Data de Publicação: 2 de dezembro de 2005

Aos 67 anos, a cantora angolana Lourdes Van-Dúnem, cada vez mais solicitada pelo público internacional, continua exuberante e feliz da vida. Um antigo sonho da artista foi realizado recentemente: cantar nos Estados Unidos da América.
O convite partiu da embaixada angolana nos EUA, que organizou os festejos do 27º aniversário da Independência de Angola, o 11 de novembro. Em 1975, sob a liderança do poeta Agostinho Neto (MPLA), o país ficou definitivamente livre de Portugal, do qual era colônia desde 1482, mas não impediu as lutas internas.
LÁGRIMAS DA DIÁSPORA“Tia Lourdes”, como é chamada pelos compatriotas, apresentou-se no dia 16 de novembro, no Salão Zanzibar, em Washington, ao lado de um grupo de bailarinas e da Banda Movimento, da Rádio Nacional de Angola.
Mais de 300 pessoas vibraram quando “Tia Lourdes” interpretou Búzio, Ngongo ya Biluka, África, Twenza Wê, Uxidi e Mwa Belela, arrancando lágrimas de angolanos que deixaram a pátria com a diáspora.
Houve também a performance do músico Barcelo de Carvalho, o “Bonga”, considerado embaixador do semba, que apresentou-se com o conjunto Semba Máster, interpretando sucessos da música popular angolana, como Mulemba Xangola.
O espetáculo foi antecipado pelo discurso da embaixadora angolana, Josefina Pitra Diakite, que ressaltou o clima de paz e reconciliação entre os angolanos durante os festejos da Independência. No final, um espectador eufórico, comentou: “Se isso é paz, vale a pena!”.
HISTÓRIA DESAFINADAA guerra civil entre facções políticas de Angola, iniciadas após a Independência, mantém mais de 500 mil refugiados fora do país, depois de um frustrado cessar-fogo em abril deste ano.
Como resultado dos combates entre os rebeldes da UNITA e o exército angolano, que se enfrentam desde 1975, a pobreza, o analfabetismo e as epidemias são agravados por 15 milhões de minas terrestres e pela omissão da ONU.
Ironicamente, o caos social de Angola tem a ver com o apoio dado aos inimigos do governo de José Eduardo dos Santos (MPLA) pelos Estados Unidos, que usa a mesma receita ideológica contra países de história socialista, sobretudo se possuem petróleo e diamantes.
A liberalização que se seguiu às eleições de 1992 trouxe embutida forte concorrência no mercado musical. Com a invasão dos hits americanos, sobretudo “dance music”, além de CDs superfaturados e fitas piratas, muitos artistas tradicionais angolanos exilaram-se.
Desse modo, a luta pela afirmação da cultura angolana dentro e fora do país é um sinal de esperança. Em vez de balas, versos e notas musicais poderão reaproximar irmãos que, ainda no exílio, nutrem-se de ódio. Talvez tenha sido essa a missão da caravana que foi aos EUA.
TODA ARTE À MOSTRAOs espetáculos do 11 de Novembro, além de Washington, foram realizados em New York, Virgínia, Maryland, Pensilvânia, Boston, Filadélfia, Texas e Oklahoma (locais onde residem angolanos) com a participação de Lourdes Van-Dúnem.
A Embaixada de Angola nos EUA incluiu no programa cultural obras dos escritores Jorge Macedo e Tazuary Nkeita, a música lírica de Té Macedo e João Oliveira, pinturas de Tona e Maly Gusmão, além de uma mostra da cozinha angolana.
UMA PITADA DE PIMENTA DO REINOPara a cultura maranhense, da música à culinária, foi valiosa a contribuição de Angola e de outros países africanos, sobretudo da Costa da Mina.
Recentemente, escrevi sobre o disco “Sotaque Maranhense na Arte de Cozinhar”, de Wellington Reis e José Ignacio, que transformam receitas em música, utilizando ritmos tradicionais. Parece que não soou bem. Do calçadão do Roxy ao Buraco do Tatu, ouvi críticas, suaves como pele de cacto, à matéria.
Não elogiei o CD, nem o desmereci, mas gostei da idéia – aliás, a culinária maranhense é um tema explorado há anos por Vieira e Lopes Bogéa. Acrescentei que, mesmo não sendo obra-prima e com o preço salgado, o disco teria mercado, e ressaltei a qualidade inegável do projeto gráfico e das fotografias.
Sequer fiz referência à FUNCMA como patrocinadora, embora sua função seja a de promover a cultura do povo, sem privilégios. Não recebi grana ou favor para falar no CD. Em 17 anos de profissão, nunca utilizei o jornalismo sem ética.
Na verdade, naquela semana iria comentar o disco de Célia Maria, mas o lançamento havia sido adiado. Então chegou um e-mail da Matraca Mídia Cultural sobre o Sotaque, do qual não tinha conhecimento, e resolvi fazer a matéria.
Informo, ainda, que não fiz campanha de Zé Reinaldo, não participei do festival pré-eleitoral de Jackson – embora convidado por Sinhô – e não vou montar nenhum bar ou restaurante típico na Praia Grande, nem na Madre de Deus, de onde fui expulso pelos mortos.
Em tempos de McDonald’s, muita gente nem quer saber se o bobó, o arroz de cuxá e o caruru, por exemplo, saíram das mãos de mulheres de Angola ou do antigo Reino do Daomé que aqui chegaram acorrentadas.
As críticas até que são opções menos sinistras em São Luís – onde, nos porões, torturam-se almas feito cebolas – e saciam a paranóia que cultivo há 49 anos para resistir à hipocrisia geral.
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