” “O trabalho marca a gente assim, meu filho. Deixa a gente ferrado, como boi de carga, mas é bom. Bem, vou chegando... Quanto é este prejuízo?” (“Seu Isi tirou o toco de lápis que tava enfiado na orelha, molhou na ponta da língua e fez as contas, com a prova dos 9 e tudo. Disse e recebeu o que era dele)”. “Bom. Até outro dia pra vocês”. “Até, Seu Chico... Não vá ainda...” “Preciso ir, camaradinha. Preciso ir.” “O senhor é uma pessoa muito educada e de feio só tem a cara:o resto é bom...” “Gostei de tua franqueza. Aiii, meu bom Deus! Minha barriga tá que é só água. Tou com um sono...” “Seu Chico Bóia” “Hum?” “Antes do Senhor ir embora posso lhe fazer uma pergunta?” “Até duas...” “O Senhor... O Senhor, quando voltar de novo quer ser meu pai?” “Hein? O que você está dizendo garoto?” “Quando o senhor tornar outra vez a São Luís não quer ser meu pai?” Aí, Dona Carochinha, quando eu disse isso, aconteceu uma coisa bem estranha: Seu Chico Bóia me agarrou com tamanha força que me doeu, dizendo: “É o jeito do Vadico... O jeito todinho do Vadico... Não posso, não posso ser. Procure outro”. E depois, bem nervoso, meteu a mão no bolso e tirou uma porção de notas de mil (eram quase 10) e me entregou: “Tome, tome esse dinheiro pra você. É o dinheiro do mundo”. E foi embora. Ainda longe, quase dobrando a esquina, ainda olhava pra trás, levantando o braço. “Adeus, Coré. Adeus. Você é um camarada e tanto. Vai ser dos bons, do primeiro time...”

Nesse dia, eu e mamãe almoçamos bem, tivemos até carne de porco assada e feijão do Rio. Contei tudo, tim-tim por tim-tim e o que ela fez foi chorar, escondida de mim. Aposto com a senhora que não conheço o sentir das pessoas crescidas. Se havia dinheiro, pra que então o choro? Minha mãe agora tem sempre dessas crises, mas depois falo disso pra Senhora. Agora vou falar dum amigo mais perto de mim, daqui mesmo. É o “Candieiro”, que eu trato de Cândi. A Senhora nunca ouviu falar do Cândi? Pois muito me admira, porque ele é conhecido como quê. Tem 10 anos e sabe de coisa... Mais do que muita gente grande! Todo mundo se espanta da inteligência dele. Candieiro fala até inglês. Aprendeu com uns americanos. Por aqui aparece sempre um bocado de “gringo”. (Candieiro diz que o nome dele é assim: “gringo”.) Ele costuma mostrar certos recantos para ganhar peixe frito e farofa de torresmo. Outro dia, no programa da Senhora, gritei: “Chega! Corre, Candieiro! Vem me dizer o que estes meninos tão falando! Quero ver se tu sabes mesmo!” “Ora, Coré! Então tu me chamas só pra ouvir isso? Isto é pinto!” E cantou, pulando numa perna só, no balanço da musiquinha: “Galo é cock, galinha é hen, pato é goose, cavalo é horse, e dinheiro é money. Olha aqui. Look here. Os “gringos” me deram money, Coré. O diacho é que o navio já se mandou, mas vai outro, “Mister Johnny”, amanhã ou depois. Mais alguma coisa, cara de melão xoxo?” A Senhora tá vendo como é o Candieiro? Ele já aprendeu a fumar cigarro de todo tipo. Quando nós saímos juntos, às vezes ele sai correndo pros americanos e dá a dica: “Ei mister, ei mister! Eu sei onde o Senhor pode castigar um mocotó legal! Um mocotó legal mesmo, compreende? Lá na barraca de Seu Antenor!” Os americanos acham é graça do tamanho dele, todo sujo, descalço, com o cabelo assanhado, pulando feito um doido e cantando: “Give me um tutuzinho, please! Give me um tutuzinho e um cigarrete, please, mister Johnny!”

Todo mundo diz que ele vai ser político, porque é muito engraçado e faz a gente rir, toda vez que fala. Esses políticos vêm por aqui, mas só nas granfina. Quando dizem que ele vai ser isso, ele sério e dá um pulo: “De araque! Eu quero ser é contrabandista ou então o “Homem-Morcego”!

