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Angola: dos porões dos navios negreiros a uma literatura de resistência e transcendência (II)

Edição 42

Angola: dos porões dos navios negreiros a uma literatura de resistência e transcendência (II)

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Data de Publicação: 2 de dezembro de 2005
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As poéticas brasileira e da africanidade se integram em vários pontos, no que são afins, convergentes, confluentes e freqüentes e no quanto se alinham por emparelhamento e encadeamento, eliminando-se, às vezes, até as barreiras das distâncias territoriais. Nesse domínio de conhecimento da Teoria Literária, seria preciso um amplo estudo de Literatura Comparada para que se pudesse estabelecer esses graus de parentesco que, do ponto de vista estético, são bem visíveis, naquilo que são consabidamente também co-irmãos pelos lastros e laços sangüíneos, históricos, sócio-econômicos e políticos. O Brasil, como Angola, Cabo Verde, Moçambique, Timor Leste, Goa, etc., passou por um processo de colonização que incluiu basicamente o domínio português, mas que sofreu também a pressão da pirataria francesa, holandesa, espanhola e inglesa e recebeu a herança de um rastro marítimo de suor, sangue, lágrimas, escravidão e genocídio, escravidão de negros e índios em cativeiro, exílio de negros africanos em porões de navios negreiros e em casas grandes e senzalas.

Os pontos de contato são mais de origem estética e, neste particular, a poesia africana ou da africanidade, especificamente nesta edição, a de Angola, tem as características básicas do modernismo, importadas da Europa, particularmente da Itália e Portugal, para o Brasil. Há em comum também os processos de aculturação e deculturação. Assim, a poesia angolana mais expressiva manifesta, de 1975, com a Independência, para os dias atuais, como base estética o livre-metrismo, a liberdade sintática, ortográfica, o não rigor formal de regras de regência, concordância, estrutura da frase e pontuação.

Do ponto de vista do conteúdo, da expressividade, da emotividade, a poesia angolana é completamente diferente da brasileira. Primeiro, porque os poemas antropofágicos e pau-brasil, escritos, no Brasil, a partir da Semana da Arte Moderna de 1922, basicamente por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Menotte Del Picchia, Ribeiro Couto, Ascenso Ferreira e, posteriormente, até por Jorge de Lima, não têm, do ponto de vista da genuinidade e sentimentalidade, o mesmo valor, frescor e vigor da poética da africanidade, embora, numa contextualização estética, represente a revolução formal a que se propuseram. A poesia angolana é visceral, vivida, vivenciada.

A instauração do modernismo angolano é paralelo à independência e tal fator é determinante na construção de uma poesia mais autêntica e vigorosa, ainda que não tenha o peso de uma tradição histórica já alicerçada, no campo estético, como a brasileira.

A dimensão da poesia angolana está em nível do universo poético poder representar a realidade histórica vivida simultaneamente pelos seus próprios poetas e pelos contemporâneos e ancestrais destes, cuja inspiração é fruto do sofrimento, da dor, da paixão, do amor e da compaixão, assim como da alegria e do ódio impregnados na pele, na alma, no coração, no cérebro e nas percepções sensoriais, não como uma tatuagem, mas como uma marca de um ferro incandescente, definitiva. Ou seja, a poesia da africanidade constitui a busca de um resgate paralelo, simultâneo, imediato ao fato histórico, ainda que a dependência tenha durado cinco séculos. Os poetas que aqui estão com seus poemas viveram o holocausto e a ressurreição de seu povo e ainda vivem e participam desse resgate diário, como uma conquista incontroversível, resultado da coragem e do desassombro inabaláveis de quem viveu sem esperança e sem medo diante da morte e acabou por encontrar a partir dela a própria vida.

O resgate brasileiro é, sem via de dúvidas, elogiável, ainda que represente mais uma revolta estética, ideológica, já que, em 1922, estava de há muito concretizada a Independência do Brasil, se é que houve alguma comemorada, dado que, poeticamente, somente alguns por ela se bateram, como Tomás Antônio Gonzaga e Castro Alves. Sousândrade proferiria a célebre frase quando do episódio da Independência, República Proclamada! Pau-d’Arcos em Flor! Uma liberdade tardia.
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