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Edição 114

Universo poético da cidade de São Luís do Maranhão (I)

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Data de Publicação: 20 de janeiro de 2006
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Por: Manoel Santos Neto
Especial para o Guesa Errante


Na semana em que se celebram os 393 anos de fundação da nossa cidade, o Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante inicia esta série especial sobre o trabalho de grandes autores que, no mundo das letras e da canção popular, homenageiam São Luís, sobretudo retratando seus espaços urbanos, que hoje tanto encantam aos turistas e visitantes. São ruas, praças, becos, escadarias, largos e ladeiras que – pelo seu caráter singular e expressivamente poético – têm sido fonte de inspiração para inúmeras obras literárias. Uma das fontes fundamentais desta pesquisa foi o livro Breve História das Ruas de São Luís, publicado em 1962 pelo escritor Domingos Vieira Filho (1924-1981), por ocasião das comemorações dos 350 anos de fundação da cidade.

O autor reconhece, nesta obra, que não é tarefa fácil recompor a fisionomia e a história das ruas de São Luís no passado. “Outrora nossas ruas tiveram nomes tão pitorescos quanto líricos, mudados depois à força para o de ilustres desconhecidos que, em sua maioria, não se sabe o que fizeram para merecer a honra de batizar um logradouro público”, afirma Domingos Vieira Filho. Como ele, a professora Magnólia Sousa Bandeira de Melo teve igual propósito e publicou, em 1990, o Índice Toponímico do Centro Histórico de São Luís, enfocando as ladeiras, os becos, as ruas estreitas e as escadarias de pedras da cidade.

O escritor Pedro Braga, no livro A ilha afortunada, analisa a arquitetura de São Luís, com a imponência dos sobrados de pedra e cal, com sacadas de ferro batido, com portada em pedras de Lioz e com fachadas revestidas de azulejos.

Outro estudioso importante nessa matéria é o professor Clóvis Ramos, autor de São Luís do Maranhão é Poesia, publicado pelo Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado (Sioge), em 1992, para marcar a passagem dos 380 anos de fundação da capital maranhense. Ele publicou antes Minha terra tem palmeiras – trovadores maranhenses; Onde canta o sabiá – com os 101 mais belos sonetos de poetas do Estado; Nosso céu tem mais estrelas – 140 anos de literatura maranhense; Nossas várzeas têm mais flores – poetas modernos do Maranhão; e As aves que aqui gorjeiam – dedicado às poetisas maranhenses. Aliás, são muitas e, por isso, nem todas puderam figurar no estudo e antologia organizados pelo autor.

Como tantos outros compatriotas históricos – Gonçalves Dias (1823-1864), Humberto de Campos (1886-1934), Bandeira Tribuzi (1927-1977), Odylo Costa, filho (1914-1979), Lago Burnett (1929-1995), Bernardo Coelho de Almeida (1927-1996) e Lopes Bogéa (1926-2004) –, autores contemporâneos como José Chagas, Josué Montello, Ferreira Gullar, Nauro Machado, Jomar Moraes, Ubiratan Teixeira, Chagas Val, João Alexandre Júnior, Paulo Oliveira, Eloy Coelho Neto, Luís Augusto Cassas, Luís Alfredo Neto Guterres, Cunha Santos, José Maria Nascimento, Manoel Lopes, Herbert de Jesus Santos e outros também se aventuraram a explorar, poeticamente, a geografia sentimental de São Luís. Não é à toa que a cidade é louvada na melodia dos versos de vários de seus poetas e compositores.

