Data de Publicação: 30 de novembro de 2005
WESCLEY BRITO: O ESPETÁCULO DA VIDABiografiaWescley Brito é o nome literário de Wescley Brito da Silva, que nasceu em Pedreiras, Maranhão, a 14 de novembro de 1981. Filho de Antonio Carlos Nunes da Silva e Ednalva Brito da Silva. Estudou nos Colégios Jardim de Infância Branca de Neve, Centro Educacional Cenecista Corrêa de Araújo, Unidade Integrada Oscar Galvão e Centro de Ensino Médio Olindina Freire, onde concluiu o Ensino Médio. Atualmente, faz o Curso de Filosofia no Instituto de Teologia e Filosofia Brasileiro, ITEFIB.
A partir da conquista do 1º lugar em concurso de poesia realizado pelo Rotary Clube de sua cidade, dedicou-se ao texto poético, pondo em prática suas realizações no campo experimental, através de recitais de poesia. Publicou seu primeiro livro de poemas, Enciclopédia de Sentimentos, em abril de 2001.
Autor de várias peças teatrais, Wescley Brito não só as produz como as apresenta em várias cidades do Maranhão com os componentes do grupo GTEC, do qual é diretor.
Membro da Associação de Poetas e Escritores de Pedreiras (APOESP) e do Movimento Cultural Canja na Terça Pedreirense e Maranhense, através do qual se propõe resgatar os costumes, as crenças e a tradição do povo que lhe deu origem.
Visão CríticaOs textos literários de Wescley Brito apresentam estrutura estrófica que nos fazem lembrar a poesia experimental de alguns poetas provençais. Essa semelhança, conforme veremos adiante, tem por base a métrica, a linguagem barroca, ou seja redundante, perifrástica, às vezes prolixa, a rima persistente e a temática medieval, o amor cortês ou galante e a paixão não correspondida.
Em outras palavras, para que pudéssemos situar melhor o estilo de Wescley e justificar como ele pretende se expressar, tivemos que nos reportar aos poetas medievais ou provençais.
Mantendo a estruturação estrófica do romanceiro popular ou da poesia de cordel, os poemas são bem elaborados. A singularidade está no arremate ou refrão geralmente em dístico, como se um mote paralelístico, criado pelo próprio poeta, como no final de cada estrofe dos poemas principais, O Espetáculo da vida, O Gosto que teu beijo tem, Nas horas de Deus amém, Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho; Oratório, Quando Deus gosta da gente, em tudo nos faz feliz.
Embora o título propositalmente provocante, Quem vai Dar Corda ao Meu Cordel?!, que arremete denotativamente ao desafio ou repente típico das emboladas dos violeiros-cantadores, que improvisam em praça pública e que têm por base uma marcação fixa ou refrão, os textos do livro em questão vão mais além, pois não são fruto de improviso, senão de um projeto, cujo resultado são poemas conscientes e propositalmente bem elaborados, testemunhos de que é possível registrar e resgatar o potencial estético em que se funda a oralidade do cordel tipicamente nordestino, transladado para o viés do ‘eu-lírico’ da poesia oficialmente reconhecida como tal. Esta integração elimina as barreiras, fraturas e fronteiras territoriais, pois os cânones e códigos de construção do poema tradicionalmente clássicos são respeitados ao pé da letra. Vale dizer que hoje os preconceitos entre a dita poesia oficial e a de cordel se encurtaram bastante. Os poemas de Wescley são um testemunho flagrante desta conclusão. Com esta afirmação, não estamos insinuando que a poesia de cordel puro não seja bem elaborada, muito pelo contrário, apenas destacamos que, no cordel autêntico improvisado, o poeta corre o risco de deslizes de ordem morfo-sintáticos.
Não pomos em discussão aqui os poemas do livro, que buscam reproduzir a fonética dos falares caboclos, tentativa quase esgotada por Catulo da Paixão Cearense, nem sempre bem sucedida, dado ser uma técnica difícil. Reproduzir o autêntico é temerário. Corre-se o risco da artificialidade. Patativa do Assaré também tentou o feito. Achamos que em poesia lírica, cuja principal característica é a espontaneidade, tal investida nem sempre resulta em colheita que corresponda ao original em sua autenticidade. Afinal, significar com palavras hábitos de falares tão particularizantes constitui tarefa dificílima. Por esta razão, atemo-nos aos poemas construídos segundo a tradição clássica, dicção que arremete aos textos de alguns poetas provençais, cuja inflexão textual converge para conquistas inestimáveis. Tal acervo já foi levantado, em parte, pelo poeta e ensaísta Ezra Pound, no panorama internacional, na obra ABC da Literatura, introduzido, aqui no Brasil, por Augusto de Campos e José Paulo Paes, tradutores da obra em questão. Referimo-nos a poetas excepcionais, antecipadores da linguagem e da estrutura da poesia moderna, dentre eles, Guillaume de Poictiers (1071-1127); Bertran de Born (1140-1210); Bernard de Ventadour (1148-1195); Arnaut Daniel (1180-1210) e Guido Cavalcanti (1259-1300). Na obra Invenção, Augusto de Campos nos apresenta mais um excelente poeta provençal que, também, poderá ser fonte indispensável de referência para o jovem poeta Wescley Brito, Raimbaut D’Aurenga.
