Data de Publicação: 30 de novembro de 2005

Três epígrafes das obras em prosa de Lucy Teixeira chamam a atenção do leitor. O tirano morre e seu reinado termina. /O mártir morre e seu reinado começa. (Sören Kierkegaard), de No Tempo dos Alamares; Imaginar é aumentar o real em um tom. (G. Bachelard), em & outros sortilégios e “D’un coeur de femme il faut avoir pitié. Quelque chose d’enfant s’y mêle a tous les âges”, Nietzsche. (Dentro de um coração de mulher é necessário ter compaixão. Alguma coisa de criança transita por todas as idades), em Um Destino Provisório. Essas três epígrafes, três mosaicos, são uma síntese do espírito de contestação, de insatisfação, do humor e da poesia da escritora.
Ferreira Gullar, em comentário à obra No Tempo dos Alamares & outros sortilégios, assim se expressa:
“Lucy Teixeira pertence a minha geração. Maranhense como eu, transferiu-se para o Rio pouco antes de mim e, no Rio, vivemos, na década de 50, as inquietações e deslumbramentos de uma rebelião artística que mudou a arte brasileira. (...) Quarenta anos se passaram e, durante esse tempo, raras vezes nos vimos ou nos comunicamos. E eis que, de repente, Lucy reaparece, a mesma, sorrindo, com este livro de contos debaixo do braço. (...) Com alegria, constatei que a contista dos anos 50 mantivera todo o encanto de sua prosa requintada, com a vantagem de que se tornara mais madura, mais senhora de sua arte e sortilégios. Lucy trilha o caminho aberto por Virgínia Woolf e seguido por Clarice Lispector, mas sem com elas se confundir.”
O renomado crítico Antônio Cândido, em carta a Lucy Teixeira, tem também uma impressão encorajadora a respeito do texto da obra No tempo dos alamares & outros sortilégios:
“Apreciei demais sua grande liberdade criadora, a felicidade de expressão com que dá largas ao gosto de narrar, associando palavras com grande fantasia, de maneira a obter efeitos surpreendentes, verdadeiras ofertas poéticas. Essa capacidade lhe permite bem o sólito e o insólito, sem consideração pela rotina de estilo. Com isso você obtém efeitos raros e suscita, graças à fantasia verbal, um mundo próprio que atrai o leitor com o sistema de sortilégios, para usar uma palavra adequada ao seu universo literário.(...) Esse é o parto da montanha, que vai com os cumprimentos e o parabéns do Antônio Cândido”.
O texto de Um Destino Provisório apresenta um dado essencial que logo de saída confere à escritora um lugar de destaque – trabalhar com maturidade o poético. Esse texto arremete a algumas outras dicções no campo da obra romanesca, entre elas à introspecção psicológica e à poeticidade de Clarice Lispector, cuja força motriz imagética se corporifica na metáfora e na sinestesia.
Lucy Teixeira conduz o fio da meada no texto, destacando a aspereza da vida para retratar a aridez espacial. Esse universo ela registra através do exercício das percepções sensoriais.
A aproximação do texto de Lucy Teixeira ao de Clarice Lispector justifica-se por um gancho comum – a hipervalorização da sinestesia até a um nível de estesia sensorial, de modo que seres e coisas se tornam mais importantes não pelo pensar em si, mas pelo que, a partir da visão, da audição, dos odores, do tato, do olfato, possam ser pinçados e aguçados ao nível da emotividade, o sentir e o pensar aglutinando-se, mesclando-se, a partir da exaustão de todos os sentidos. Daí por que há nessa obra a suspeição do desvio, do viés, isto é, da obra vista não do ponto de vista concreto, mas com o olhar pelo avesso, a leitura pelas reticências, a partir do que está pontualizado nas entrelinhas, nas elipses, nos ganchos. Uma escritura madura, sutil, que se expressa através da alegoria que não é, senão, uma busca de traduzir, através do inverossímil, a tragédia e a comédia humana, o que ela consegue não sem sutilmente mergulhar no despenhadeiro da ascensão do fluxo da memória, esse pano de fundo que, discretamente, conduz todo o seu texto, perpassando por ele em penumbra, como uma silhueta de nuvem que pousa e se desfaz.
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