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Os tortuosos caminhos do desejo
Cravo Bem Temperado
Crítico indignado
OSWALDINO MARQUES: A sabedoria que clama do exílio
Editorial

Edição 57

Os tortuosos caminhos do desejo

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Data de Publicação: 30 de novembro de 2005
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Por: Vicente de Paula M.C.F. Júnior

Luis Buñuel
Luis Buñuel
Neste mês de julho, faz 20 anos que o cinema mundial sofreu uma perda irreparável. Morria o grande mestre Luis Buñuel, cuja obra revolucionária é trespassada pelo caráter irreal, onírico, pelo tom irônico, e pelas nuances do desejo e da obsessão. O encontro de Buñuel com o grupo surrealista, quando de sua estada na França, direcionaria, não somente sua carreira, mas também sua vida. Os surrealistas lutavam contra uma sociedade que detestavam, sua única arma era a arte. Através de suas agressivas obras, almejavam, antes de qualquer coisa, proporcionar o escândalo, negando os valores aceitos, substituindo-os por uma exaltação da paixão, do ócio, do humor negro, livre de quaisquer regras, ou instituições, que norteassem a sociedade.

Buñuel, grande responsável pela divulgação do movimento surrealista na tela grande, sua primeira e escandalosa obra foi Um Cão Andaluz (1929). O roteiro foi escrito em parceria com o artista plástico, também espanhol, Salvador Dali, e surgiu inspirado em sonhos dos dois artistas. O resultado foi um filme desprovido de uma seqüência lógica, de absoluto domínio do irreal, onde o próprio Buñuel aparece na tela com uma navalha, dilacerando o olho de uma mulher. Também se pode ver, nesse curta-metragem, uma mão coberta de formigas, cavalos mortos sobre um piano, dentre outras cenas absurdas. Daí em diante, o cinema nunca mais foi o mesmo, pois estava a serviço do desejo, das obsessões e das paixões, e pronto para influenciar as gerações vindouras dos Almodóvar e dos Bigas Luna.

Buñuel tornou-se mais conhecido do grande público, através de seus filmes franceses, dentre os quais podemos destacar: A bela da tarde, Via Láctea, Tristana, O Fantasma da Liberdade, O Discreto Charme da Burguesia, e por fim Esse Obscuro Objeto do Desejo. Os temas recorrentes de sua cinematografia transitam pelas perversões sexuais, ácidas críticas às instituições, como a igreja e a família, bem como aos valores burgueses: trabalho, fidelidade, caridade. Tudo isso de uma maneira poética, com imagens poderosas e perturbadoras, sempre envoltas numa atmosfera onírica, capaz de arrebatar o espectador a cada minuto. Porém, a grandeza e a força de sua obra podem ser melhor visualizadas nos filmes de sua fase mexicana (1946-1961), como: Os Esquecidos, O Anjo exterminador, Nazarín, geralmente colocados em segundo plano em relação aos filmes de sua fase francesa. Buñuel já havia afirmado não gostar da América Latina e sempre dizia aos amigos: “Se algum dia desaparecer, procurem-me em qualquer parte do mundo, exceto lá.” Mesmo assim, os tortuosos caminhos do desejo o conduziram à Cidade do México, onde, exilado, radicou-se de 1946 a 1961, de maneira que, em 1949, tornou-se cidadão mexicano. Os filmes rodados nesse período parecem sofrer uma influência da escola neo-realista, por tratarem de problemas sociais, como por exemplo, crianças semi-abandonadas, que vivem marginalizadas nos arredores da Cidade do México. Mas é justamente nesse aspecto que o mestre Buñuel nos mostra sua genialidade, pois acrescenta um toque de surrealismo a filmes que lhe são peculiares.

Em 1962, volta à Espanha para dirigir Viridiana, sua obra-prima, uma celebração da obsessão, onde se pode visualizar a mais ácida crítica à caridade cristã, com destaque para a cena da reconstituição da Santa Ceia, só que no lugar de Jesus e seus apóstolos, Buñuel coloca mendigos sentados à mesa, em um grande banquete profano, e nos mostra que nem todo mundo quer ser amparado.

Sérgio Augusto de Andrade, em um ensaio para a revista Bravo, deste mês de julho, explicita as obsessões do diretor espanhol, abreviando sua obra da seguinte forma: “A obra do diretor começa com um corte e termina com uma explosão.” Referindo-se ao primeiro e ao último filme do diretor espanhol: Um Cão Andaluz e Esse Obscuro Objeto do Desejo, o que imprime uma idéia de linearidade. Acontece que, entre o corte e a explosão, os tortuosos caminhos do desejo o conduziram a um desvio onde está o melhor de sua obra.

A revista ainda chama a atenção para uma série de comemorações que ocorrerão neste mês em São Paulo, incluindo filmes inéditos, exposição de fotografias e palestras que terão como foco a obra do diretor espanhol.

Impossibilitados por limitações geográficas, ou de qualquer outra natureza, resta-nos, habitantes desta Ilha, irmos à locadora e prestarmos tão devida homenagem ao mestre Luis Buñuel. A Versátil Home Vídeo lançou, recentemente, em DVD, o filme da fase mexicana Os Esquecidos. Trata-se de uma raridade. O DVD também traz, nos extras, o curta-metragem Las Hurdes ou Tierra Sin Pan (1932). Estão disponíveis também em VHS outros filmes de Buñuel.

Título: Os Esquecidos



Título Original: Los Olvidados
Direção: Luis Buñuel
Elenco: Alfonso Mejía, Estela Inda, Miguel Inclán, Roberto Cobo, Alma Delia Fuentes, Francisco Jambrina, Jesús Navarro.
Ano de Produção: 1950
Duração: 85 minutos
Cor: Preto e Branco
Tipo de Diálogo: Livre
Formato da Tela: Fullscreen 1.33:1
Gênero: Clássico
Faixa Etária: 14 anos
País de Produção: México
Legenda: Português
Idioma: Espanhol
Áudio: Dolby Digital 2.0
Região: 0 (Multizonal)
Cenas de Sexo/Nudez: Não
Cenas de Violência: Não
Cenas de Racismo: Não
Cenas com Drogas: Não
Código de Barras: 7895233143104
Extras: Final Alternativo, Curta-metragem, Terra sem Pão (1932), Buñuel no México, Galeria de Pôsteres, Biografias, Filmografias, Menus Interativos, Seleção de Cenas.

Sinopse: Apresentado em versão totalmente restaurada e remasterizada, Os Esquecidos é uma impressionante obra-prima do mestre espanhol Luis Buñuel (1900-1983), diretor dos memoráveis A Bela da Tarde, O Discreto Charme da Burguesia, O Anjo Exterminador, entre tantos outros. Cidade do México, anos 50. O adolescente El Jaibo foge do reformatório e volta para uma vida marcada pela miséria e falta de perspectivas. Ao lado de outros garotos, vive de pequenos assaltos até que se envolve num assassinato. O retrato realista do cotidiano dos menores abandonados serviu de inspiração para Hector Babenco realizar o inesquecível Pixote, a Lei do Mais Fraco. Esta edição especial limitada apresenta extras preciosos, como o recém-recuperado final alternativo do filme e o curta-metragem Terra sem Pão (Las Hurdes/ESP/1932)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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