O que Wescley Brito utiliza do cordel são alguns elementos que ele pretende resgatar, como a métrica, a estrutura estrófica, o clima do improviso, a linguagem melódica e o gancho do estribilho, mote ou refrão para simular um correspondente para o desafio ou embolada, no caso em questão. Para ser cordel, falta, portanto, a estrutura narrativa, romanesca, o herói ou protagonista e a tragédia ou a glória; os lances picarescos ou burlescos, o clima de peleja, elementos pelos quais o poeta não optou por explorar, mesmo porque não quis ter a pretensão de disputar com os mestres do cordel, muito pelo contrário, Wescley Brito os homenageia não como intérprete do populário histórico sobre o amor, a vida e a morte, senão como poeta que se manifesta através da poesia lírica. O poema com que o distinguimos é O Espetáculo da Vida, com o qual, achamos, começa o itinerário quiçá renovador deste poeta.
Do confinamento e insulamento, uma voz se faz ouvir como porta-voz de outras vozes que por ela se farão ouvir, quebrando o silêncio de um exílio marcado pelas barreiras e fronteiras impostas pelo controle e poder político que, consuetudinariamente, mantém a província longe da metrópole. Mas os caminhos e as picadas vão sendo abertos e por eles se abrem novos caminhos, para novas conquistas e possibilidades. Sob o signo e inspiração do cordel brasileiro, já nasceram obras como, dentre outras, Sagarana e Grande Sertão:Veredas, de Guimarães Rosa; Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado; Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto; Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles e Os Peões, de Gerardo Melo Mourão. Wescley Brito poderá vir a fazer parte dessa galeria, talento e inspiração não lhe faltam.
Quem vai Dar Corda ao Meu CordelSeu moço, a vida apresenta
Um grande e lindo espetáculo,
E, entre cada obstáculo,
A gente chora, lamenta,
Mas ao deixar a placenta,
As cortinas estão abertas,
A platéia está em alerta,
Quer ver a cena exibida.
Não tropece e nem caia,
Que é pra você não levar vaia
No espetáculo da vida.
Que entre em cena o destino:
Personagem misterioso,
Traiçoeiro, perigoso,
Sujeito de trato fino,
Cabra ruim que eu abomino
Pelos sustos que ele prega
Por sua maneira cega,
Que a todos nós intimida.
Cuidado com sua tocaia,
Que é pra você não levar vaia
No espetáculo da vida.
Quem seduz é a felicidade:
Donzela bem recatada,
Por todos é cobiçada,
E para tê-la nunca é tarde,
Respeite-a, não faça alarde,
Pois sua beleza ilude,
Não mude sua atitude,
Se ela aparecer despida,
Lhe mande vestir uma saia,
Que é pra você não levar vaia
No espetáculo da vida.
A verdade e a mentira:
Duas irmãs em pé de guerra,
Que rondam o planeta terra,
Provocando o medo, a ira,
E quem o mal admira
Faz errado, mente, furta,
Mentira tem perna curta,
A verdade é pra ser seguida
E do seu caminho não saia,
Que é pra você não levar vaia
No espetáculo da vida.
O Amor é um poço profundo,
Quem bebe sua água peca,
Ele sacia todo mundo
E mesmo assim nunca seca.
O ódio já está careca
De saber que é odiado,
Mas se recusa a ser amado.
Que sentimento suicida,
Não seja da sua laia,
Que é pra você não levar vaia
No espetáculo da vida.
E, assim, vários fatores
Constroem a vida do homem,
A força, a fé e a fome
São excelentes atores.
A vida tem suas dores,
Mas também tem sua glória
E aqui termino esta história
Que só será aplaudida,
Porque antes a gente ensaia,
Que é pra poder não levar vaia
No espetáculo da vida.
(p.11-13)A TRADIÇÃO DA GENIAL POESIA PROVEÇAL
BERNARD DE VENTADOUR (1148-1195)Ah! Tanto Julguei Saber
Ah! tanto julguei saber
De amor e menos que supus
Sei, pois amar não me faz ter
Essa a que nunca farei jus.
A mim de mim e a si também
De mim e tudo o que desejo
Tomou e só deixou querer
Maior e um coração sobejo.
Eu renunciei a me reger
Desde o dia em que os olhos pus
No olhar que vi transparecer
No belo espelho em que reluz.
Espelho, pois que te vi bem,
Morri na luz do teu reflexo
Como, perdido de se ver,
Narciso no seu próprio amplexo.
Bem feminino é o proceder
Dessa que me roubou a paz.
Não quer o que deve querer
E tudo o que não deve faz.
Má sorte enfim me sobrevém,
Fiz como um louco numa ponte,
E tudo me foi suceder
Só porque quis mais horizonte.
Piedade já não pode haver
No universo para os mortais.
Se aquela que a devia ter
Não tem, quem a terá jamais?
Ah! como acreditar que alguém
De olhar tão doce e clara fronte
Deixe que eu morra sem beber
Água de amor na sua fonte?RAIMBAUT D’AURENGAPois tal saber
Pois tal saber há em mim que creio
Saber trovar – e assim o digo –
Mal ficará se paro ao meio
E o mal dirão se eu não prossigo;
Quem quer usar sua língua
Deve saber o que impinja,
Nem pode haver falha pior
Que a fala falaz que finja.
A dama que amo e mais anseio
Já me traiu como inimigo;
Por esse amor, que não tem freio,
Eu trago em mim o meu castigo.
Mas não me apraz de sua língua
Ouvir o que me constringe a
Temer que algum bajulador
Ganhe cor e me destinja(Pound, Ezra. ABC da Literatura. Tradução de Augusto de Campos. São Paulo: Ed. Cultrix, 1984.)- Próximo texto:
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