Data de Publicação: 1 de dezembro de 2005
Por: Frederico Machado
Não há dúvida de que Jean Renoir foi o maior gênio do cine-ma francês. Um dos melhores cineastas de todos os tempos, um humanista por excelência, que deixou uma obra repleta de reflexões sobre a bondade e a inteligência humanas, sempre com críticas aguçadas sobre a sociedade burguesa da época. Porém a França não nos deu apenas este talento tão revelador. Ela foi sempre o país que privilegiou o requinte estético nos filmes. Por isso, sempre foi acusada de fazer um cinema sofisticado, muito falado e representado teatralmente. Entretanto, se fizermos uma rápida retrospectiva, veremos que isso é uma inverdade que revela certo preconceito. Já houve Abel Gance com seu épico Napoleão; René Clair e seu brilhante espírito de humor; o estilismo de Jean Coucteau; Jean Vigo, com o seu belo O Atalante; o suspense de Henri-George Clouzot, considerado por muitos o “Hitchcock francês”; Marcel Carné, Roberto Bresson e Jacques Tati. Nunca um país produziu tantos talentosos e influentes cineastas.
Depois desse período recheado de clássicos, surgiu a década de 60, e com ela, a “nouvelle vague”, um movimento, para muitos, revolucionário, mas que quase pôs fim ao melhor cinema francês. Valorizada em todo o mundo, a “nova onda” consistia em filmes que, em busca de uma realidade e de uma verdade maior, destacavam, de maneira exaustiva, a pura intelectualidade no ser humano. Filmes difíceis, filosóficos, cheios de teoria que todos, críticos, estudiosos e público, achavam o máximo, mas que ninguém entendia. Surgiram Jean-Luc Goddard (Acossado), extremamente pretensioso para não dizer chato, Louis Malle (Trinta Anos Esta Noite), um cineasta com estilo, e Claude Chabrol, entre outros menos conhecidos.
Felizmente, o cinema francês conseguiu escapar desse modismo e apresentar algo mais relevante. Esse ressurgimento foi detectado somente no início da década de 80, depois de um período de quase total falta de talento que perdurou durante toda a década de 70. Esse renascimento se deveu principalmente a três jovens diretores que, através de seus filmes, fizeram que a França novamente retornasse ao posto que sempre foi seu: o do cinema que melhor alia a arte popular à arte clássica. Estes três jovens cineastas são: Luc Bresson que, com seus Subway e Nikita, se tornou um dos diretores mais rentáveis de todo o mundo; Jean Jacques Beineix que, com longas como Betty Blue, Diva e A Lua na Sarjeta, conseguiu fama; e, o melhor deles, Leon Caraix, considerado por muitos como “o novo Goddard” ( comparação infundada), que já dirigiu os belos, Os Amantes da Ponte Neuf e Mauvais Sang.
O cinema francês da década de 90 não se apóia, porém, somente nestes três nomes. A quantidade de diretores que fazem hoje um bom cinema na França é impressionante. Só para citar alguns exemplos: Patrice Leconte (O Homem Meio Esquisito, O Marido da Cabeleireira); Bertrand Blier (Quartos Separados); Alan Corneau (Todas as Mulheres do Mundo, Noturno Indiano); Eric Bouchet (Um Mundo sem Piedade) são cineastas de primeira linha.
Porém, o sucesso desta fase do cinema francês não decorre somente da grande quantidade e qualidade de seus diretores. A França tem um dos sistemas de produção para filmes mais organizados de todo o mundo. A co-produção envolve outros países e facilita a finalização do longa. A televisão é outra grande aliada. Ter uma distribuidora, a Gaumout, ajuda no sentido de que outros países tenham acesso às obras, sendo esse mais um incentivo aos jovens diretores, no sentido de imprimirem as suas idéias na película. E ainda há o famoso Festival de Cannes, considerado o mais importante festival de cinema do mundo.
A importância desse novo cinema é que ele revigora o maior trunfo do cinema francês: alia com perfeição as descobertas da mais alta elaboração mental aos achados da sabedoria popular. E, ao lado dessa combinação satisfatória, trata o seu público com respeito, fazendo obras que levam à reflexão, mas que são de fácil acesso à platéia comum que vai ao cinema.
O cinema francês da década de 90 não é um novo movimento, mas apenas uma volta à simplicidade que foi perdida de alguns anos para cá. Talvez o principal inspirador desse cinema seja o cineasta e crítico François Truffaut (Os Incompreendidos, Jules et Jim) que, por incrível que pareça, foi quem fundou o termo “nouvelle vague”, com o qual defendia o cinema de autor. Porém, seus seguidores, durante o movimento, absorveram de tal forma essa fórmula que se esqueceram totalmente do público. O novo cinema francês, em contrapartida, tenta resgatar isso: o cinema de autor, comprometido com assuntos sérios, mas com uma grande diferença: não esquecer o público, que é a principal causa para que o cinema possa existir.
A busca da identidade de uma linguagem particular, são fatores relevantes para estes novos cineastas. Certos diretores exageram na beleza plástica, obtendo imagens deslumbrantes numa fotografia caprichosa e estilizada, mas esquecem de que o cinema também é mensagem, é história.
Privilegiam a aparência em desfavor da essência, a estética, em relação à ética. Entre estes casos, se encontra o já citado Jean Jacques Beineix, um diretor que veio da publicidade. Já outros carregam no preciosismo da mensagem, das idéias, e esquecem que os filmes têm certas regras de linguagem, como fez Cril Colland, recentemente falecido, que dirigiu a obra-testamento Noites Felinas.
Outro grande motivo para este sucesso de público e de crítica é uma renovação de atores e atrizes, cuja fama já se estende a outros países, como Sophie Marceau (Meus dias são mais bonitos que suas noites), Jean Hugles Anglade (Noturno Indiano), Emanuella Beart (A Bela Intrigante), Romida Bohinger (A Acompanhante), e a bela e fantástica Juliete Binoche (A Liberdade é Azul). Além destes, há ainda aqueles já de meia idade que finalmente figuram como astros, a exemplo de Richard Bohringer, pai de Romina (que já atuou em diversos filmes como O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante), Isabella Hupper (Madame Bovary), Jean Rochefort (O Marido da Cabeleireira) e Michel Blanc (Um homem meio Esquisito).
E temos também os grandes astros como Gerard Depardieu, considerado pela revista francesa Premiére como o melhor ator do mundo atualmente, Alain Delon (O Leopardo), além das sensacionais Isabella Adjani (A História de Adele H.) e Catherine Deneuve (A bela da tarde) ainda no topo do sucesso, renovando-se sempre a cada filme que faz.
Só mais um último detalhe: diretores que chateavam o público durante a década de 60, fazendo filmes pretensiosos, hoje, estão fazendo longas mais coerentes e consistentes. Claude Chabrol dirigiu o bom Um assunto de Mulheres; Claude Sautet, o fantástico Um coração no Inverno; Louis Malle, sempre correto, fez sucesso com o seu Perdas e Danos. Somente Goddard continua fechado em si mesmo, e no movimento, porém, sem atrair mais o seu público. O Novo Cinema Francês liquidou com o antigo pretenso charme em prol dum charme deveras atraente.
(In Suplemento Cultural Vagalume, Sioge, São Luís-MA, maio/junho de 1994)
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