Data de Publicação: 2 de dezembro de 2005

Sem heterônimos, o pintor angolano Álvaro Macieira nasceu com três almas em 13 de maio de 1958, na Vila de Sanza-Pombo, província do Uíge. Além de pintor, é também escritor e jornalista, destacando-se nessas atividades com igual sabedoria.
Foi editor de Cultura na Agência Angola Press (Angop), onde, em 1983, iniciou sua carreira de jornalismo, escrevendo ainda no Jornal de Angola e no Correio da Semana, além de colaborar com a Rádio Nacional, com a Televisão Pública de Angola e com a Tribuna Cultural da BBC de Londres em Luanda.
No âmbito institucional, atuou na Secretaria de Estado da Cultura, chefiou o Departamento de Imprensa do Ministério da Comunicação Social, e também foi Assessor de Imprensa e Porta-Voz do ex-Primeiro Ministro Marcolino Moco.
Atualmente é integrante da União dos Escritores Angolanos, tendo publicado, em 1988, Castro Soromenho: cinco depoimentos, e, em 1992, Cantos de Amor, na Coleção Lavra e Oficina, Poesia. Cinco livros inéditos estão na fila do prelo.
O ARTISTAJomo Fortunato informa que, quando adolescente, Álvaro sempre teve a pretensão de concluir um curso de belas-artes, fato nunca concretizado, em virtude das circunstâncias da pré-independência de Angola. Resignado, teria reservado a arte da pintura para a curva da velhice.
Para o comentarista, as inquietações do artista revisitam simbologias da arte rupestre, incrustações de objetos de valor utilitário e “terminam numa séria reflexão sobre o nosso devir histórico quando se assiste a uma vertiginosa planetarização da cultura ocidental”.
Em 1988, Álvaro Macieira assumiu definitivamente nas suas veias o sangue das tintas, e dois anos após arrebatou o 2º prêmio de Pintura ENSARTE, instituído pela Empresa de Seguros e Resseguros de Angola.
Nesse mesmo concurso, em 2002, ganhou o troféu máximo, considerado o Santo Graal das artes plásticas em Angola.
Além de ter realizado exposições internacionais, como em Moscou e Paris, suas obras fazem parte de coleções particulares em Portugal, Brasil, Alemanha, Itália, Estados Unidos, Inglaterra e África do Sul, entre outros países.
Este ano realizou a sua sétima exposição individual – Terra Una –, entre 18 de abril e 31 de maio, no Salão Internacional de Exposições (Siexpo) do Museu de História Natural, em Kinaxixi, que recebeu mais de 10 mil visitantes.
Américo Kwononoka diz que o paradigma da inspiração pictórica de Álvaro Macieira são as histórias da sua infância, das florestas como tabernáculos dos monstros e animais “testemunhados pelas aves que anunciam e almejam a liberdade, pela seriedade do cágado e pela inconstância do lagarto”.
SOLIDARIEDADE Rebuscando o conhecimento da realidade e da vida cultural de Angola, as tradições, contos e provérbios, há duas décadas o artista percorre o país, somando à sua vivência na zona rural informações preciosas e retribuindo com ações.
Juntamente com o alemão Horst Poppe e o mestre angolano Augusto Ferreira, o pintor fundou o “Grupo Conexão”, que expôs no início do ano na Ilha do Mussulo, sendo a venda das obras revertida para uma colônia de leprosos.
Luís Mascarenhas, adido cultural da embaixada de Portugal em Angola, por ocasião da exposição África Mitológica, realizada em 2001, dizia: “O artista plástico fermenta e plasma um Álvaro Macieira eternamente surpreendido consigo próprio e com o mundo”.
De modo geral, os quadros de Macieira, ao mesmo tempo em que resguardam os costumes e as manifestações populares, também revelam uma profunda preocupação com a paz, a unidade e a justiça social na turbulenta Angola.
Clamor pela Paz, obra já exposta em Paris, é um bom exemplo disso. Acrílico sobre tela de dois metros por seis, é um conjunto de mais de 60 rostos, como máscaras que, para o crítico de arte Adriano Mixinge, significam metaforicamente todos os angolanos.
Um outro exemplo seria O Meu Pequeno Guernica, em alusão ao clássico da cidade espanhola massacrada pintado por Pablo Picasso, de quem, sem dúvida, Álvaro bebe em vários momentos as pinceladas cubistas.
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