Depois dele, tenho outros amigos: “Latejo”, “Pinica-Pau”, “Xexéu” e “Carioca”. São meus boizinhos que faço de manga verde, das miúdas. Com uns palitos que espeto neles faço a cauda, os chifres e as pernas... Ficam parecidos com os que eu vi no curral do Matadouro. Só não coloquei o “Serapião” na lista porque ele já pediu aposentadoria e agora vive dormindo pelos cantos, sem poder trabucar no pasto. Pro lugar dele vai o “Pinga-Fogo” quando puder tirar uma manga das menores. Tinha também o “Chumbinho”. Sempre levava o “Chumbinho” comigo. Era um boi astucioso como quê e eu sempre me admirava de não cansar de conversar com ele. Nós passeávamos era demais pela cidade. Um dia me descuidei e um gajo esmagou ele com o pé. Agora minha fazenda se chama “Chumbinha”, só pra me lembrar sempre dele.

Como a senhora é uma pessoa cheia de obrigação, vou passar pra outro assunto, mas não gosto. É só tristeza... Minha mãe se chama Hermenegilda, mas é conhecida como “Dadá”. Acho mais bonito é Hermenegilda. Por isso é que quando vem chegando o homem da prestação (ela compra muito a prestação), grito da porta: “Dona Hermenegilda! O homem da prestação está lhe esperando no quarto! Ande logo! Ela vem e conversa um tempão com ele, tão baixinho que não ouço nada e depois vai embora sem dizer até logo. Depois chega outro, outro e mais outro e tantos que mamãe fica se queixando de dores na cadeira. Até que por último vem pouca gente isto é ruim, num tá bem. Foi por causa disso (de não vir ninguém) que tivemos que nos mudar na semana passada para este quarto de onde lhe escrevo agora. Com esta, torno a dizer, é a quinta casa em menos de um mês. Dantes nós moramos numa que era uma beleza, sobrado de azulejo colorido e tantos quartos que eu tinha medo de me perder neles. Digo pra Senhora que não gostava muito de andar pelo corredor à noite. Me dava um medo! Era umas coisas esquisitas, de gente parecendo sofrê mais do que minha mãe. Naqueles tempo (faz quase cinco anos) ela era bonita. Parecia uma rainha. Quando nos sentávamos na mesa (tinha mais de quarenta pratos e muito guardanapo alvinho) todo mundo olhava pra gente, principalmente pra minha mãe. Como os conhecidos de mamãe me chateavam! A Senhora precisava ver. Era só “vem cá, Zezinho. Que garoto mais engraçado!” – diziam com os olhos em cima dela. Agora nessa casa fedorenta, quando aparece um e eu chego perto, só ouço isto: “Sai pra lá fedelho! Vê se não chateia! Vai, meu bichinho, vai aporrinhar a paciência de outro cristão”.

Por isso é que lhe disse antes que não gosto de gente grande. Me dão medo. Só não aquele moço-marinheiro, Seu Chico Bóia. Esse eu queria pra meu pai. Ainda hei de tomar a bênção pra ele. Vou procurar onde ele tiver. De que adianta a gente ter mãe e não conhecer o pai?Agora ninguém aparece. Se eu vejo algum conhecido daqueles tempo, saio correndo atrás, gritando: “Seu moço, seu moço! O Senhor não vai lá em casa hoje negociar com mamãe?” Sempre me dizem: “Tou um bocado apressado. Não tenho tempo. Depois. Dá isso pra tua mãe.” Quando volto conto tudo. Ela fica triste, alisa meu cabelo e diz: “Não se preocupe, meu filho. Não se preocupe.” “Mas se a senhora já pagou todas as suas contas por que é que fica triste?” “Quando você estiver crescido e tiver suas responsabilidades de família, vai saber que existem pessoas, como eu, que para poder viver precisam sempre de ajustar prestações...” Às vezes ela ri à toa e quando a senhora manda tocar cantigas de roda nós pulamos e dançamos é muito! Mamãe diz que está se recordando da infância. O riso dela é diferente e às vezes tenho medo que ela me afogue de tanto aperto. Depois, ela me solta e diz: “Tu és um menino mau, José Calixto dos Anjos. Tu és um menino bastante mau! Me deixaste sozinha o dia todo... Quedê de minha aliança de rubi, meu diadema de brilhante, meus brincos de esmeralda, meu enxoval, minha casa e as serpentinas vermelhas com os risos de bronze, pra carregar minha cruz, desgraçado? Meu véu de noiva as baratas roeram e meus olhos também. Por que tu não enxotas o passarinho sentado na figueira que tá roendo minha cabeça, hein maldito?” “A Senhora já começa, mamãe! Mamãe, o que é que a Senhora tem? Oh meu Deus, me socorrei! Me ajude aqui, Dona Bertolda!”

