Anuário #02 - São Luís, 2004
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Os tortuosos caminhos do desejo
Cravo Bem Temperado
Crítico indignado
OSWALDINO MARQUES: A sabedoria que clama do exílio
Editorial

Edição 57

Cravo Bem Temperado

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Data de Publicação: 30 de novembro de 2005
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(...)
Que projeto de amor se faça que logo não interfira
O tempo, com seu copo de dados a entornar o imprevisto?
Alvoroçamo-nos às cegas – pássaro alvejado – seguindo as cabriolas
Da sorte irônica pelos gastos degraus da ansiedade.
Ah, rojar-se logo em pranto, ou dar curso à alegria!
Mas riso e lágrima se alternam na face caricata,
As unhas rasgam a carne,
O olhar se furta a encarar o lance: perdido, salvo!
A aresta insere-se entre o infortúnio e o Éden.
Não mais adiar a vertigem – Ao risco! Ao risco!
Os que amam buscam ávidos a consumação no fogo.

Cinde-se o espaço em dois blocos de treva,
Rompe a noite, sem freios, o obus azulado
Que não conduz à lua, sim aos vales da amada.
O vento que afina e desgasta a face,
Este cheiro de vasa, sarcófago de rosas,
Infusão de escamas e canções praieiras,
Esse brando oscilar, embora em terra firme,
Iniciam-se em seu corpo, segredam os seus mistérios

Quando nada se pode fazer para ser belo
E tombamos do céu, salvos de remota catástrofe,
Ainda tontos, na confluência do irresistível e do efêmero,
Nos erguemos a custo e cambaleantes, de rojo,
Vamos transportando o coração para afagá-lo na sombra,
Repreendê-lo, perdoar-lhe por tanto desvario:
O extenuar-se no encalço do anel que da ninfa
Rolou, quando sobre rios e montes,
Fugia à perseguição dos auroques em fúria;
O deixar-se transpassar pelos gládios do êxtase
E, siderado, tentar reter pela fímbria
Da túnica esvoaçante, a sagitária deusa!
Acomodar-se entre os caules do sono,
Entregue à orfandade e ao malefício da lua
Até as águas do charco se instalarem nos ouvidos
E a nuvem de gafanhotos toldar a bela fronte.

Por fim, o encontro, o clarão: Oh, pórticos!
Oh, escadarias galgadas como se arco reteso
Nos desferisse, centrífugos, aos vértices do júbilo!
Ogivas vão-se abrindo empurradas pela luz.
Populações de acordes irrompem sob os pés
– Bosques de órgãos, pinheirais de cânticos.
Dez mil pombos alçam vôo dos violinos!
A voz líquida da avena se permeia e
Dilui entre rajadas de harpas reiterantes.
Por escuras cavernas rolam amotinados
Anjos gladiadores em luta de extermínio.
É o céu? A terra? Zona intermédia?
Berço de sonho e de fábula? Polida lâmina
A transfigurar do real a face, a recriá-la
Mais límpida aos olhos dos amantes?
É o amor! Raiz a captar no degredo do chão
Por frágeis filamentos, a linfa do azul:
Dardo certeiro transfixando o seio:
Quanto mais fere mais imerge em gozo!

A aspiração do amante é afeiçoar
O próprio ser à imagem do que ama:
Entrançar-se em teia tão unida
Que só se pode apartá-la lacerando-a;
Dobrar vigília e sono em um só novelo
Para tecer o linho dos amplexos;
Enredar-se indiviso um no outro
Como a textura da rama nos vinhedos.
Triunfar capitulando;
Cair alçando-se;
Convalescer desenganado;
Viver embriagado em temperança;
Dar-se ao desregramento por dieta.

O corpo tenso se rende à extradição
No enlevo; pelos cílios se filtra
O aroma das coisas; esfumado, assim,
O mundo não ofende em sua nudez.
Mais revela a intuída presença, o halo
Que anuança o objeto, não o cru objeto,
Embora ele a tudo preexista e de sua
Matriz indevassável acione o orbe.
Estavas ao alcance dos lábios? Que sei!
Tínhamos os dedos enredados firmemente.
Existias! Existias! O mito, enfim, revertia
Ao molde. Força era tanger o medo
De que fosses pura invenção do espírito.
Tantas vezes, em delírio, à tua imagem
Estendera os braços, nada cingindo, em troca,
Senão minha alma espedaçada;
Tantas vezes, a recolher pressuroso teus
Reflexos pelas foscas águas da memória,
Tentei em vão reconstituir-te a efígie –
Que me afeiçoara à idéia de que fosses
Lenda perversa, dessas forjadas
Para ludíbrio e desencanto do homem.
(...)



(Marques, Oswaldino. Cravo Bem Temperado, poema. Rio de Janeiro: Edição Revista Branca, 1952. p.11-15.)
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