Data de Publicação: 30 de novembro de 2005

A sabedoria que clama do exílio (ou Um Olhar Genial Que Relê o Legado Estético)
O desfile dos séculos prova que cada época tem um ou vários carrascos das letras.Na Roma dos Césares, o poeta-maior para Nero era o próprio Nero, envolto sob a capa do controle e poder real ilimitado, cujo espírito narcísico se permitia extravagâncias de megalomania ilimitada. Mandou incendiar Roma para, em chamas, celebrá-la em versos ao som da harpa, do cimo do palácio real. Depois, culpou os cristãos. Medíocre, aquele que não o aplaudisse, era condenado à morte. Antônio Feliciano de Castilho, em Portugal, por questão de antipatia à irreverência de jovens escritores da época, prefaciou o livro Poema da Mocidade, de Tomás Ribeiro, poeta-menor, saudando-o como escritor de destaque. Tomás Ribeiro somente passou às futuras gerações, por causa da Questão Coimbrã, como referência comprovada, hoje, pela crítica, de exemplo lapidar de equívoco ou concepção crítica passional, em proveito daqueles que o próprio Castilho detratou, em particular o excelente poeta de Os Cativos, Antero de Quental.
No Maranhão, acabamos de perder um cidadão, cuja vida foi um exemplo do quanto é necessário, para que se chegue à sabedoria, esvaziando-se dos vínculos do controle e poder da hierarquia temporal. Trata-se da morte não anunciada de Oswaldino Ribeiro Marques, que faleceu no dia 13 de maio deste ano, em Brasília, deixando-nos, no entanto, o legado do escritor, poeta, crítico, dramaturgo, ensaísta, professor e tradutor Oswaldino Marques, este outro-ele, imortal, sem o apelativo acadêmico, desnecessário no caso de quem se fez eterno por força da criação literária da obra que produziu. Este escritor, em vida, foi discriminado e marginalizado nas últimas décadas, apesar da realidade comprovar que ele foi, de fato, a maior expressão de cultura literária do século XX e começo do século XXI, no Maranhão. Senão, vejamos:
A obra Panteon Maranhense, de Henriques Leal, é um marco de erudição e intelectualismo. Lendo essa obra-mestra monumental, fundadora do ensaísmo biográfico, no Maranhão, o texto compacto remete à paidéia grega ou ordenação do conhecimento, que possibilita às novas gerações o acesso, o mais rápido possível, ao legado, ou seja, o conhecimento do ponto de vista helênico. Henriques Leal é, portanto, o biógrafo da geração Atenas Brasileira, que se destacou no segundo e terceiro quartel do século XIX, que inclui, dentre outros nomes expressivos, Sotero dos Reis, Gonçalves Dias, João Lisboa e Odorico Mendes.
No início do século XX, Antônio Lôbo, escritor de quem tratamos nas duas edições anteriores, deste Suplemento, desponta como o primeiro teórico e crítico literário, mesmo sem ter tido tal pretensão. No entanto, pretendeu sustentar e fundamentar suas idéias com base em teoria filosófica, em Os Novos Atenienses.
Na década de 40, do século XX, surge definitivamente, no Maranhão, o fundador da análise, da crítica e da teoria literária moderna ou contemporânea, do ponto de vista da fundamentação científica ou do estudo de Literatura Comparada e de Intertextualização: Oswaldino Marques, que é, por esse ângulo, o primeiro representante maranhense da crítica literária da modernidade.
É importante perceber os alcances de um pesquisador, em parte acadêmico, pelos seus conhecimentos de professor universitário e, em parte, secular pela prática de autodidata. Porém, ainda assim, com impressionante carga de fundamentação científica nos campos da Fonética, da Filologia, da Semântica, da Imagética, da Lingüística, da Semiótica, da Semiologia, da Estilística e do corpus das línguas da família neolatina.