Isso é assim quando ataca as crises e ninguém me ajuda porque tem medo dela. Depois alivia aquilo medonho e ela dorme toda suada e eu fico abanando e agarrado com ela e acabo dormindo também. Deus me perdoe, Nossa Senhora me releve, mas gosto de minha mãe tá assim, zambreteada. Sabe por quê? Porque não é obrigada a ficar acordada toda a noite pintada de baton, nem tomar aquelas coisas ruim quando não queria, em tempos atrás.

Outro dia, disse pra ela: “Minha mãe, quero estudar como estudam as outras crianças”, e a resposta foi esta: “Qualquer dia desses nós vamos...” Mas nunca foi. E eu me decidi. Uma tarde, fui atrás, acompanhando um menino fardado, e onde ele dobrava eu também dobrava até que chegamos num colégio grande, apinhado de menino e tava na hora do recreio. Entrei na pátio e quis também correr com eles. Primeiro, fiquei num canto, quase escondido, com medo de me verem. Aí foi quando uma menina veio buscar a peteca com que eles tavam jogando e me olhou desconfiada e foi se chegando pra perto de mim. Fiquei um bocado chateado porque tava descalço e minha camisa num era lá essas coisas de limpinha: A lourinha me investigou bem, dos pés até na cabeça: e perguntou: “De onde você é garoto? É o filho da vigilante? Responda” (essa lourinha, fiquei até com medo dela. Do meu tamanho, mas parecia as branca que eu costuma ver nas igrejas tão sérias, cobertas com um véu. Pois essa era filha de branca e já tinha tomado o jeito dela). Respondi: “Eu vim olhar vocês”. “Só isso?” “Só isso”. “Tu queres brincar, garoto? Queres (assim mesmo) brincar com minhas colegas?” “Quero!” “Então vem!” E eu já ia mesmo, quando me agarraram pela orelha: “Quem te mandou entrar aqui moleque?” Era uma mulherona, a tal da vigilante, e disse que fui ali pra ensinar coisa feia pra lourinha e pros outros também. “Eu não vim ensinar indecência nenhuma, dona! A Senhora me largue!” “Largar! Eu vou é te levar na presença da Diretora!” E me levou. A Diretora até não era péssima como as outras e me chamou de “meu filho”. Mas as que tavam cercando ela é que eram: “Esse menino, Senhora Diretora, eu conheço. Conheço até demais e é o filho única daquela... (e levou a mão na boca se benzendo) daquela mulher que mora na... Deus me livre! Se a Senhora Diretora soubesse! Já vi esse menino até em frente de guarda, porque havia roubado brinquedo na 4.400!” E disse tanta coisa de mim e de minha mãe que eu tive de chorar e marquei bem a cara dela. .. Quando tava na metade da confusão, pra completar, apareceu um hamem num sei de onde e foi dizendo: “De onde é você, molequinho?” “Eu não sou molequinho!” “Não é?” “Não sou!” “É assim que você trata as autoridades! Eu sou da Polícia!” “Pode ser até da...” Aí me deram tamanho pescoção, que rolei longe. E houve gritarias e berros: “Uai, meu Deus! Tire esse menino daqui! Ou então mandem sair essas meninas. Meu Deus! O que eu ouvi agora foi terrível! Terrível! Como pode se conceber que no coração infantil de uma criança como esta já tenha se aninhado toda a crueldade diabólica de que os homens são capazes! Esses meninos não necessitam de escola correcionaI, esses meninos precisam é de um campo de concentração com cadeira elétrica e tudo! “Zuleika, Zuleikinha, não ouve isso, meu bem. Vai brincar, vai, filhinha...” A danada falava assim com a lourinha que eu encontrei e que foi tão boa comigo e tomou minhas dores dizendo que eu não tava ensinando imoralidade pra ninguém, tava era só vadiando com elas um pouquinho...

