Anuário #02 - São Luís, 2004
Busca 



 


Longe do Paraíso é bom cinema dos anos 40
Chico da Ladeira: Memórias de Um embaixador
Um Beliscão no Umbigo da Tropa de Elite de Clandestinos e Mal/ditos
Editorial

Edição 69

Um Beliscão no Umbigo da Tropa de Elite de Clandestinos e Mal/ditos

Diminuir corpo de texto Aumentar corpo de texto

Data de Publicação: 30 de novembro de 2005
Índice Texto Anterior Próximo Texto 
Por: FERNANDO ABREU:

Visão Crítica


A poesia urbana contemporânea é conseqüência de uma mescla de experiências ou experimentalismos e tem como referências as obras antecipadoras e fundadoras dessa ânsia de mudança ou renascimento, tipo avant-garde (vanguarda ou a tropa dos eleitos ou assinalados mal/ditos) que, já no final do século XIX e início do século XX, começava a incomodar a crítica e a chatear os medalhões das literaturas oficiais, tanto na Europa, nos Estados Unidos, quanto no Brasil.

A literatura nonsense ou aparentemente sem sentido, mas que detém um profundo e eloqüente discurso poético, começa em Sousândrade (Inferno de Wall Street e Tatuturema), passa por Lewis Carroll (Jabberwocky, ‘Jaguardarte’ e Caça ao Turpente), pelo cosmopolitismo da poesia e prosa poética de Oswald de Andrade (Obras Completas) e James Joyce (Ulisses e Finnegans Wake), a poesia de Dylan Thomas e E.E.Cummings e a música de John Cage; até desaguar na poesia de batida supersônica, a beat, dos Beatles e Bob Dylan. Ingressamos aqui no território dos poetas youpies (modernos, diferentes, espalhafatosos) e do hippies (liberados), cuja síntese seria aquela poesia tipo algo que ainda não era popular e estava fora de moda social, como calças e blusas jeans desbotadas, sandálias de couro cru ou pés descalços e cabelos longos, soltos ao vento e à liberdade de ir-e-vir, sem convenções, lenço ou documentos, em busca da liberação dos prazeres e drogas, aparentando alheamento total da realidade circundante, ou querendo apenas fugir ao lugar comum.

Poesia até então marginal, alternativa, não muito popular, passageira na clandestinidade, ou underground, de onde vieram Jack Kerouac, Allan Ginsberg, William Carlos Williams e Waly Salomão, dentre outros, que foram criando essa mescla experimental, em relação à oficial ou engajada.

Fernando Abreu é uma conseqüência dessa poesia urbana, hoje comprometida com a linguagem de todas as tribos, dos shoppings centers, da televisão e da internet. Reflete os costumes e a filosofia contraditória contemporânea, que funde Oriente e Ocidente; yn e yang; transcendental e cartesiano; yoga, meditação zen e violência, assalto, seqüestros, criminalidade; linguagem castiça e a linguagem das ruas com seus calões, jargões, gírias.

Diríamos que ele, basicamente, se exercita em três tipos ou arquétipos de poemas.

Na base, estão os poemas curtos, que se caracterizam pela mensagem-relâmpago, tipo estalo, sacação, insights. O poeta lê antigas verdades por outros ângulos. Essa proposta visa surpreender e desarmar o leitor pelo deslance do inesperado. Tal armadilha pressupõe sutileza, discrição. Conferir, em Relatos do Escambau, uma série de poemas dessa natureza, dentre eles, Persona I, p. 50; Kurosawa in the clouds, p. 56; em O Umbigo do Mudo, os poemas Survival, p. 18; Lição de Casa, p. 19; Delírio Autopunitivo, p. 30; Semperflorens, p. 41; SSSSH!, p. 43; Lameilírico, p. 46, dentre outros.

No meio, estão os poemas em que Fernando Abreu demonstra poder trafegar, se quiser, pela via dos poemas de arquitetura métrica. Em outras palavras, avisa aos navegantes da tradição, que vai por outro caminho, a viés ou às avessas, não por inaptidão para aquele, por demais óbvio, mas por não querer trilhar uma senda batida, como diria Maiakovski. A título de exemplo, conferir em O Umbigo do Mudo, os poemas Perdas & Ganhos, p. 24 e Amor que Chega, p. 54.