Além destes, cronistas e cantadores, com suas crônicas e seus cantos, louvam e engrandecem São Luís. Tanto na prosa quanto no poema e na música popular – incluindo-se aí toadas de grupos de bumba-meu-boi – a cidade é tema recorrente. Não é por outro motivo que, com freqüência, São Luís é enaltecida na veia inventiva de artistas de alma e cores maranhenses, como o lendário João do Vale, Antônio Vieira, Lopes Bogéa, César Nascimento, Beto Pereira, Alcione, Rosa Reis, Cláudio Fontana, Josias Sobrinho, Roberto Ricci, César Teixeira, Joãozinho Ribeiro, Escrete e de “amos” como Coxinho, João Chiador, Mané Onça, Mestre Leonardo Martins Santos, Apolônio Melônio, Francisco Naiva e Ivaldo, do Bumba-boi de Axixá; Chagas, da Maioba e Humberto, de Maracanã.

Insuperável no retrato da vida, tanto nos seus aspectos domésticos (como no enredo de Um beiral para os bentevis) quanto nos heróicos (no painel histórico de Os tambores de São Luís), Josué Montello teve o cuidado de construir a maioria de seus romances, com as pedras da cidade, com o azulejo dos casarões, com os mirantes dos sobrados e com o nome das ruas, praças e igrejas. Contido na prosa, no verso e na vida, ele eventualmente se derrama se o assunto é São Luís, tema obsessivo de uma boa parte de seus livros. Paixão comparável, talvez, só a que revela também por Alcântara. Num de seus volumosos Diários, Montello confirma que, no conjunto de sua obra romanesca, preocupou-se em reunir quase todos os espaços urbanos da cidade, resgatados da mesma forma em livros de diversos pesquisadores, entre os quais o escritor Jomar Moraes, autor do Guia de São Luís do Maranhão, publicado em 1989.

Nesta obra, o presidente da Academia Maranhense de Letras mostra a cidade sob dois planos: o que ela foi e o que ela é, da poesia aos movimentos religiosos, passando pelas questões políticas, comércio e indústria, ruas, becos e sobrados, além das lendas, festas e culinária, em um passeio que se eterniza a cada página. O próprio Jomar revela que a idéia de escrever um guia de São Luís surgiu em 1980, quando ele passou um ano no Rio de Janeiro. A saudade da cidade que adotou como sua (o escritor nasceu em Guimarães) deu forma a este passeio. Ainda no Rio, montou o esquema de todos os capítulos. O projeto ficou pronto quase 10 anos depois, graças ao grande amor pela cidade e à cobrança e incentivo dos amigos.

Viés telúrico - Uma das frases mais conhecidas do escritor russo Leon Tolstoi (1828-1910) sugere, a quem quiser falar ao mundo, que fale da própria aldeia. E, justamente por falar de sua aldeia, Josué Montello imortaliza-se em sua obra romanesca. Ele se diz um homem de província, que soube se conservar fiel a essa condição, não obstante a universalidade de

sua cultura e de sua curiosidade. Em diversos capítulos de Os Tambores de São Luís, Montello revela o viés telúrico de seu trabalho, como na passagem em que assinala que “umas cidades têm as suas andorinhas; outras, os seus pardais; São Luís tem os seus bem-te-vis, que nascem com a luz do sol e parecem cantar com ela pelo resto do dia. De relance, dir-se-ia que voam em bando. Na verdade, ao contrário das andorinhas, voam solitários, sem prejuízo das reuniões eventuais no mesmo fio telegráfico, no beiral do mesmo telhado, nos ramos da mesma árvore”.

Como Montello, José Chagas tem verdadeira adoração pela Cidade dos Azulejos, tema constante de inúmeros de seus poemas. Aliás, o grande lance da obra de Chagas é o primoroso retrato que, ao longo de sua carreira literária, ele construiu de São Luís. O fascínio que a cidade passou a exercer sobre o poeta levou-o a compor um sem-número de crônicas e poemas, celebrando as ruas, os telhados, as pontes, moças, ondas, marés, silêncios, sobradões e bem-te-vis da velha capital maranhense. Radicado no Maranhão desde janeiro de 1948, ele lembra numa de suas obras, saudosista e com um carinho incomum, da noite em que chegou a São Luís a bordo de uma barulhenta “Maria Fumaça”, que soltava brasa contra o vento, enchendo os vagões de fuligem e sujando a roupa dos passageiros. Essa viagem de trem foi iniciada em Teresina, no Piauí, até a velha estação central da antiga Rede Ferroviária (Rffsa) no Maranhão. Ao desembarcar na Avenida Beira-Mar (onde hoje funciona o Plantão Central da Polícia Civil), o recém-chegado pediu a um chofer que o deixasse numa pensão, no centro da cidade.

