Data de Publicação: 29 de novembro de 2005

Despercebido, tantas vezes esquecido... No silêncio do anonimato, ele é presença humana, marcante e atuante. Sério, responsável, confiável. De uma eficiência sem precedentes, de uma competência que o estabelece como pessoa necessária, indispensável, no contexto em que está integrado. “Ninguém é insubstituível”, diz o ditado. No entanto, já é difícil, quase impossível, imaginar a Paróquia, a Comunidade, a Igreja de São João (Rua da Paz – Centro) sem Nonato. Ali ele faz acontecer...
De uma polivalência que transita dos serviços gerais (passando pela limpeza, pela secretaria, contabilidade, administração e até mesmo pela vigilância noturna da Casa) à assessoria nos ofícios religiosos, ele é, a bem dizer, o faz-tudo da Igreja. Nas missas diárias (com exceção, ultimamente, das dos fins de semana), é ele quem prepara o altar, ajusta o som, faz a leitura introdutória das intenções, as da liturgia da palavra (na falta do ministério de leitura); assume os cantos, ensaiando-os (se for ocaso) a priori, com a comunidade (na falta do ministério de música); faz a coleta do Ofertório... Problema no sistema de som? Ele resolve. Nas instalações elétricas? É com ele. Pintura? Ele pinta, ou providencia o serviço... E assim, sucessivamente, sem contar o serviço social que presta a tantos desassistidos, (mendigos e velhinhas) que vivem à sombra da Igreja. Sem esquecer, ainda, o pendor para as artes plásticas, que o habilita à confecção anual do Presépio natalino – responsabilidade que tomou para si, desde o início dos anos 80, na falta irreversível do saudoso Aécio Rego. Presépio que, diga-se de passagem, mereceria um capítulo à parte, na história desse gênero de arte sacra, tão cultivado aqui em São Luís, nas igrejas, no tempo do Natal – seja pela sua tradicionalidade, seja, mais ainda, pelo caráter de arte engagée, assumido, no que se pode considerar o seu período áureo. Falamos dos meados dos anos 70, quando então, por iniciativa do Grupo de Jovens da Paróquia, com o apoio e a orientação do impagável Marcos Passerini e sob toque mágico do artista Aécio Rego, ali na São João se armava o presépio temático, de mensagem, sempre em sintonia com a realidade social do momento. Flagremos, a propósito, alguns desses instantâneos memorialísticos, à guisa de ilustração...
Natal de1977: No deserto da vida, nasce a Esperança! - Palavras como Amor, Ódio, Egoísmo, Solidariedade, Indiferença... espalhavam-se, por pontos estratégicos da gruta, legendando figuras de rostos expressivos, sofridos, em contraste com a esperança irradiante da Natividade.
Natal de 1978: Se queres a Paz, defende a Vida! - Um casebre do sertão nordestino acolhia o Menino, deitado na manjedoura, forrada com palhas de bananeira. A panelinha velha, machucada, sobre o fogareiro em brasas, o mandacaru, a rede, a cabacinha pendente, na parede de pindoba, as músicas natalino-sertanejas, faziam o encanto, na simplicidade do quadro.
Natal de 1979: No mundo que era seu não lhe deram lugar! - Neste ano, o presépio esteve sob o encargo do jovem Zé Maria Medeiros que, com muita criatividade, fez surgir, paralela à cena da Natividade, a problemática do menor abandonado aqui do Centro Histórico e na panorâmica dos nossos casarões coloniais.
Natal de 1980: Mais um homem no Mundo! - Ainda sob a criatividade de Zé Maria, o tema se fazia complementar com o lema para reflexão: “Se o Cristo tivesse que nascer hoje, iria ser um morador das palafitas? Viver como vítima da marginalização?” O presépio se ambientava num cenário de palafitas... (Dados excertos de: Corrêa, Dinacy, Os presépios - pesquisa Dac-Ufma, 1978/80, inédita)
Voltando ao nosso contemplado. “Hoje tem as meninas (Selma e Tereza) que me ajudam: a gente une os talentos e o trabalho sai até mais criativo, o resultado mais gratificante”, ele diz, mostrando o presépio já armado, seguindo uma linha eclética, que mistura o tradicional com o moderno, o clássico com o regional... Como vem acontecendo, desde que ele começou a se dedicar a essa arte, como funcionário da Paróquia, ainda nos verdes anos de sua juventude... “O Menino, só à meia-noite do dia 24 pro dia 25 e os Reis Magos, só no dia 06 de janeiro”, ele explica, referindo-se à manjedoura ainda vazia e à ausência dos Reis na paisagem...
