Data de Publicação: 30 de novembro de 2005

O programa do apresentador Flávio Cavalcante na TV Excelsior, anos 60, vem à
cabeça para questionar os festejos pelos 390 anos de São Luís, retomando a discussão que ultrapassa um século, desde que o historiador José Ribeiro do Amaral publicou O Estado do Maranhão em 1896, com o aval do governador Belfort Vieira.
Trata-se do mito de que a cidade foi fundada por franceses, ao gosto da elite ludovicense do final do séc. XIX, que, no auge da falência econômica do estado, preservou o orgulho da singularidade cultural, exorcizando o legado lusitano para alimentar a utopia grega da Athenas e apegar-se aos galicismos como forma de sobrevivência.
TE DEUM LAUDAMUSPara a historiadora maranhense Maria de Lourdes Lauande Lacroix, em seu livro A Fundação Francesa de São Luís e seus Mitos (2ª ed. 2002), aquele autor, de tradicional família ludovicense, “elevou La Ravardière à condição de fundador, pelo fato de ter assentado vinte e três peças de artilharia numa eminência que chamou Forte de São Luiz”.
Ribeiro do Amaral lança Fundação do Maranhão em 1912, retomando o tema, desta vez estabelecendo o marco de fundação na última missa celebrada pelos capuchinhos na Ilha Grande, em 8 de setembro, quando, entoando o Te Deum Laudamus com o estandarte dos Bourbon, plantaram uma cruz, benzeram a Ilha e deram tiros de artilharia.
Era uma cerimônia de posse, “usual entre os franceses aportados no Novo Mundo” e não a fundação de uma cidade, que dar-se-ia depois que o governador-geral do Brasil Gaspar de Sousa enviou ao Maranhão o mestiço Jerônimo de Albuquerque, que derrota os franceses na Batalha de Guaxenduba, em novembro de 1614.
Na verdade, a idéia dos invasores era criar a França Equinocial, que se estenderia até o Amazonas, além do que a intenção de Maria de Médici de propagar o catolicismo é interpretada “como uma manobra política da Rainha, visando assegurar sua defesa junto ao Papa (...) caso houvesse protesto do Vaticano contra o esbulho aos portugueses” (Lacroix, op.cit. pp.107 e 108).
Os franceses são expulsos definitivamente em 31 de julho de 1615, e no ano seguinte Jerônimo de Albuquerque “mandou traçar um plano para a cidade, substituiu as casas de palha deixadas pelos invasores por casas de madeira e barro e melhorou o forte”, comenta Maria de Lourdes.
Consolidava-se, assim, a fundação de São Luís, tomando Jerônimo de Albuquerque emprestado o nome do forte, para evitar confusão com a mudança ou porque “se lisonjeava na conservação da mesma memória, segurar melhor as suas recomendações para a posteridade”, conforme Sousa Gaioso no seu Compêndio Histórico-Político dos Princípios da Lavoura do Maranhão (apud Lacroix, op.cit.p.41).
No Almanak do Maranhão de 1849 e nos demais publicados até 1881, existentes na Biblioteca Pública do Estado, não há referências aos franceses como fundadores de São Luís, mas o dia 21 de novembro é ressaltado como o aniversário da reconquista do Maranhão.
Segundo Lacroix, o crescimento econômico de 1850 a 1870 estimulou o luxo, a sofisticação, alterou o comportamento da elite, emergindo uma mentalidade de superioridade da terra e do homem maranhense. Com o declínio, surge a urgência de buscar raízes na França, o mito e a desconfiança de que a história tem fundo falso.
“A criação do mito foi um produto do narcisismo e da vaidade, depois conservado por interesses políticos”, explica.
ELEIÇÕES CULTURAISA propósito, o Prof. Flávio Soares, da UFMA, no prefácio de A Fundação Francesa, cita João Lisboa, que escreve em O Timon: “falsificações fazem com efeito um grande senão o primeiro papel nas nossas eleições; começam no primeiro dia, acabam no último, (...) e têm, como os papas, o poder de ligar e desligar.”
Não se trata de subestimar os festejos, que inclui o Festival Internacional de Música de São Luís, promovido pela Prefeitura, de 7 a 15 de setembro. Peca-se pelo oportunismo e pelo uso de verbas públicas sem discussão prévia num Estado que, segundo a Fundação Getúlio Vargas, possui 63,72% de sua população abaixo da linha da pobreza.
A façanha, associada à campanha política do ex-prefeito e candidato a governador pelo PDT Jackson Lago, teve a resposta do governo, que apóia o candidato Zé Reinaldo (PFL), instituindo o Plano de Programação Comemorativa dos 390 anos da Cidade de São Luís, que se iniciou dia 1º de setembro e vai até o final do mês.
Tais comemorações possuem antecedentes à altura. Durante o governo Newton Belo, por ocasião dos 350 anos da cidade, em 1962, o Estado gastou 7 milhões de cruzeiros e as festas duraram oito dias. O embaixador da França participou de solenidades filmadas pela Television Française e exibidas em vários cinemas do país e do exterior.
O contratorpedeiro Acre, da Marinha Brasileira, a zero hora do dia 8 de setembro, saudou São Luís com uma salva de canhões e foi depositado um bouquet junto ao busto de Daniel de La Touche, que para o jornalista Nonato Masson, “foi feito a partir da figura de um cassaco da estrada de Ferro São Luís-Teresina” – O Est. do MA, 08/09/91 (apud Lacroix, op.cit.p.154).
Foi eleita a Miss Centenário, e, por fim, o Palácio dos Leões abriu as portas para “um baile de gala tentando reproduzir a majestade das festas de Versailles”. Na época, o fato foi versejado numa música que João do Vale e Lopes Bogéa fizeram em parceria:
Em Caratatiua houve coco-de-roda,
tambor-de-mina e bumba-meu-boi.
Lá no Palácio houve festa de gala
pra pobre e pra rico, todo mundo foi
Bogéa confessou depois ser uma mentira, “ali só entrava engravatado.” Afinal, o narcisismo também é ideológico: sustenta aquilo que sabe que não é para iludir a quem o vê no espelho e tirar proveito disso.
Corrigidas as distorções históricas, deve-se estabelecer uma política cultural de forma democrática. Lacroix diz que a elite de hoje continua preservando a visão laudatória do século XIX. “Temos que nos libertar desse ideal e pôr os pés no chão, em vez de satisfazer pequenos grupos de privilegiados”. Um instante, maestro!
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