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A Camareira do Titanic
A Deusa dos Pés Descalços
A Embaixatriz Cultural de Cabo Verde: Do Regional para o Universal
Editorial
Cabo Verde: Correspondência poética da África

Edição 20

A Camareira do Titanic

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Data de Publicação: 1 de dezembro de 2005
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Miguel Sousa Fernandes

Por: Frederico Machado

Mais um grande filme do diretor espanhol Bigas Luna, A Ca- mareira do Titanic, faz-nos deitar na cama, cuja serva é a imaginação. Mas, isso de imaginar, criar, inventar, improvisar, mentir, não é para qualquer um. Só os puros de coração – que são muitos – não se habilitam a “voar em pássaros”. Já os sujos, preguentos do ardor de não se ter a Presença desejada, os enlameados, enfim, é que ensaiam limpar os sapatos nas calças e, por vezes, (muitas, no filme), correr, correr, voar, saltar no meio de um grande ato, o seu próprio, inaugurando-se como Pessoa.

Tudo isso, não por heroísmo, mas pela implacabilidade inevitável do compromisso consigo, talvez ainda com sua própria vocação por sofrer... Como é infernalmente bom imaginar, criar,...sonhar! É disso que nos “fala” o filme que, apesar de ser de um espanhol, é falado encantadoramente em francês.

A atriz Aitana Sanchez (Maria, no filme), que serve de inspiração ao protagonista Martinez (Horty), arrebata-nos com a sensação de que as artes plásticas estavam realmente certas com sua busca obsessiva pela pose, o “instante privilegiado”, ensinando ao cinema que o que vale mesmo é a síntese do instante rápido de um acelerado obturador fotográfico. A pose que guardaria a essência da figura em exposição. É o que sentimos quando Maria sorri para Horty numa “câmera subjetiva” deste. Apressamo-nos e assumimos esse olhar. Apaixonamo-nos. E assim, já adentramos o mundo criado por Horty, magistralmente criado, diga-se com ênfase. O olhar lançado estatela-se em nossa retina, numa explosão semântica pluralmente aberta, movediça, fazendo-nos experimentar a paz por alguns instantes em que ao mesmo tempo, experimentamos o terror de um caldeirão borbulhante, quando desviamos o olhar e ela não está mais ali. Em seu lugar, outras seqüências do filme...

Responsável por esse passeio imaginário e encantador é, sem dúvida, a melodiosa e sedutora voz de Horty. Agora, pois, danou-se, temos duas fantásticas arquiteturas da sensualidade: Maria...e Horty. Criatura e criador. Um filme evidentemente feito sob o ponto de vista masculino (Lunas é homem). Nesse sentido, ele – Horty (ou Lunas) – encanta pelo que descreve, pelo que aponta, pelo que indica. E como aponta, como indica, principalmente. Ela – Maria -, por sua vez, é o seu mundo criado, imaginado, inventado (e não pense que esses termos são sinônimos, pois não são) que conhecemos, mas que nem sabemos se o queremos, mesmo que seja real. Assim, parece mesmo estar bem.

Bem, vou parando com minhas impressões, por aqui. Quem quiser saber mais do filme não deve hesitar em visitar a sala do Cine Praia Grande para se deleitar com os serviços de uma sedutora camareira. Ou, quem sabe, com os serviços de um sedutorrr... Bem, não importa um complemento objetivo. Use-se a imaginação.

Entrevista

Bigas Luna, o sensual contador de histórias


O catalão Juan José Bigas Luna chega aos 54 anos, à maturidade, como diretor de cinema. Distante das obras polêmicas e provocadoras do passado, como As Idades de Lulu, Jamon, Jamon, Ovos de Ouro e A Teta e a Lua, Bigas Luna conquista, com A Camareira do Titanic, reconhecimento mundial. Para o crítico espanhol Miguel Peirotti, um apaixonado pela obra de Bigas Luna, o diretor de Barcelona forma, ao lado de Pedro Almodóvar e Vicente Aranda, “o trio principal de erotômanos da indústria cinematográfica espanhola”. Para os três, diz o crítico, as paixões são o sal e a pimenta de suas obras. O erotismo é parte inerente do moderno cinema espanhol. “Os diretores espanhóis se refugiam no sexo. Quando começa a função sexual, eles pegam a câmera e começam a filmar”, ironiza o diretor Vicente Aranda.

O que particularmente lhe interessou no projeto do filme?

Bigas Luna - Essencialmente, meu trabalho criativo funciona de duas maneiras, que estão muito presentes no meu mundo pessoal e podem ser vistas em forma de ficção em A Camareira do Titanic. Primeiro, é a necessidade de contar uma história. Eu sempre faço filmes sobre algo de que gosto, que me fascina, me toca, que provoca em mim a necessidade irrepreensível de contá-lo aos meus amigos. Minha imaginação encontra sua fonte nessas histórias e é assim que o mecanismo criativo se desenvolve, permitindo recriar meu próprio mundo.

Este é o seu primeiro filme de época. Como você determinou a aparência do filme?

Bigas Luna - A vida de Horty está em constante evolução. Com Patrick Blossier, o diretor de fotografia, e Franca Squarcapino, a figurinista, travamos um grande entrosamento de trabalho na evolução da história. O roteiro é claramente estruturado em quatro estágios, cada um requerendo um tratamento estético diferenciado para marcar sua evolução. Cada estágio tem uma cor diferente.
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