Enfim, situado no seu contexto de trabalho, passemos à leitura do seu livro de Gênesis. Atenção...
Nome completo: Raimundo Nonato Bucar. Nascido em Loreto (Ma.), em 29 de maio de 1955, mas levado, aos dois meses de idade, pelos pais genéticos, Maria dos Anjos Barros e José Ferreira dos Santos, para a cidade de Balsas (MA) – onde se tornou filho adotivo de Salomão Ahuad (comerciante árabe) e de Vera Bucar, respectivamente pai e filha.
Assumindo, alternadamente, a voz narrativa, aqui na paisagem textual, ele vai desenrolando o novelo de sua história: “Minha mãe era dona-de-casa. Meu pai, além de um bom alfaiate, era jogador de futebol (jogava no Bangu Atlético Clube) e boêmio irresponsável, freqüentador assíduo de cabarés. Por bem dizer, não o conheci; me lembro dele muito vagamente e nunca o vi depois que me entendi por gente. Só sei que ele abandonou nossa família, deixando minha mãe prostrada, gravemente doente, sem poder cuidar de nós, todos pequenos (Ela com apenas 18 anos e já mãe de cinco crianças; quando meu pai a tirou de casa, ela tinha 12 anos; com 13, teve o primeiro filho). O mais doído de tudo, e que me marcou pra sempre, foi ter visto a minha irmãzinha morrer de fome. Morreu de fome mesmo. (!!) Nós, sozinhos, desamparados... Não tenho mais uma lembrança assim tão nítida de tudo, mas sei que, quando vi minha irmãzinha morta e minha mãe caída, desmaiada, na cama, entrei em desespero e saí pra rua, apavorado. Disso, me lembro bem: da cama, passei pra janela e pulei pra fora. Saí pela rua, chorando, pedindo ajuda, pedindo comida: “Quéio cumê, tô tum fome, quéio mamãe...” Nem sabia falar direito; tinha pouco menos de três anos. Era fim de 57 pra começo de 58 e foi aí que a mãe Vera me encontrou e me levou pra casa – ela morava com o pai dela, que foi casado com Nazira Bucar, mas estava separado e vivia com a filha (Vera). Quando ele me viu, me achou bonito, gostou de mim e me aceitou”.
“Quanto a minha mãe, foi socorrida também por Vera e pelos vizinhos. Foi levada pro hospital, onde ficou internada, se tratando. Quando voltou, os filhos já estavam espalhados e ela não podia fazer nada, sendo obrigada a abrir mão de todos nós. Pedia trabalho nas casas... E quando ficou curada, ia amamentar a piquinininha. Tirante a gêmea, que morreu de fome (não lembra o nome), todos nós fomos adotados. Meu irmão mais velho, Abenilsom (já falecido), foi criado pelo meu avô materno; a mais velha das meninas (Mariazinha), foi criada por Alzira Bucar, em Goiânia (e até hoje não sabe que nós somos irmãos; seus pais adotivos não quiseram que ela soubesse a verdade); a outra gêmea, sobrevivente, ficou com a família Santos Coelho, em Balsas (mora em São Paulo, com o marido e os filhos). Meu pai, como já disse, não o conheço, mas, curioso: ultimamente, tenho recebido telefonemas dele. Ele me pede sempre desculpas por tudo, diz que mora em Goiânia, que tem outra família, que está regenerado e que é pastor evangélico (!!). Glória a Deus !
Bom, sob a égide de Salomão e Vera, ele estudou em Balsas, nos Colégios Professor Luís Rego (primário) e São Pio X (ginásio). O Ensino Médio (Técnico em Contabilidade), cursou em Anápolis, no Colégio Anápolis, em Goiás – para onde se deslocou, aos 18 anos, numa aventura, com o amigo Leônidas.
Ele mesmo explica: “Quando fiz 17 anos, meu pai adotivo se casou de novo, com Maria Alice Duarte (com quem teve duas filhas, Áurea e Claudia). Não me dei bem com minha madrasta e me sentindo desapoiado por meu pai, resolvi ir embora de Balsas, correr terras e fui bater em Anápolis, onde passei cinco anos e meio, estudando e trabalhando”.
