Data de Publicação: 1 de dezembro de 2005
Por: Alberico CarneiroEmbora o crioulo caboverdiano (dialeto do Português) seja falado pela totalidade da população, como unidade lingüístitica de Cabo Verde, os escritores caboverdianos, a partir da década de 1930, se expressam e significam em Língua Portuguesa e, ao articularem este idioma (que é também um dialeto do português de Portugal) fazem com que seus textos dialoguem com os textos de escritores brasileiros, com os quais, por várias referências, se identificam.
Afinidades históricas co-irmanam duas pátrias distantes, por laços comuns, que incluem música, literatura, processo de formação histórica, questões étnicas, ressaca colonialista.
Alguns escritores caboverdianos até fizeram uma releitura de poemas antológicos da Literatura Brasileira. Isto implica dizer que usaram uma das técnicas literárias mais difíceis da modernidade, o aspecto paródico. Essa técnica, que privilegia, na prática, uma releitura problematizada de eternos ou consagrados temas e tem as características de novos arranjos, possibilita recriar textos, fazendo-lhes corte ou reverência, ou uma releitura de um ponto de vista diferente, às vezes irônico ou contraditório, ou às avessas. Neste caso específico, privilegia-se a ambigüidade ou o paradoxo, estabelecendo-se aí o que caracteriza o aspecto paródico, a bipolaridade ou ambivalência. Certos ícones ou arquétipos entram em jogo.
Dos poetas brasileiros parodiados por escritores caboverdianos, citem-se Manuel Bandeira (Pasárgada, Profundamente, etc.) e Carlos Drummond de Andrade (E Agora, José).
Afinidades comuns, tradição cultural semelhante, co-irmandades ideológicas aproximaram textos de escritores caboverdianos de outros textos de escritores brasileiros, entre eles Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, na prosa; e, na poesia, além dos citados, de poetas como Jorge de Lima e Ribeiro Couto.
José Vicente LopesNasceu na cidade de Mindelo, Ilha de São Vicente, a 6 de outubro de 1959, com vivência em São Tomé e Príncipe, Angola, Portugal e Brasil. Reside atualmente na cidade da Praia. É jornalista, formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil. Poeta, contista e ensaísta, os seus textos encontram-se publicados, de forma dispersa, pela imprensa caboverdiana e estrangeira.
DrummondianaA vida – sabemos – vai mal
A morte – coitada – nada tem a oferecer-nos de novo
Por isso
faz um poema josé
faz um poema suzana
faz um poema tomé
faz um poema ana
faz um
(p. 109)Rosa dos ventosO vício se alastra noite dentro
e a cidade se rende ao rumor de vozes
Todavia não era mais este o tempo sombrio
em que cada um se fecha dentro de sua dor
ou finge sorrir dentro da falsa alegria
Contornado o vazio da memória
apenas os pássaros enlouquecidos buscam agora
o rumo perdido da rosa dos ventos
(p. 110)
Osvaldo AlcântaraItinerário de Pasárgada(Este poema é uma paródia ao Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira)
Saudade fina de Pasárgada...
Em Pasárgada eu saberia
Onde é que Deus tinha depositado
O meu destino...
E na altura em que tudo morre...
(cavalinhos de Nosso Senhor correm no céu;
a vizinha acalenta o sono do filho rezingão;
Tói Mulato foge a bordo de um vapor;
O comerciante tirou a menina de casa;
Os mocinhos da minha rua cantam:
Indo eu, indo eu,
A caminho de Viseu...)
Na hora em que tudo morre,
Esta saudade fina de Pasárgada
É um veneno gostoso dentro do meu coração.
(p. 110)
João Batista RodriguesNasceu na Ilha de São Vicente, Cabo Verde, em 09/11/1931. Funcionário Judicial. Reside em São Vicnte, Cabo Verde.
Obras publicadas: Montes Verde-Cara (contos), 1974; O Casamento de Juaquim Dadana (noveleta), 1979; Casas e casinhotos (novela), 1981; Caminhos Agrestes (cantos), 1984; O Jardim dos Rubros Cardeais (novela), 1986 e Pérolas do Sertão (poema), 1986.
Valdemar Valentino
Velhinho Nasceu a 29 de maio de 1961, em Calheta de São Miguel, ilha de Santiago, Cabo Verde. Seu nome completo é Valdemar Valentino Velhinho Rodrigues. Aos nove anos muda para Praia, capital do país. Publicou duas coletâneas de crônicas de humor: Relâmpagos em Terra e Livro de Poemas, Editora Artiletra, 1995.
Ovídio Martins
Antievasão(Este poema constitui outra paródia do Pasárgada, de Manuel Bandeira)
Pedirei
Suplicarei
Chorarei
Não vou para Pasárgada
Atirar-me-ei ao chão
e prenderei nas mãos convulsas
ervas e pedras de sangue
Não vou para Pasárgada
Gritarei
Berrarei
Matarei
Não vou para Pasárgada.