Importante ressaltar, homem culto, intelectual de destaque entre os de sua geração nas áreas de crítica e teoria literária e a figura exponencial ou mais expressiva do século XX, no Maranhão, na área de cultura em que se especializou. Além do mais, Oswaldino Marques foi obsessiva e obstinadamente um amante e pesquisador de música clássica erudita, o que é raro, hoje, entre os intelectuais brasileiros, embora não o seja entre os da Europa e dos Estados Unidos da América do Norte. Diga-se mais, entre os grandes mestres maranhenses de todos os tempos, foi ele quem, com maior sapiência, ilustrou as universidades não só do Brasil, mas do Exterior, chegando a, em Wisconsin, EUA, merecer o título máximo na carreira de magistério. Portanto, um sábio que, no Maranhão, mais que ninguém, em sua época, poderia ter sido reconhecido e homenageado, em vida, pelo controle e poder temporal, o Governo, e celebrado pelas Universidades e Instituições Culturais. Por que, no entanto, o aparentemente inexplicável silêncio em torno da trajetória cultural de personalidade tão marcante, de abrangência e repercussão nacional e internacional como poucos? Deixamos a pergunta no ar para o bom entendedor dos cenáculos culturais desta Cidade-Ilha provinciana até demais, onde as opções são selecionadas ainda na calada da noite, à base de cochichos de maquinações sub-reptícias entre pares de panelinhas e igrejinhas.
Oswaldino Marques, no entanto, passou ao largo de tudo isso, pois começou por onde poucos encerram a carreira. Já na década de 50, traz a lume um texto sobre a prosa de Guimarães Rosa, Canto e Plumagem das Palavras, que constitui um capítulo do livro A Seta e o Alvo (Análise Estrutural de Textos e Crítica Literária), MEC/INL, Rio de Janeiro, 1957, passando, a partir daí, à análise de textos de escritores não menos importantes do que Cecília Meireles, Cassiano Ricardo, Murilo Araújo, Mário da Silva Brito, Gonçalves Dias, etc.
Oswaldino Marques estabeleceu a delimitação dos campos de estudo da metáfora, as matrizes estruturais do verso moderno, os traços diferenciais da poesia moderna, o controle remoto do poema, a problemática da ficção contemporânea, da semântica e da semiologia. Traduziu poetas de língua inglesa em Videntes e Sonâmbulos, antologia bilíngüe da poesia norte-americana, 1955 e Poemas Famosos da Língua Inglesa, 1956; Cantos de Walt Whitman, 1946, Aventuras de Mark Twain,1946; As Núpcias do Céu e do Inferno, de William Blake, 1956; Poesia dos Estados Unidos e Quatro Quartetos, de T.S. Eliot, 1966.
Irreverente, polêmico, irônico, satírico, o típico homem de Letras (que faz falta em qualquer capital, como São Luís) desses que desmistificam e desmitificam os equívocos literários muito comuns, para os quais os conhecimentos de teoria e crítica literária são ainda incipientes. Só a título de exemplo, vale lembrar que Oswaldino Marques criticou e problematizou o prestígio literário de escritores como Gonçalves Dias, Carlos Drummond de Andrade e Josué Montello. Mas o ideal é retornarmos a 1946, quando da publicação de Poemas quase dissolutos, Sinto que sou uma Cidade, de 1947, e Cravo bem temperado, de 1952, do qual extraímos texto para ilustrar esta edição. Nesta fase inicial, a obra literária de Oswaldino Marques desponta com todo vigor poético de quem sabe a que veio. Embora sob a influência de T.S.Eliot, o poema Cravo bem temperado tem todas as características de um texto divisor de águas. Sem dúvida, nesse momento tem início a grande poesia moderna maranhense que desaguará com outros nomes, também expressivos, como Manuel Caetano Bandeira de Melo, Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzi, Nauro Machado e José Chagas.