“Em Anápolis, alugamos um quarto e tentamos a vida. Foi duro. A gente dormia no chão... Até que mãe Vera ficou sabendo e veio atrás de nós. Alugou um quarto melhor, comprou camas e me arranjou emprego. Primeiro, trabalhei como auxiliar administrativo, depois como assistente de administração, depois como fiscal de pavimentação, por último, como almoxarife de uma fábrica de pré-moldados. Tudo na mesma firma, a Paviana (Pavimentadora de Anápolis).
“Quando terminei o Ensino Médio, comecei a fazer um curso de graduação, em Contabilidade, em nível de licenciatura, visando o ensino profissionalizante. Prestei vestibular pelo Projeto Getúlio Vargas, da Secretaria de Educação de Goiás, passei em 1º. lugar e segui pra Recife, fazer esse curso de 600 horas, em quatro meses, numa 1ª. etapa. Lá, arranjei uma namorada aqui de São Luís (a profa. Maria José, de Ensino Médio), que me meteu na cabeça que eu devia vir pra cá, que aqui eu teria um emprego garantido. Voltei pra Anápolis, só para pegar minhas coisas, e me toquei, atrás dela”.
Chegou, pois, na cidade dos azulejos, com seus 23 anos e alguns meses de idade. Foi morar com a namorada, que por sua vez morava com a tia-mãe adotiva. Passava o dia com ela, mas ía dormir na casa do pai dela (o Sr. Brito, viúvo e funcionário da Escola Técnica, hoje Cefet). Mesmo assim, tiveram um filho, um menino lindo, Eric Fernando (falecido tragicamente, aos dezoito anos, em conseqüência de um erro médico, numa cirurgia de fimose).
Após quatro meses de estadia, aqui na Ilha, encontrou-se, acidentalmente, com a mãe genitora, que tanto desejara encontrar... “O mundo dá mesmo muitas voltas... E até as pedras se encontram”, ele pondera. Trocando confidências com um colega, este o deixa ofuscado, com a boa nova: “Cara, tua mãe mora lá perto da minha casa...” E ele foi viver a grande emoção do reencontro. E pôde conhecer capítulos inéditos (para si), da vida de sua mãe, depois da separação... Ei-lo que retoma a palavra: “Minha mãe veio aqui pra a capital, trazida pelo Sr. Bandeira, um homem muito honrado e generoso, que a ajudou a sair daquele fundo de poço. Chegando aqui, ela arranjou um emprego de costureira, na Sudenveste, quando a empresa ainda ficava perto da Fonte do Ribeirão. Por ali, ela encontrou um rapaz muito digno (J. Guimarães, de Passagem Franca), funcionário dos Correios, com quem se casou e constituiu uma nova família”. Nonato conheceu, também, os novos irmãos: Júlio César, advogado, matemático e agrônomo; Ana, assistente social, casada com um gerente do Banco do Brasil e Lúcia, pedagoga, casada com um auditor do Estado. “Todos, louvado seja Deus, muito bem colocados na vida”, ele diz.
Convidado, ele vai morar na casa da mãe natural, chegando a passar um ano, em convivência com a recém-conhecida família. Nesse ínterim, tenta, em vão, por duas vezes, os vestibulares da Ufma e Uema. É quando chega, aqui em São Luís, o curso do Cenafor, justo na etapa que lhe faltara concluir, em Recife, pelo Projeto Getúlio Vargas. Ele obtém a primeira colocação no vestibular e, com o apoio do Monsenhor Ladislau Pop, consegue a vaga que lhe estava sendo negada e completa a sua habilitação. A essas alturas, está trabalhando como corretor de imóveis – função através da qual conhece o Sr. Maia, proprietário do Lord Hotel, a quem, nesta recordação, presta uma homenagem póstuma de gratidão. E vamos saber por que...
“Seu Maia, eu já vim aqui tantas vezes, já perdi tanto tempo com o senhor, na tentativa de vender este imóvel e o senhor me enrolando, sem fechar o negócio de vez... Amanhã é o dia da minha formatura e eu estava contando com essa comissão pra comprar minha roupa, meu sapato e tudo o mais...” Seu Maia, prontamente, lhe custeia as despesas, independentemente da venda, e ele pode, então, participar com dignidade das solenidades de sua formatura, na Ufma.
Tendo juntado, já, um dinheirinho, trata de realizar um dos grandes sonhos da mãe biológica: encontrar-se com as filhas, das quais tivera que se separar, quando daqueles dias difíceis... Leva-a, pois, de avião, para São Paulo, onde os dois se reencontraram com Terezinha, já adulta. Uma grande emoção. (Ainda resta, a essa mãe, o sonho de rever Mariazinha, em Goiânia, mas isso só se a família adotiva resolver encarar a verdade)...