Quando eu disse depois que queria estudar, que fui ali pra fazer minhas matrículas, disseram que não e não, só no outro ano, porque as matrículas estavam fechadas. E como eu fiz fincapé, ainda judiaram comigo foi muito. O homem dizia: “Pestezinha, eu te mato! Quem é teu pai?” Eu disse uma palavra feia, que eu sei é muita palavra feia. Ele me deu outro cascudo que doeu como quê. Disse outra palavra mais ainda e ele tornou a me dar. Minha cabeça ardia, parecendo deste tamanho, e minhas orelhas pegavam fogo. “Vamos, cascavelzinha, onde moram seus pais?” “Já lhe disse que não sei o que você tá dizendo” “Dobre a língua, Senhor!” “Não dobro! Você! Tu!” “Senhor!” “Tu!” É tu e tu! Pronto! Não dobro! Merda! Vá dar bisca em sua mãe! Minha cabeça já tá ardendo como quê!” Aí ele me deu um empurrão tão grande que rolei de escada abaixo, mais de sete degraus, e fui cair no chão com a cabeça quebrada e minha camisa ficou manchada do sangue que escorreu do meu nariz e da minha boca. Até a Diretora reclamou contra aquela perversidade mas já era tarde e eu já tava batido. A garota que chamavam de Zuleikinha correu e disse pra mim não chorar que ganhava um brinquedo que ela ia me dar da casa dela e até agarrou na minha mão dizendo pra mim dá uma pedrada nele e correr, que depois a gente se encontrava. Foi quando eu disse que só queria ouvir aquilo, saber que ela era minha amiga e fui embora alegre, mesmo com a cabeça quebrada.

Não digo pra ninguém na rua onde moro. Caí na besteira de dizer uma vez e me disseram que ela era indecente. Nunca mais disse. É uma rua muito feia, suja, cheia de cacos de vidro, de garrafa quebrada, de casca de laranja, banana e manga, mas assim mesmo gosto dela. A Senhora acha que minha rua é indecente? Se não é, por que a Senhora, que parece gostar das crianças, nunca falou de minha rua, nem de mim, nem do “Candieiro”? Nós somos uns perdidos, não é? Foi assim que me disseram. Eu já escolhi minha carreira: vou ser gigolô. Todo gigolô que eu conheço anda cheio de grana, tem polimento nas unhas, uma porção de par de sapato e só roupa boa e o melhor é que nem trabalho tem e vive bem. É, vou ser gigolô mesmo. A Senhora é uma fada ou é gente de carne e osso? Eu não gosto de fada, porque o “Candieiro” diz que esse negócio de fada é pra gente ota (A Senhora sabe: otário) e que ela só gosta de menino rico. Fada só aprecia menino rico? É verdade? Papai Noel, esse nem falo, porque sei que ele é cego”.

Quando chega perto de minha rua mete a mão na cara e arranca os dois olhos pra não me ver Depois, mais adiante, coloca de novo e torna a enxergar os outros meninos. Eu não faço questão, porque não gosto de carrinho, nem de bola, nem de metralhadora. Só uma vez fiquei olhando prum carrinho um bocado bonito que vi na rua Osvaldo Cruz. Puxa! Eu gosto é muito de andar na rua Osvaldo Cruz! Tem cada coisa bonita! E tanta gente! Parece aqui quando é de noite... Era um carrinho como tava dizendo pra Senhora, bonito como quê. Quis pegar nele pra ver como era por dentro, porque andava sem a gente dar corda e eu achei aquilo gozado. O que é que empurrava ele? Eu quis ver. Mas um homem de gravata me deu uma cacholeta e disse: “Larga isso aí, safadinho. Não vá me quebrar o brinquedo...” “Tou só olhando como ele anda, moço...” “Não tem nada que olhar, isto é pra comprar. Te arranca daqui antes que eu chame o guarda. Se manda daqui, moleque!” Disse assim e foi atender uma freguesa lá nos fundos, todo se rebolando: “Madame Mirtes Fonseca! Quanto prazer!” “Dei uma voltinha, pra disfarçar, voltei, apanhei carrinho de novo, porque ele era bom da gente pegar e de repente me deu uma raiva e espatifei o carrinho no chão, todinho, todinho em pedaços e corri, corri até chegar perto do “Candieiro” e fui logo contando o que havia acontecido. Ele riu e depois disse muito sério: “Assim é que um homem faz. É ASSIM.”

