Data de Publicação: 30 de novembro de 2005

Um jovem vaqueiro da fazenda Santa Maria, onde se localiza o povoado de Mu-
lundus, a 30 km da sede do município de Vargem Grande, quebrou o pescoço quando campeava o gado e o cavalo chocou-se com uma palmeira de babaçu. Três dias depois, o corpo de Raimundo Nonato foi encontrado intacto e um inexplicável perfume recendia no ar.
O peão foi transformado em santo e venerado pelos escravos e moradores, após o milagre que salvou a vida do dono da fazenda. Mas o corpo desapareceu, surgindo hipóteses apontadas pelo escritor vargem-grandense Jether Joran Martins: “a Igreja o teria levado para Roma; subiu ao Céu; o povo o carregou etc.” (Histórias & Estórias da Minha Cidade, 2002).
A imagem do vaqueiro doada pela sinhazinha para a capela erguida no local “também desapareceu”, diz o escritor. Porém, D. Luiza Nina Rodrigues (mãe do etnólogo maranhense Nina Rodrigues) mandou vir outra de Portugal. Mas, “para a surpresa dela e do povo, veio a de São Raimundo Nonato da Espanha, libertador dos escravos da Ordem dos Mercedários”.
FÉ PROFANACom o tempo, as romarias para Mulundus foram crescendo e mobilizou comerciantes vindos de quase todos os rincões nordestinos, além de violeiros, repentistas e sanfoneiros que se misturavam ao burburinho da feira, disputando espaço com as famílias tradicionais de Vargem Grande durante os festejos.
Em local afastado, conhecido como “Ponta Fina”, ficavam os bares e cabarés, além dos barracos feitos de palha braba, onde se davam as festas dançantes. Mas, a pândega enfureceu o Arcebispado de São Luís que, usando a Lei da Santa Sé, chegou a proibir a romaria em 1930, mas não convenceu a população: os festejos e a zona continuaram.
Só que, em 1936, depois de um acordo com os chefes políticos locais, a Igreja retrocede, porém exige que a Paróquia de Vargem Grande tome os festejos a pulso.
Em 1954, o arcebispo Dom José Delgado transfere o santo para a sede da Paróquia, que passa a chamar-se de Santuário de São Raimundo Nonato. Deu-se o fato não só pela distância até Mulundus, mas também pelo antigo entrevero da Igreja com o Coronel Saul, dono das terras.
Descontente com a mudança, um devoto chegou a seqüestrar a imagem, depois de tê-la pedido emprestado, o que levou à intervenção da polícia.
Em 1958, a Arquidiocese adquire a fazenda Paulica, de 180 hectares, situada a 7 km da cidade, às margens da BR-222, onde foi reinstalada a capela. A partir daí, todos os anos, em 22 de agosto – início oficial dos festejos –, é realizada a Alvorada às cinco da manhã na Praça da Matriz. Nos ombros dos fiéis, a imagem faz um trajeto de duas horas até a fazenda, ao som da orquestra e do foguetório.
Detalhe: o andor possui hoje uma redoma de segurança, pois o santo foi roubado de dentro da igreja em 1978, sendo encontrado com a ajuda da Polícia Federal em Olinda (PE), arranhado e com um dedo quebrado.
A ROMARIACrianças de asas angelicais, penitentes com pedras na cabeça, mortalhas e hábitos de São Raimundo e São Francisco de Assis integram a romaria, onde centenas de vaqueiros empinam-se nos cavalos com trajes tradicionais – chapéu de couro, perneiras, gibão, peitoral etc. –, enquanto outros devotos seguem a pé, em bicicletas, motos e até automóveis pelas trilhas acidentadas.
Em Paulica, assistem à missa em frente à capela. Lá também são realizados batismos. Os fiéis depois espalham-se pelas barracas para comer, beber e descansar, preparando-se para os leilões de cabras, bezerros, porcos e capões.
Após as ladainhas e o rala-bucho, retornam às quatro da tarde para a sede de Vargem Grande, parando na capela de São Francisco de Assis. Lá o padroeiro da cidade, São Sebastião, espera a romaria com outro cortejo, dando-se o encontro emocionante dos dois santos. Reza-se outra missa na Praça da Matriz, com mais foguetes e vivas aos santos, ato de devoção que mantém de pé a multidão de romeiros estafados.
Nem tudo, porém, são bênçãos. Os festejos à medida que crescem vão tendo dificuldades, pois, segundo Jether Joran, quase não existe apoio institucional. Por isso, resolveu juntar-se à Fundação Simplício Oliveira, que atualmente cuida da preservação ambiental de Paulica, para estudar uma saída.
“Vamos fazer um manifesto, em forma de projeto, visando não só o resgate das tradições do festejo diante das modificações surgidas, mas o comprometimento do governo com a festa, incluindo-a no calendário turístico e cultural do Estado”, resume Jether.
NÃO NASCIDOSão Raimundo Nonato nasceu em Portel, na Espanha, em 1204. Chamou-se “nonato” – não nascido – por ter sido extraído de sua mãe já morta. De família pobre, o menino foi pastor de ovelhas e deixou a terra natal para ingressar na Ordem das Mercês, em Barcelona.
Aos 20 anos, vestiu o hábito dos mercedários, dedicando toda a sua vida à libertação dos escravos da Espanha, sob o domínio muçulmano. Em 1226, entregou-se como escravo na Argélia para animar pela fé os prisioneiros e lutar pela sua liberdade.
São Raimundo sofreu intensas perseguições, chegando a ter os lábios furados a ferro quente e fechados por um cadeado para que não mais denunciasse as injustiças e o seu Evangelho da libertação fosse calado.
Foi resgatado com a saúde arruinada e, ao regressar à Espanha, o papa Gregório IX elevou-o a cardeal e conselheiro particular. Faleceu em Cardona, em 1240, aos 36 anos de idade. É invocado como protetor das parturientes e das parteiras.
Mas, o santo renasce todos os anos em Vargem Grande, junto com o vaqueiro Raimundo Nonato, durante os festejos em sua homenagem. No dia 31 de agosto, que lhe é consagrado, há nova Alvorada, seguida de missas, batizados de futuros devotos e festa.
E não termina aí. No dia 1º de setembro, depois da homilia pelo Dia dos Romeiros, é a vez dos noivos casarem-se e, na euforia das núpcias, lavarem os pratos celestiais.
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