Na volta de São Paulo, mais uma intempérie: ele se desentende com o padrasto, tendo que deixar a casa da mãe, indo morar com um primo de consideração, com quem divide, por um ano, o aluguel de uma casa, no Lira, ali ficando, até terminar a faculdade. O “primo” se casa e vai morar no Cohatrac. Ele passa a morar com outros amigos, com os quais começa a freqüentar o Grupo de Jovens da Igreja de São João. É aí que se reencontra com o comboniano Pe. Mário Vian, que já o conhecia, de Balsas, e o convida a ser missionário. Ele diz que pode sê-lo, trabalhando na Igreja. E fica tudo acertado: ele terá salário, com direito a moradia, na Igreja. E já são 23 anos de vivência e convivência na Casa de Deus – que também é a sua casa, seu local de trabalho, sua família, seu meio social, sua vida, seu tudo. O que o fado lhe negou, na infância, a Igreja lhe dá, em prodigalidade. São tantos irmãos e irmãs, na comunidade... Tios e tias, velhinhos e mendigos que ele socorre, providenciando um remédio, uma cesta básica... Tantos padres que passaram por ali, aos quais ele teve o prazer de dar e o mérito de receber o amor paterno e fraterno, a amizade verdadeira... Mário Vian, José Èzio Sório, Francisco Cordero, Alfredo Belini, Gesuino Podda, Gabriel, Carlos Bascaran... E agora, milita sob a direção de Primo Silvestri, atual pároco da São João, que se tornará, com certeza, um novo grande amigo...
E aí, Nonato, valeu a pena, a Igreja te preenche os ideais? “Sou feliz, estou na Casa de Deus...Tive outros objetivos, claro, me formar em Direito, Administração de Empresas, Informática... Quando me aposentar, pretendo ainda fazer um curso desses. A Igreja não me dá oportunidade de estudar nem de dia nem de noite. Sempre tem um casamento, uma missa de formatura... E eu tenho que tá sempre aqui”. E o magistério? Você se habilitou... “Tentei. Deixei meu currículo por aí, em toda parte. Não consegui vaga. Ainda ensinei no La Roque, no Silva Martins, no Instituto São Lázaro... Mas, quando cheguei aqui, não deu mais. A Igreja absorve meu tempo todo”.Uma vocação, algo que fale alto, forte, lá dentro, você sentiu, sente? “Nunca tive tempo de parar pra escutar minha vocação. Sempre foi tudo muito emergencial na minha vida. O desafio de viver, ou sobreviver... Sempre tive que agarrar o que me aparecesse. Sempre quis muito viver. Não sei se você me entende. O que vou te dizer agora é muito profundo... A gente nunca sabe se é a vida que nos faz ou se já nascemos feitos...” E o amor? Mulheres, casamento... “Ainda não encontrei o ideal”. E as telas? “Deixei de pintar; a tinta me estragava os pulmões”. Um projeto... “Comprar um barco e me dedicar à pesca, na Raposa. Ainda vou vender peixe, tu vai ver!” Estamos querendo fechar a página com a sua mensagem. Para quem são suas últimas palavras aqui na galeria? “Pra minha mãe Vera”. Tudo bem, mande...
“Obrigado, mãe Vera, por TUDO. Não tenho palavras para lhe dizer o quanto a amo e me orgulho de ser seu filho adotivo. Gostaria de ser também o seu motivo de orgulho. Será que tenho merecido? Valeu a pena tanto sacrifício por mim? Só eu sei, mãezinha, o quanto a senhora se dedicou a mim, na falta da minha mãe genitora, que também lhe é agradecida. Os noivos que não a aceitaram com um filho adotivo...Seus noivados desfeitos... Tudo por causa de mim... Porque a senhora me colocou sempre em primeiro plano, na sua vida, ficando solteira até hoje... Ó mãe admirável! Valeu a pena, sim, mãezinha, porque a sua alma não é pequena... Muito obrigado, mãe, que Deus lhe pague! E um feliz natal, extensivo a todos os que me lêem agora. Aqui diante do Presépio, peço ao Menino-Jesus que abençôe este mundo com o amor de muitas mães Veras, para que não haja mais uma criança chorando, desamparada, na rua. Que as nossas crianças possam, realmente, ter um natal sem fome, e que esse Natal seja um natal de todos os dias... Amém”.
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