(p. 110)
Síntese Dja-braba*
(para Oliveira Barros) O poeta
sua tela de pedra
alba e neblina
pólen e seiva
cinzel rasgando
carne de pedra
pedra de pétalas
mãos frementes
afagando
o pólen
a seiva
o orvalho
(pp. 60-61)
MáximasDe Deus só se sabe que à cruz
abandonou Cristo e depois os homens.
***
Isto o afirmo eu: Deus está velho
Demais para ter mais Filhos!
***
Quando era pequeno e me perguntava
O meu pai
O que eu queria ser quando crescido
Dizia eu isto e aquilo.
Soubesse eu, ó meu Deus,
Agora que sou poeta,
E diria que gostava simplesmente
de ser eu mesmo. Sim – raios! Eu Mesmo!
(pp. 129-130)
Euricles Rodrigues(Daniel Euricles Rodrigues Spínola), natural de Santa Catarina, Santiago, Cabo Verde. Nasceu a 11 de abril de l962.Bacharel em Português, professor do ensino secundário dos liceus. Pertence à direção das revistas Seiva e Fragmentos, com as quais colabora. Obras prontas a publicar: Na Kantor di sol (poemas em crioulo); Lírios et Pedregais (poemas, já no Instituto Caboverdiano do Livro) e Lágrimas de bronze (contos).
O sol na palma de minha mãoSilvina“Nem sempre perto da fonte
significa perto da água
ou que a sede será saciada.”
Saio ao vento – abafa-me o luar
Ando pelo ar – dilacera-me a noite
Olho as estrelas – estrangula-me o vazio
Escuto o mar – aniquila-me o silêncio
Digo Boa-noite!
Ouço-me responder Bom-dia!
Como um eco mutante
No vulto que me persegue
Estendo os braços
Para abraçar o amor que me sonha
E abraço-me a mim mesmo
Através do vácuo que me forma
Experimento sentir o roncar do mar
Através do búzio que são os meus sentidos
E sinto apenas o calor do meu coração
Em espuma só desafiando o vento
Mas que me importa?
Se o sol já é a gema de um ovo
Na palma da minha mão.
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XXX Ruas que se acocoram pela cidade
Punks Postes em malabarismos
Valas que esturram
Zonas que sonham
Com um pé num rio
E o outro sobre um braseiro semi-extinto
“Bão, Bão, sinos de paixão, aluvião, caixão,
Mais uns que lá vão, balão e mamão que se volatizam”
(pp. 149-151)
Mário LúcioMário Lúcio (Mário Lúcio Matias de Souza Mendes) nasceu no dia 21 de outubro de 1964, na vila do Tarrafal de Santiago, Cabo Verde. Publicou no Podogó, Ponto e Vírgula, Fragmentos, Voz di Letra, Voz di Povo, Tribuna. É licenciado em Direito.
AutobiografiaDesde que nasci
sonho todos os dias com a morte.
Mas, confesso,
a morte não é meu sonho.
(p. 167)
Mário FonsecaMário Alberto de Almeida Fonseca nasceu na Praia, Cabo Verde, em 12/11/1939. Professor de francês, no Senegal, administrador e tradutor na Mauritânia e Turquia. Tem poemas dispersos em revistas, jornais e antologias (Boletim de Cabo Verde, Seló, África Internacional, Solidarité, Afrique, África, Raízes, Poésie du monde Noir (Présence Africaine), Poésie Africaine d’Expression Portugaise. Obras: O Mar e as Rosas, que foi confiscado em Lisboa, em 1964, quando do encerramento forçado da então Associação Portuguesa de Escritores, pela polícia política. Sob o título geral de Mon Pays est une Musique, publicou os seguintes livros de poesia: Près de la Mer, Mon Pays est une Musique e Poissons. Participou das atividades da Associação de Escritores Afro-Asiáticos (Pequim, 1966, do Simpósio Literário Internacional contra o Apartheid (Brazzaville, 1987) e dos Estados Gerais do Livro Francófono (Paris, 1989).
Enquanto não soar a hora...Enquanto não soar a hora da minha morte,
Louvar eu quero a sorte que me couber,
Já que, por mais que amar, um tão forte
Amor, que só a morte mata, merecer
Não posso, ainda que tivesse arte.
Mulher, enquanto durar o vício de viver,
Que persiste mesmo quando é mais morte
Que vida, a vida que consente o poder,
Quero somente andar, nadar e cantar,
Comungar e cultivar o meu pomar,
E à tua sombra amada adormecer...
Pois só inepta sina ou príncipe consorte
Pode requerer poder a quem tem poder,
Que este com sorte e morte se merece,
Com morte e arte permanece.
(p. 89)
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