Na outra extremidade, estão os poemas que fundam, com maior força poética, este ótimo momento de criação literária vivido auspiciosamente pelo poeta Fernando Abreu, que corresponde ao que, no passado, se rotulou de literatura marginal ou clandestina. Poemas desta natureza poderão ser encontrados em Relatos do Escambau. Conferir, para tanto, Oração pela Amnésia, p. 53; Arquíloco na Ribalta, p. 62 e Só por Mim, p. 44.

Em O Umbigo do Mudo conferir os poemas O Umbigo do Mudo, p. 17; A Grande Arte, p. 38; Cataclismo, p. 47; Cavalo, p. 61; Por Trás do Silêncio Branco, p. 62; Mais que Memória, p. 63 e Em Trânsito, p. 64.

Pelos textos desta obra, dialogamos com uma das mais fortes, autênticas e belas vozes da poesia maranhense contemporânea, por ter autenticidade e ser definidora da linguagem poética, que se identifica com os meios de comunicação atuais e se insere no contexto do que, em termos de criação literária, possa ser consignado como novidade.

Oração pela amnésia

talvez
o que me escape
seja o que mais salte
em mim
sabe lá
se o que eu não veja
reze pelos meus cantos
assim seja
portanto
o que me fuja da memória
à revelia
revele minha história
que nem eu saiba mais enfim
se sou eu que ando por aí
em carne osso coração e mente
ou se é meu fantasma demente
rindo de todo mundo
e de mim
(p.53)


Cataclisma

Há uma ausência de pressa
na guerra que em mim se desenrola
A pele que me cobre a carne
também esconde batalhas
que se travam a nível do peito
Em silêncio,
ouço o terremoto a gerar-se
terrível e secreto
Assim prossigo – intraduzível corpo
até que aconteça a paixão
que me redima
ou a explosão que me arremesse
à mais distante estrela
(p.47)


Kurosawa in the clouds

os cavalos atônitos
assistem à morte
de seus donos
(p.56)


Arquíloco na Ribalta

poucas artes domino
a maior delas:
– tornar-me invisível

diga onde estou agora,
você,
que é tão sensível?
(p.62)


Lição de casa

com amargor constato
roeram a roupa
o rei e o rato
(p.19)
Lameilírico
Para Zé Roberto
a sós
somos
sóis
(p.46)


(Abreu, Fernando. O Umbigo do Mudo. São Luís: Clara Editora, 2003.)

Biografia


Fernando Abreu nasceu em São Luís do Maranhão e viveu na cidade de Grajaú até os 13 anos, quando passou a morar na capital do Estado. Tem 38 anos e vive de jornalismo há mais de uma década. Confessa que o jornalista trabalha duro para sustentar o poeta.

Um dos fundadores da Akademia dos Párias, com nomes expressivos como Garrone, Ademar Danilo, Sônia Jansen, Antônio Carlos Alvim, Paulinho Nó Cego, dentre outros, Fernando Abreu incorporou ao seu livro de estréia, Relatos do Escambau, significativa parte dos poemas curtos ou poemas-relâmpagos, estilo hai-kai, que publicou na revista do grupo, denominada Uns & Outros.

Ao se referir ao poeta de Relatos do Escambau, 1998, Zeca Baleiro comenta, Fernando Abreu é um poeta da pesada. Já o era, quando integrava a Akademia dos Párias, grupo que causou certo burburinho estético e etílico nos idos anos 80, e do qual sempre estive próximo. Incluindo poemas daquela época (alguns antológicos!) e outros mais recentes em seu primeiro livro, Fernando mostra persona ao realizar uma poesia concisa, enxuta, com espaço para referências e citações, mas tudo na medida, sem exagero. Sem dúvida.

Segundo o próprio poeta Fernando Abreu, A revista Uns & Outros circulou ao longo de 10 anos, durante os quais foram editados 8 números. Os dois últimos já na fase de dispersão, quando já não havia mais vivência grupal. Porém foram edições melhor elaboradas, mais enxutas. Editei com o grupo Akademia dos Párias a revista de poemas Uns & Outros.

Ligado à canção popular, amante do roots reggae, o poeta tem experiências como compositor musical, inclusive tem parcerias com Chico César, Zeca Baleiro e Chico Nô.

Recentemente lançou, pela Clara Editora, O Umbigo do Mudo, obra poética que impõe ao público e à crítica os encargos decorrentes da avaliação do novo.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Copyright 2005 Jornal Pequeno. Todos os direitos reservados
Email: info@guesaerrante.com.br