Impressionado com os mistérios do casario do Centro Histórico, José Chagas escolheu os telhados de São Luís como temática de um de seus livros. “Sempre fiquei a me perguntar sobre quantas coisas aqueles telhados acobertaram, quantas gerações passaram por baixo deles, quantas chuvas suportaram ...”. Na maior parte da sua obra, destacando-se os livros Azulejos do tempo e Apanhados do chão, Chagas faz uma homenagem a São Luís, a cidade bem-afortunada que nele encontrou um de seus mais devotados cantores. O tradicional bairro do Desterro chamou-lhe a atenção por se tratar de uma área da parte velha da cidade que mistura o sagrado e o profano: o Convento das Mercês, a Igreja do Desterro e a antiga zona do baixo meretrício. “A vida noturna de São Luís e toda a zona do meretrício eram concentradas lá. E lá era um mundo bonito, grão-fino, tanto que havia pensão lá que para entrar era preciso paletó e gravata. A zona era chique, mas acabou tudo, porque agora o meretrício é em toda parte”.

O autor de Os Canhões do Silêncio observa ainda que em São Luís há a cidade-palácio e a cidade-palafita. “As palafitas me impressionaram muito. Tanto que para escrever Maré Memória andei dias e dias conversando com aqueles palafitados, passando sobre aquelas pontes de madeira, batendo papo com aquele pessoal”. Em geral, as construções se iniciam pelos alicerces. Chagas, ao contrário, começou a construir São Luís, na sua obra literária, a partir dos telhados. Depois, descreveu o Desterro, retratou as palafitas e partiu para um de seus maiores desafios: escrever a história que caiu no lixo, baseado no fato de que cada chão de São Luís tem uma característica própria. São Luís, com sua paisagem e sua história, entra em cena, panoramicamente, no livro Os Azulejos do Tempo. Este livro não conta a história, mas se baseia em fatos históricos.

Com seu excepcional talento literário, Bandeira Tribuzi é outro autor que enfoca em sua poesia as ruas, as praças e demais logradouros desta cidade, de tantas vias estreitas e artérias sinuosas. Sinuosas como o antigo Beco do Monteiro, que conduzia à quinta do mesmo nome, na Rua do Passeio, e o Beco da Prensa, aberto por João Gualberto da Costa para serventia da primeira prensa de algodão que se instalou no Maranhão. Compositor, jornalista, crítico literário, Tribuzi era também economista, sendo responsável, em grande parte, pelos planos econômicos que foram postos em execução por vários governos maranhenses. Hoje, muitos estudiosos reconhecem, Bandeira Tribuzi foi o líder de sua geração. Estudou em Coimbra, de onde trouxe algumas das grandes lições da moderna poesia portuguesa, notadamente a de Fernando Pessoa (1888-1935), e permanece como uma influência viva para a literatura atual. Entre outras obras, é autor do poema-símbolo de São Luís.

LOUVAÇÃO A SÃO LUÍS

Autor: Bandeira Tribuzi

Ó minha cidade,
deixa-me viver
que eu quero aprender
tua poesia
sol e maresia
lendas e mistérios
luar das serestas
e o azul de teus dias

Quero ouvir à noite
tambores do Congo
gemendo e cantando
dores e saudades
a evocar martírios,
lágrimas, açoites
que floriram claros
sóis da liberdade

Quero ler nas ruas,
fontes, cantarias,
torres e mirantes,
igrejas, sobrados
nas lentas ladeiras
que sobem angústias
sonhos do futuro
glórias do passado
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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