Data de Publicação: 30 de novembro de 2005

Organizada há dois anos pelo PAD (Processo de Articulação e Diálogo das Agências Ecumênicas e das Entidades Parceiras no Brasil), a exposição de fotografias “Direitos Humanos no Brasil e na Europa: Perspectiva de Atuação num Contexto de Violações e Conquistas” percorreu vários estados brasileiros, a partir de São Paulo, e agora chega a São Luís, trazida pela Sociedade Maranhense de Direitos Humanos.
Participam também como convidados o EKOS (Instituto para a Justiça e Eqüidade), o MST, o Centro de Defesa Pe. Marcos Passerini, o Fórum Carajás, o Centro de Cultura Negra do Maranhão e o Conselho Pastoral da Terra.
Nazilda Aires, integrante do Conselho Diretor da SMDH, explica que a exposição, inaugurada dia 23 de setembro no SESC/Deodoro, “busca sensibilizar a comunidade para o problema da violação aos direitos humanos, sobretudo neste período de transição política no Brasil e diante das recentes tragédias mundiais”.
DENÚNCIASAlém de evidenciar a importância do tema, o PAD divulga, através da fotografia, situações emblemáticas de violação aos direitos humanos no Brasil e na Europa, “ressaltando ainda a importante atuação das entidades da sociedade civil a partir de sua indignação frente a essas situações”, conforme folder distribuído pelos organizadores.
Por didática, a exposição divide-se em três blocos: “Direitos Econômicos, Sociais e Culturais” – trabalho, alimentação, terra, moradia, cultura e meio-ambiente; “A Luta pela Não-Discriminação no Brasil e na Europa” – direitos dos indígenas, da infância e da juventude, dos migrantes, da mulher e da população negra; “Marcas da Repressão e Violência na Luta pelos Direitos Humanos no Brasil e na Europa”.
São bóias-frias em condições sub-humanas nas carvoarias de Minas Gerais, crianças trabalhando no corte do sisal, na Bahia, caixões com lavradores assassinados no Pará, mas também minorias negras, reprimidas pela polícia em Brixton (Inglaterra), a distribuição de sopa aos pobres em Berlim e a cena insólita de alcoólatras sem-teto na Holanda.
A OLHO NUAs imagens dizem tudo. São testemunhos de como o capitalismo, recheado pela maionese da globalização, reproduz a miséria por auto-inseminação. Já, não apenas o retrato envergonhado da Índia ou do sertão brasileiro, mas também a ostensiva fatia do desemprego, na Alemanha, a falta de moradia na Holanda ou a situação de penúria de crianças andarilhas na Inglaterra, entre outras denúncias.
Ou seja: a ferida no olho do paradigma neoliberal, coçada pelas suas próprias garras, em preto-e-branco e a cores. Num mundo de catástrofes sociais, atentados terroristas, inundações, guerras fabricadas, secas e epidemias, os antigos países colonialistas da Europa estão em apuros, com o agravamento da violação dos direitos humanos dentro de suas fronteiras.
Mas a exposição não mostra só a paralisia cinzenta. A negação da cidadania no Velho Mundo e no Brasil tem como antítese o avanço das conquistas alcançadas pelas classes excluídas. A cor se revela, por exemplo, na descontração de crianças Waiãpi numa escola indígena do Amapá, ou na força dos quilombolas, que dançam tambor-de-crioula em Frechal e desafiam a Base Espacial em Alcântara (MA).
FOME GLOBALNão que as fotografias passem despercebidas artisticamente, prenhes de virtude estética, mas nelas impressiona o realismo protagonizado por criaturas minadas de incerteza, medo e solidão, que também esbanjam audácia e esperança. No limiar da foto-reportagem e da obra-quase-prima, o mérito vai para essa arte maior que é a luta pela vida.
Com a internacionalização da miséria social, as ações em defesa dos direitos humanos também se globalizam. Hoje, a Nigéria e o Estado do Maranhão já não detêm o monopólio da fome. Uma foto de 1994 mostra, em Hamburgo (Alemanha), um homem procurando restos de comida no lixo.
A decadência precoce do supermercado neoliberal, que faz burocratas como Busch e Blair sujarem as calças, foi preconizada após a queda do muro de Berlim, numa foto em que a população do Oeste saúda a chegada de ex-habitantes do Leste com a faixa: “Seja bem-vindo à liberdade que não há no capitalismo”.
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