Data de Publicação: 3 de dezembro de 2005
Zema Ribeiro *Que que tem se eu tiro o som da lata?, pergunta-nos Cesar Teixeira em Shopping Brazil, faixa que abre e batiza seu primeiro registro fonográfico. Somente agora, trabalhando com música desde 1971, e tendo abastecido o repertório de diversos nomes da música brasileira, o compositor solta a voz num registro sincero e despretensioso. Arrisco dizer que, tendo obtido a qualidade que percebemos ao ouvir este trabalho, tem nada não! Pode tirar o som de onde quiser.
Shopping Brazil – o disco – pode ser visto como uma espécie de feira de Caruaru ou Mercado da Praia Grande sonoro, pois tem de tudo, é só pegar (e ouvir): coco Parangolé, boi de zabumba Mutuca, xote Xaveco, samba Vestindo a Zebra, choro Ray ban. Convidados mais que especiais não faltaram: Dona Elza, da dança do caroço de Tutóia; o mestre pregoeiro Antonio Vieira; Mestre Felipe, do Tambor de Crioula, e Dona Teté do Cacuriá, esta última canta um kyrie eleison, em latim, repescado por Cesar na obra de Antonio Rayol.
Ele consegue manter em seu trabalho a força da tradição e raízes de nossa música – Bandeira de Aço, Namorada do Cangaço – aliada ao novo – Met(amor)fose, por um tempo, possível título do disco, e Shopping Brazil, a faixa título que, apesar de composta ainda na década de 70, soa nova, com a sua percussão em latas – fazendo com isso um disco moderno, sem ser chato. O compositor explica as ausências de Boi da Lua e Oração Latina, talvez os maiores clássicos de seu repertório: Se as colocasse, ficaria sem canções para o segundo disco, diz ele de forma brincalhona.
Eu nunca quis ser famoso!, brada um Cesar que, quer queira, quer não, o é.
Em se falando de música maranhense, dentro ou fora do Estado, todos lembram dos versos mamãe, eu vi Boi da Lua dançar no planeta do Brasil, da toada Boi da Lua, gravada pela primeira vez por Papete em 1978, no disco Bandeira de Aço.
O filho do falecido compositor Bibi Silva, apesar de conseguir transitar por outras vias artísticas – é, além de compositor, arranjador e instrumentista, poeta, jornalista e artista plástico – traz a música nas veias, e é certamente um dos compositores maranhenses mais gravados Brasil afora: Dércio Marques (Namorada do Cangaço), Papete (Boi da Lua, Flor do Mal, Bandeira de Aço), Rita Ribeiro (Parangolé), Rosa Reis (Mutuca, Boi de Piranha), Flávia Bittencourt (Flor do Mal, Dolores) e Chico Maranhão (Brincadeira de Viola, em parceria), apenas para citar alguns.
Podemos observar o disco ainda do ponto de vista da função social e de transformação e denúncia que a arte tem a obrigação de promover, apesar de ser um trabalho bastante festivo e dançante.
Cesar Teixeira trabalha a chamada estética do lixo, em oposição à estética do luxo: fotos de palafitas e palafitados compõem o encarte do disco, sob a ótica atenta de Márcio Vasconcelos. A imagem aliada à música e a idéia de que os verdadeiros shopping centers do povo brasileiro são os lixões: de lá uma parcela da população tira a sua moda e alimentação. O lixo é nosso! Pega a lata e come!, grita Cesar em Shopping Brazil. Para nos salvar desse lixão a céu e porta-malas abertos em que se transformou a música brasileira (com raras exceções), a música de Cesar Teixeira finalmente é nossa! É ligar o som, ouvir e reciclar a alma!
As bruxas também amam
(Letra e música: Cesar Teixeira)
Hoje eu quero é rodar
meu chapéu por aí,
feito sexta-feira, 13,
e soltar as bruxas.
Pois o mal do amor
é como um ímã:
eu te puxo e tu me puxas.
Acendo o sexo das estrelas
e mordo, sob a luz das velas,
teu pescoço de ave rara
e depois comemoro.
Não quero saber
se o que eu bebo na taça
é teu sangue ou champanhe,
eu só sei que estou alegre
quando choro.* Colaborador. E-mail: zema_ribeiro@hotmail.com
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