Data de Publicação: 1 de dezembro de 2005
Por: Cesar Teixeira
A caboverdiana Cesaria Evora, que só fez sucesso a partir dos 47 anos quando foi para Paris, em 1988, conquistou fama internacional com o que mais gosta: cantar mornas e coladeiras, ritmos tradicionais de Cabo Verde. Não importa onde, desde que possa tirar os sapatos e sentir saudade da vida boêmia em Mindelo, sua cidade natal, onde gostava de curtir “um punch feito com mel, grogue e limão”, lembra.
Nascida em 27 de agosto de 1941 em Mindelo, capital da ilha de São Vicente, Cesaria Evora abriu as fronteiras do mundo para o arquipélago de Cabo Verde, no Oceano Atlântico. Mais que isso, conseguiu a admiração da crítica internacional, reafirmando a musicalidade de uma região invadida desde o final do século XV por navegantes atrevidos.
Ali sobreviveram influências musicais e instrumentos europeus como o violino, o pandeiro, o cavaquinho e o violão, que se juntaram aos ritmos criollos, originando a morna, a coladeira, o batuque e o funaná. Cabo Verde, no entanto, atravessa problemas ambientais e nada poéticas crises sócio-econômicas, heranças colonialistas.
Cesaria diz à revista espanhola Ócio que a falta de recursos a obrigou a sair de Cabo Verde para trabalhar. “O povo ama muito sua música e suas raízes, a tem no sangue e a leva a qualquer lugar para onde vai”.

Billie hollynight - Quando menina, Cesaria transitava entre as estações de rádio do Mindelo, depois, ao lado do clarinetista Luís Morais, fez o percurso dos bares. Cize, como é popularmente tratada, passava as noites do Mindelo de copo na mão e pés descalços, cantando para os admiradores e marinheiros de passagem por São Vicente.
Casou-se várias vezes e teve filhos. Particularidades de uma cantora que só iniciaria sua trajetória da fama quando visita Lisboa a convite do cantor Bana e de uma associação de mulheres de Cabo Verde. Em 1988, o agente José da Silva (Djô) a leva para uma excursão a Paris, estendendo-se depois por toda a Europa.
Aos 61 anos, a “Billie Hollynight” (assim carinhosamente apelidada pela imprensa) que chegou a cantar até nos navios de guerra, vive uma fama iniciada em outubro de 1988, quando interpretou Bia Lulucha no New Morning Club, em Paris, e a Lusáfrica lançou o CD “La Diva Aux Pieds Nus”.
Dois anos após, surge “Distino di Belita”, salada de mornas acústicas e coladeiras elétricas, seguindo-se “Mar Azul” (1991), “Miss Perfumado” (1992), “Sodade” (1994), “Cesaria” (1995), “Cabo Verde (1997) e “Café Atlântico” (1999). Em 2001, brindou-nos com “São Vicente di Longe”, resumo de carreira com arranjos de Jacques Morelenbaum pela BMG.

Cize, sempre que terminava suas viagens, aportava em Mindelo para deitar-se nas praias e conferir estrelas, além de beber, como de costume, “um groguinho de Santo Antão, um punch feito com mel, grogue e limão”.
Recentemente, a cantora foi a Portugal para operar-se da vista e de um pé, seqüelas da vida boêmia que há muito a atormentam.
Vidas mornas - Cesaria Evora soube como ninguém interpretar mornas que tornaram-se verdadeiros clássicos da música popular de Cabo Verde, a exemplo de “Sodade”, “Papa Joaquim Paris” ou “Miss perfumado”. A morna, do inglês mourn, “pesar”, tem semelhança com o blues, mas sobretudo com o chorinho e o samba-canção brasileiros.
Há uma hipótese de que o ritmo origina-se do fado português, do lundum angolano e da música argelina, num concubinato morno entre a Europa e os ritmos africanos. Outros acreditam que nasceu no século XIX na ilha da Boavista. A música “Brada Maria”, de 1870, é tida como uma das primeiras desse estilo. No início, a morna não cantava a tristeza, a separação, o amor ou a morte, como atualmente. Dor-de-cotovelo da história, quem sabe.
Muitos compositores da morna foram divulgados por Cesaria, como B. Leza, Luís Morais e Amandio Cabral, embora este já fosse conhecido internacionalmente. Nascido na ilha de São Nicolau, Amandio é um dos autores de “Sodade”, composta em 1958 (talvez o maior sucesso de Cesaria), tendo vivido profissionalmente como músico entre Lisboa e São Francisco, EUA.
Bandeira verde - Em julho de 1999, a cantora foi homenageada pelo governo português no Centro Cultural de Belém, com a presença da cantora brasileira Elba Ramalho, do grupo português Músicas de Sol e Lua, além do Grupo Voz de Cabo Verde, entre outros. Detalhe: Cize estava descalça quando recebeu, de um ministro, a Grã-Cruz do Infante D. Henrique.
Visivelmente feliz, Cesaria interpretou alguns sucessos e várias canções do álbum “Café Atlântico”, que teve mais de 300 mil cópias vendidas só na França. Não por acaso foi cinco vezes indicada para o Grammy na categoria de World Music.
No seu último álbum “São Vicente di Longe”, gravado em Paris, Havana e Rio de Janeiro, a cantora reforça o sentido universal da música, com a participação de convidados como Caetano Veloso, Pedro Guerra, Bonnie Riatt, Chucho Valdés e a Orquestra Aragón, um dos melhores grupos musicais de Cuba.
Símbolo vivo da esperança do povo de Cabo Verde, Cesaria Evora pode ser considerada uma bandeira dos povos ilhados pela história.
Hoje, por precaução, Cize tornou-se abstêmia. Mas, entre outras tiradas, adora recordar que deixou de beber em 15 de dezembro de 1994. “Eu tinha que apontar o dia! Agora o dia em que comecei é que já não me lembro...”
- Próximo texto:
- Edição 20 A Camareira do Titanic
- Texto Anterior:
- Edição 20 A Embaixatriz Cultural de Cabo Verde: Do Regional para o Universal
- Índice da edição - Ano I