Biografia de Oswaldino MarquesOswaldino Marques é o nome literário de Oswaldino Ribeiro Marques, que nasceu em São Luís, capital do Maranhão, em 17 de outubro de 1916. Filho de Eleutério Marques e Ana Ribeiro Marques. A mãe era neta de portugueses e o pai um típico caboclo nordestino. Aprendeu a ler em casa com a própria mãe e, aos quatro anos de idade, freqüentou uma escola, cujo diretor era um ex-padre, Cardoso. Estudou em escola pública e, ao concluir o quinto ano primário, seu pai alterou-lhe a idade para matriculá-lo no Liceu Maranhense. Certo dia, veio a saber que o filho, havia quase um mês, não assistia às aulas. O futuro poeta Oswaldino Marques, saturado dos livros, deixara o colégio e dedicara-se ao futebol. Paradoxalmente, sua estréia jornalística foi marcada pela publicação de um artigo sobre futebol. Por falta de recursos financeiros, tornou-se autodidata. Passou a freqüentar uma roda de intelectuais, composta por Amorim Parga, Sebastião Correia, Manuel Caetano Bandeira de Melo, Franklin de Oliveira e alguns outros. Com esse grupo, fundou o Cenáculo Graça Aranha, agitando o ambiente literário artístico de São Luís, com uma Semana de Arte Moderna. Começou a escrever artigos e poemas, poucos dos quais vieram a lume. Atraído pela matemática, resolveu transferir-se para o Rio de Janeiro, onde estudaria engenharia. (Dados colhidos de artigo publicado no Correio Brasiliense, 24/01/1970).
Oriundo de família simples, percorreu caminhos difíceis para manter viva sua vocação criadora. Após concluir os estudos primários em sua terra natal, em 1937, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Em 1939, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade do Brasil, que logo abandonou. Fez-se tradutor de francês e castelhano na revista Pan. Passou a interessar-se por música, pintura e teatro. Esse período é marcado pelas suas primeiras incursões no campo da crítica. Publicou seu primeiro artigo literário no Boletim da Casa do Estudante. Foi um dos fundadores da UNE (União Nacional dos Estudantes). Entregou-se ao estudo de Língua Inglesa, tornando-se o primeiro tradutor brasileiro de Walt Whitman. Cecília Meireles dedicou-lhe, nessa ocasião, a Página do Autor Novo, que ela dirigia, no Suplemento Letras e Artes, do Jornal A Manhã. Em 1946, a Editora José Olímpio publicou o seu livro Poemas Quase Dissolutos, e a tradução dos Cantos de Walt Whitman, com prefácio de Aníbal Machado. Tendo desistido da Engenharia, ingressou na Faculdade de Direito, mas para satisfazer ao pai, que desejava que ele fosse o primeiro doutor da família. Firmando-se como escritor, manteve a sua produção num ritmo ininterrupto, escrevendo ensaio, teatro, poesia e traduzindo os mais importantes poetas da Língua Inglesa. Mas, sua maior paixão foi a música à qual dedicou toda a sua existência como pesquisador anônimo do universo clássico erudito de todas as pátrias.
Na área burocrática, foi redator do Serviço Público e professor de Inglês do DASP. Foi bibliotecário da Biblioteca Nacional. Professor de Literatura Dramática Inglesa, desempenhou as funções de Chefe do Setor de Relações Culturais do Instituto Nacional do Livro, em Brasília. Foi chefe do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de Brasília, professor do Centro de Pesquisas Educacionais. Lente convidado por várias Universidades do país, Oswaldino Marques não pertence a qualquer academia literária, ou de qualquer tipo que seja, e tem como ponto de honra jamais “cometer a fraqueza ou expor-se ao ridículo de envergar um fardão acadêmico.” Abomina, igualmente, toda espécie de comenda ou condecoração.
Tendo viajado em 1970 para os Estados Unidos da América do Norte, a fim de cumprir um contrato de um ano com a Universidade de Wisconsin, em Madison, o qual reformou por quatro anos, tendo, como professor de Literatura Brasileira e Portuguesa, atingido o mais elevado patamar da carreira de professor universitário, naquele país, membro do senior staff, o que corresponde, na Universidade brasileira, ao título de professor vitalício.
