Data de Publicação: 30 de novembro de 2005

A festa junina, onde o ateu e o religioso dão-se as mãos para pular fogueira, talvez seja a mais comovente manifestação da cultura brasileira. Mas ninguém imagina os percalços sofridos pelo principal homenageado:
São João, nascido em Judá, no dia 24 de junho, seis meses antes de Jesus, de quem seria primo.
Filho do sacerdote Zacarias e de Isabel, mulher de idade e estéril, incapaz de procriar, o que no mundo judeu era considerado uma fatalidade, um castigo. Eis que o anjo Gabriel surge para Zacarias no templo de Jerusalém e anuncia que sua esposa teria um filho, que deveria ser chamado João – nome que significa “Deus teve compaixão”.
Pelo fato de serem um casal de velhos, Zacarias duvidou do anjo, que antecipou-lhe: ficaria surdo e mudo até que o parto se desse. Grávida, já no sexto mês, Isabel recebe a visita de sua prima Maria, ocasião em que a criança pula em sua a barriga ao ouvir a saudação da Virgem.
Segundo o Evangelho de S. Lucas, ali Maria já levava em seu seio o Salvador, razão pela qual Isabel, ao sentir João exultar em suas entranhas, diz-lhe: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre. E donde vem a mim esta dita, que venha visitar-me a Mãe do meu Senhor?”
NA BANDEJA Concebido no Pecado Original, São João foi purificado pela visita da Virgem, sendo o único santo, cujo nascimento é comemorado na Liturgia. Foi chamado “Batista” por adotar o batismo como ato de purificação e considerado o
Precursor por ter pregado antes de Cristo e tê-lo anunciado.
São João Batista viveu algum tempo recluso, em um deserto da Judéia, e iniciou suas pregações religiosas às margens do rio Jordão, anunciando o Messias, por volta do ano 15, do imperador Tibério. Mas seu inferno astral começa e termina no tempo de Herodes Antipas, quando denuncia a vida imoral do rei e de sua mulher Herodíade.
Certo dia, Salomé, filha de Herodíade, dançou para Herodes, que, já embriagado, prometeu dar-lhe o que quisesse. Orientada pela mãe, Salomé pediu-lhe a cabeça do profeta. Preso na fortaleza de Maquerunte, João Batista foi ali decapitado, em 29 de agosto do ano de 31, e a sua cabeça servida numa bandeja para a moça.
FOGUEIRA SANTAConta a lenda que Maria teria combinado com Isabel um sinal para saber do nascimento de João. Dito e feito. Quando o menino nasceu, Isabel mandou erguer um mastro com um boneco e acender uma fogueira no alto de um morro. Daí resultaria a tradição das fogueiras juninas.
O nascimento de São João coincide com o solstício de verão no Hemisfério Norte, período em que, desde tempos remotos, camponeses de toda Europa festejavam, acendendo fogueiras às vésperas das colheitas. Dançavam ao redor do fogo e pulavam sobre as chamas, que serviam para afastar os demônios da fome, as estiagens, as pragas etc.
Essa tradição chegou ao Brasil e a outros países latino-americanos com a colonização européia, sendo que, nesse caso, os festejos coincidem com o
solstício de inverno, quando as noites são mais longas. Até hoje é tradição juntar-se lenha para as fogueiras, junto às quais nascem compadrios e se realizam até casamentos, enquanto se vão assando a batata-doce, o milho e a piaba.
INCLUSÃO SOCIALEste ano, somente para a programação junina do governo do Estado, foram desembolsados 6 milhões de reais. Num Estado com 63,72% da população abaixo da linha de pobreza, a festa pode apresentar um desperdício, caso, ao mesmo tempo, não se tenha pensado em geração de renda, frentes de trabalho e capacitação dentro da área.
Por sua vez, a Fundação Cultural do Município gastou cerca de 1 milhão e 200 mil reais, mas investiu na readaptação de espaços culturais, como a galeria Telésforo Moraes Rêgo e a Biblioteca José Sarney, do Bairro de Fátima, que serão reinauguradas em julho.
O Coordenador de Eventos da FUNC, João Pedro Borges, que reúne no nome dois santos de fé, aponta a necessidade de se observar o lado social das
festas de época, buscando estimular a economia de forma descentralizada, mas não ficando apenas no devaneio folclórico. Para ele é a diversidade que dará o tom das mudanças.
“Deve-se buscar a transformação pela inclusão, ampliar conceitos, preparar infra-estrutura para um mercado de trabalho e o incentivo ao consumo. É papel do Estado criar tais condições, junto com a iniciativa privada, empresas que contribuam para resgatar essa dívida social com o Brasil e o Maranhão”, resume Borges.
ACORDAR O SANTO?Mesmo com todo o fuzuê da festa, São João costuma dormir no seu dia, em meio às matracas, aos traques, aos foguetes, rojões e fogos de artifício, sem falar nos gritos das bananeiras esfaqueadas por moças casadoiras com suas bacias de adivinhação.
Considerado distraído e dorminhoco, até hoje não teve de volta o boi que emprestou a São Marçal, que o emprestou a São Pedro... É hora de acordar São João, apesar do risco de o mundo pegar fogo, se ele descer do Céu e se encantar com a pândega, como reza a tradição.
Assim como Zacarias, que recuperou a fala e a audição quando o menino nasceu, Batista tem que ser o precursor do seu povo. Não deve beber quentão em excesso, para não “dançar”, se outra Salomé aparecer em sua frente no papel de coreira, dando umbigada, em festa de PH.
Por isso, na Capela que João Maria Vianney construiu em sua honra, está escrito: “Sua Cabeça Foi o Preço de Uma Dança”. Não custa tentar:
Acorda, João!
Acorda, João!
João está dormindo,
não acorda não!- Texto Anterior:
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