A Senhora não me engana, porque a Senhora também é má. Não gosto de ninguém, viu? De ninguém. Todo mundo só quer me dá bisca toda hora. A Senhora vem aqui um dia, vem? Venha pra gente brincar: eu, a Senhora, mamãe e o “Candieiro”. Mas a Senhora não vem. Duvido! Minha mãe tá começando a crise (ó meu Deus) e me chamando pra mim achar o enxoval dela. “Já vou, mãe. Espere um pouco que eu já venho, Dona Carochinha”.

Pronto. Já acomodei ela. Tá dormindo. Poxa! Dessa vez ela riu foi muito, mais do que as outras vezes. Queria saber o que eu fazia trancado aqui a manhã todinha. Eu disse que tava estudando, aprendendo a ler e escrever. Mas é mentira, porque sei só um pouquinho e quero saber mais e mais até dizer chega, pra ninguém aqui pagar prestações pra esses homens barbudos que andam cambaleando nas casas dos outros. As meninas do meu tamanho quando tiverem grandes não vão pagar mais prestações, porque vou acabar com esse carnaval aqui, sabe? Tou terminando. A ponta do lápis tá no finzinho e também o papel que tirei da Terezinha já acabou.

Eu sei que a senhora não vai me responder nem nada e não é pra ter resposta mesmo. Escrevo só pra lhe dizer o meu sentir e me parece que a Senhora, mesmo não se lembrando da gente, não é de dá bisca, nem cascudo, nem cacholeta, nem de cinturão, nem mandar ajoelhar em caroço de milho, dá de palmatória uma dúzia de bolo puxado, nem ter dó de nós. Fazem é muito isso aqui e nem me admiro mais. Minha mãe tá me chamando de novo. Já acordou e o remédio não fez ela dormir. Todo mundo diz que ela deve ir pro hospital, mas não vai porque não deixo. A Senhora tá ouvindo, tá ouvindo bem? Olhe só ela chamando por mim: “José, vem enxotar o passarinho da figueira (Vou gritar daqui mesmo pra Senhora ouvir: “Chô, passarinho! Chô passarinho xexéu! Sai da figueira onde minha mãe tá enterrada!”).

Ela tá sempre dizendo que ficou sepultada viva e se o passarinho beliscar na figueira dói é muito o corpo dela. Os braços, as pernas, as cadeiras, as orelhas, o cabelo, tudo é só triscar... Me empreste seu tapete que eu vou agora mesmo pra Shangai, procurar o Seu “Chico Bóia” e trazer ele pra vir morar com minha mãe e ser meu pai.

Não sei mais de nada e tou é com raiva.. Raiva de tudo. Poxa, eu tou é com raiva! Quero escrever mais e não posso, quero crescer depressa e cresço devagar, queria levar minha mãe daqui, pra bem longe, em Shangai, onde tá o marinheiro e quedê o navio, quedê o dinheiro? Os homens passam de longe, os meninos vêm ver minha mãe e arremedam ela. Eu já briguei foi muito por causa disto. Só o “Candieiro” é que diz que ela vai sarar e eu espero que sim, ela vai sim. É preciso. Agora, no fim da minha carta, se eu lhe disser onde moro, a Senhora é que vai ficar zangada e querer me dar bisca. Mas assim mesmo vou dizer, mas não conte a ninguém. Eu e o “Candieiro” somos perdidos. Dois meninos perversos, dois vagabundinhos, mas não somos pivete. Somos é mau como quê. Isso somos mesmo. Eu vou ser mais perdido ainda. A Senhora vai ver. Olhe aqui: eu moro na Rua da Palma e o “Candieiro” na Rua 28 de Julho. Não prometi que lhe dizia?

Lembranças pra Senhora e a todos os daí, é o que manda o amigo de sempre,

José Calixto dos Anjos (“Zé Coré”)

(NASCIMENTO, Jorge. Contos Maranhenses. São Luís, Departamento de Cultura do Maranhão-Secretaria de Cultura, 1973)
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