Oswaldino Ribeiro Marques faleceu em Brasília-DF, no dia 13 de maio do ano em curso, às 13:h30. Mas o poeta Oswaldino Marques continua a trajetória que iniciou naquele dia em que o seu caminho se cruzou com a poeta Cecília Meireles, em 1943. Torna-se preciso, então, que a intelectualidade maranhense resgate a obra de uma das mais lúcidas inteligências maranhense e brasileira, no domínio do conhecimento da teoria e da crítica literária no Brasil, como poeta, dramaturgo, crítico, ensaísta, tradutor e professor catedrático.
POEMA DOS OITENT’ANOS
Oswaldino MarquesQuando te enfastiares de olhar para o alto,
Olha também um pouco para baixo.
É preciso conhecer o chão lá o seu tanto
– O chão que te reabsorverá em breve.
(Tal não é nenhum ardil para enxertares
De fininho Deus entre ambos os pólos,
Mas apenas convencer-te de que podes
Conviver muito bem com as duas setas.)
Ao contrário da agulha da bússola que aponta só para o norte,
Apontas nas duas direções – e é bom que assim seja.
Espanca qualquer medo – isto é, sem dúvida,
Invenção de um mundo perversamente errado.
Quando chegar o dia do inapelável termo
Até mesmo o desenlace será acolhido em paz.
Céu não existe – tudo são degraus para o deslumbramento,
Tudo alcançará seu esplendor bem aqui no chão,
Bem assentado, bem plantado no chão deste globo,
Deste globo em cósmico – difícil – equilíbrio.
Obras de Cultura Literária de Oswaldino MarquesPOESIA• Poemas quase dissolutos. Livraria José Olympio Editora. Rio de Janeiro, RJ, 1946.
• Sinto que sou uma cidade. Revista Literatura, nº 5. Rio de Janeiro, RJ,1947.
• Cravo bem temperado. Revista Branca Editora. Rio de Janeiro, RJ, 1952.
• Usina do sonho. Livro de Portugal, S.A. Editora. Rio de Janeiro, RJ, 1954.
TRADUÇÕES• Cantos de Walt Whitman. Livraria José Olympio Editora. Coleção Rubayat. Rio de Janeiro, RJ, 1946.
• Aventuras de Mark Twain. Livraria José Olympio Editora. Rio de Janeiro, RJ, 1946.
• Videntes e Sonâmbulos – (Antologia bilíngüe da poesia norte-americana) – Compilação, tradução parcial e notas de O.M. – Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura. Rio de Janeiro, 1955.
• A sombra do desfiladeiro – Drama em um ato, de J.M. Synge. – In Revista de Dionysos, nº 5. Rio de Janeiro, 1955.
• Poemas famosos da Língua Inglesa – (Antologia bilíngüe da poesia inglesa e norte-americana) – Compilação, tradução integral e notas de O. M. – Editora Civilização Brasileira S.A., Coleção Obras Imortais, 1956. – 2a. edição fac-similada. Edições de Ouro. Rio de Janeiro, 1968.
• As Núpcias do Céu e do Inferno, de William Blake. Traduções e notas de O.M. Edição bilíngüe feita em prelo manual, com reproduções de gravuras do próprio Blake. Editora Civilização Brasileira S.A., Coleção Maldoror. Rio de Janeiro, 1956.
• Poesia dos Estados Unidos – Reedição fac-similada de Videntes e Sonâmbulos. Edições de Ouro. Rio de Janeiro, 1966.
• Quatro Quartetos, de T.S. Eliot. – Editora Delta S.A., Coleção Nobel. Rio de Janeiro, 1966
ENSAIO• O Poliedro e a Rosa – (Estética Literária) – Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura, Coleção Cadernos de Cultura. Rio de Janeiro, RJ, 1952.
• Teoria da Metáfora & Renascença da Poesia Americana. Livraria São José Editora. Rio de Janeiro, RJ, 1956.
• A seta e o alvo – (Análise estrutural de textos e crítica literária). Instituto Nacional do Livro/Biblioteca de Divulgação Cultural. Rio de Janeiro, RJ, 1957.
• O Laboratório Poético de Cassiano Ricardo. Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro, RJ, 1962.
• Ensaios Escolhidos – (Teoria e Crítica literárias) – Editora Civilização Brasileira S.A. Rio de Janeiro, RJ, 1968.
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