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A Embaixatriz Cultural de Cabo Verde: Do Regional para o Universal
Editorial
Cabo Verde: Correspondência poética da África

Edição 20

A Embaixatriz Cultural de Cabo Verde: Do Regional para o Universal

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Data de Publicação: 1 de dezembro de 2005
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A Embaixatriz Cultural de Cabo Verde: Do Regional para o Universal

Por: Alberico Carneiro


As letras das canções interpretadas por Cesaria Evora, cantora nasci-da em Cabo Verde, apresenta um perfil panorâmico da formação e evolução do dialeto crioulo caboverdiano.

Através desse repertório, a embaixatriz cultural do Arquipélago de Cabo Verde faz uma leitura definitiva dos falares de sua terra, ao privilegiar as canções fundadoras e formadoras do cancioneiro popular ou do folclore caboverdiano, das canções telúricas ou nativistas que em mar, viagens, colonialismo, escravidão, solidão, nostalgia, saudosismo, amor e paixão, lutas e sofrimentos, morte e renascimento, construíram e reconstituíram a alma de um povo que procurou se significar através do texto, para sobreviver, mais em seu lado romântico, emotivo, que épico, numa lírica perpassada por forte carga emotiva.

Seguindo o roteiro das canções, descobrimos que o dialeto crioulo caboverdiano constitui uma mescla da língua primitiva ou nativa com as línguas dos conquistadores, que lá estiveram, dado que o arquipélago se transformou num ponto de convergência, rota de cruzamentos marítimos de várias nacionalidades, por interesses colonialistas, de piratagem ou escravocratas. Isto propiciou o ambiente para essa mescla do vocabulário de algumas línguas românicas ou neolatinas que lá se cruzaram e fundiram com o substrato tribal primitivo.

O que lemos é o substrato lingüístico, o resíduo natural impregnado dos falares caboclos, impactado e afetado pelo superstrato neolatino das línguas românicas, o português, o francês, o espanhol e o italiano, por um processo de desculturação e aculturação progressivo, num ambiente colonialista, escravocrata, bárbaro.

Canções em tom de lamento, a maioria nascida da memória oral e passadas de boca em boca pelo registro do inconsciente coletivo, a intérprete ou porta-voz dessa sentimentalidade caboverdiana, Cesaria Evora, faz uma viagem pelos meandros mais subjetivos da alma de seu povo e de sua gente, transitando das canções folclóricas para uma lírica em língua de cultura, a celebrar os poetas mais populares de sua querida Cabo Verde.

Esse repertório textual nos apresenta algumas características típicas da língua primitiva do Arquipélago, somadas ao superstrato dos conquistadores, o que resultou no dialeto crioulo caboverdiano que, diríamos, dá-lhe status de “língua” interjectiva, onomatopaica, aglutinante, sincopada, elíptica, apostrófica, apocopada, sintética.

Esse quadro ou perfil, no geral, denuncia um dialeto primitivo, próprio das literaturas africanas de língua portuguesa, cujo somatório do substrato e superstrato (ortográfico e fonológico) apresenta peculiaridades próprias de uma “língua” oral ou falada, aglutinante.

Deduz-se, pela leitura de textos de canções populares e de obras literárias que, em Cabo Verde, co-existem dois níveis de linguagem, a partir das considerações sobre o dialeto caboverdiano: um de caráter eminentemente popular, vulgar, oral e escrito pelas camadas menos escolarizadas, na prática do dia-a-dia, portanto em linguagem coloquial, familiar; o outro nível, o das obras literárias, por influência da Literatura Brasileira, a partir da geração de 1930 (Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, na prosa; e, na poesia, Manuel Bandeira) se processa em língua culta ou literária, seguindo os cânones da Língua Portuguesa vigente no Brasil e em Portugal.

Sabor de Pecado

Na ponta de bôs lábios
Tem fogo di amor
Tem mel di abelha
Tem paixão tem calor
Tem tentaçon di maçã
Tem sabor di pecado
Bôs bejos tem
Doçura e mistêr
(de Novas, Manuel. CD São Vicente di Longe, Cesaria Evora. Studio Plus XXX, Paris, Dezembro de 2000, p.2)

São Vicente di longe

Quem q’oiá
São Vicente di longe
Ca ta imaginá
Qui tromente nô la passá

Oi tonte corrê pa riba
Oi tonte corrê pra bôxe
Sem rume sem direcção

Oi tonte subi furtim
Oi tonte subi tribunal
Sem esperança sem ventura

Nossa Senhora da Luz ta companhóne
Senhor São Vicente ta guióne
Quê nô tem fé d’salvá um dia
(de Maninha, Lela. CD São Vicente di Longe, Cesaria Evora. Studio Plus XXX, Paris, Dezembro de 2000, p.2)

Peculiaridades do dialeto caboverdiano

O dialeto caboverdiano, em sua vertente popular, se caracteriza, no geral, por uma estrutura aglutinante, elíptica, apocopada, sincopada, justaposta, onomatopaica, interjectiva, apostrófica, sintética,

As elisões dão aos textos um tom malemolente, nostálgico, saudosista e melancólico, expressando com fina emotividade a atmosfera do Arquipélago.

Considerando as letras de músicas como São Vicente di longe, da autoria de Leia de Maninha; Homem na meio di homem, da autoria de Gerard Dahan e Teófilo Chantre; Sabôr de Pecado, de Manuel de Novaes; Dor di amor, de Mario Lucio; Regresso, de José Agostinho e Amilcar Cabral; Esperança Irisada, de Gerard Dahan, Koza Belleli e Teófilo Chantre e Crepuscular Solidão, de Teófilo Chantre, bem como tantas outras canções interpretadas por Cesaria Evora, descobrimos algumas características peculiares do dialeto, como casos de aglutinação: detardinha, quemode, dum; casos de apócope: ness, podê fazê flori; troca de gênero: um tchuva, na patamar, dum vida, num multidão; prótese: tchuva; linguagem elíptica com uso de apóstrofe: d’amor; troca do pronome pessoal do caso reto pelo pronome pessoal do caso oblíquo: ‘M contemplá; diferença na acentuação: ja; síncope: demas, odjos; apócope e aférese: qu’ta e uso do oblíquo espanhol la.

Assim, as heranças do latim, do português arcaico, do francês, do espanhol e do italiano no dialeto caboverdiano são bem visíveis.

Palavras como coraçon, bençon têm compromisso com o espanhol e o francês; odjos é forma sincopada do espanhol ojos (olhos); o la é herança do espanhol; o di é herança do italiano, bem como inúmeros casos, a cobrar dos estudiosos de filologia um estudo amplo desse rico acervo.

A literatura de Cabo Verde

Agnaldo Fonseca (Agnaldo Brito Fonseca) nasceu em Mindelo, Ilha de São Vicente, Cabo Verde, 1922. Freqüentou o Liceu de sua ilha natal. Viveu na Ilha de Santiago, atualmente vive em Lisboa, depois de alguns anos em Setúbal e no Porto. É funcionário aposentado. Sua obra poética está publicada em várias antologias, entre elas na Modernos Poetas Caboverdianos, Cabo Verde/61; Modern Poetry from Africa, 63; Antologia da Terra Portuguesa, Angola/67; La Poésie Africaine d’Expression Portugaise, Paris/69; No Reino de Caliban, Lisboa/75; 50 Poetas Africanos, Lisboa/89.

A Ilha, O Luar e A Solidão

(Agnaldo Fonseca)


Sobre a cidade espantada de luar
bóia o cansaço dos homens sem futuro.

Da rua estreita
onde as casas são escuras como túneis
sobe uma voz marítima, familiar
cantando uma canção de condenados.

O mar fica a dois passos.
Na areia cintilante
palpita o coração dos pescadores.

E aquela moça franzina
que se entregou ao mundo num ano de grande fome
vai mansamente abandonar-se à beira-mar
olhando as águas, olhando os mastros, olhando o céu.

A lua cresce é cada vez maior

E o som
dolente
dum cansado violão
tomba
na noite longa
dolorosamente.
(in Mensagem/ano I, nº 3, fevereiro de l958)

Povo

(Agnaldo Fonseca)


É sempre a mesma história repetida
É sempre o mesmo lodo e a mesma fome
É sempre a mesma vida mal vivida
De quem amassou o pão mas não come.

É sempre a mesma angústia desgrenhada
De quem naufraga em terra olhando o mar
O rubro desespero, a voz magoada
E o sonho bom desfeito ao acordar.

É sempre esse horizonte de fuligem
É sempre esse arranhar em duro chão
Com fúria até ao centro da vertigem
Em busca da raiz da salvação
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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