Data de Publicação: 29 de novembro de 2005

Nhô Cristo, que cursou só até o 4° ano primário na Escola da Maçonaria, não teve parceiros em sua obra, entretanto, dada à cumplicidade boêmia que me possibilitou descobrir os cacoetes musicais do compositor, pude interferir em raras oportunidades nas suas criações, às vezes sem que ele soubesse. Foi o que ocorreu com a marchinha batizada “Pé de Pato”, um pretexto para os pileques carnavalescos de 1974:
Criança foi quem descobriu
que o Diabo tem o pé de pato.
Nós vamos nos divertir
no Carnaval de setenta e quatro.
Se o Diabo for mais forte do que eu,
eu vou fazer o que o diabo quer.
Mas se o Diabo for mais fraco do que eu,
eu vou fazer do Diabo mulher.
Os anos se passaram e a data, que já não rezava na folhinha, deixou de fazer sentido quando a marchinha era cantada. Resolvi meter o bedelho, modificando o terceiro e o quarto versos, que ficaram assim: “Esse ano eu vou ver/o Diabo calçar sapato”. A melodia deste trecho foi também ligeiramente reduzida.
Só contei para o autor depois que a música estava sendo cantada nas ruas – tendo sido, inclusive, gravada no LP “Te Gruda no Meu Fofão”, com Rosa Reis (Laborarte, 1995). Cristóvão deu um sorriso distraído e satisfeito, aquiescendo com a cabeça. Essas esporádicas intervenções, contudo, jamais significaram parceria. Foram ínfimos e circunstanciais suplementos, como quem acrescenta duas gotas invisíveis num traçado de cachaça.
Na verdade, tive imenso prazer em contribuir para a divulgação das músicas originais de Alô Brasil (já então conhecido na cidade pela sua arte de improvisar) e de outros compositores da velha-guarda da Madre de Deus, presenteando-me com a agradável tarefa de repassar suas obras aos intérpretes e amigos que não as conheciam.
CASO DE MARIA Ainda criança, nos anos 60, ouvi impressionado Santo Cristo cantar “Maria, Engoma a Minha Fantasia” na porta da barbearia de Lucas Baldez, no Beco das Minas. O samba, construído sobre uma exuberante escala descendente, já fazia parte do repertório da Turma do Quinto e dos Fuzileiros da Fuzarca, que ouriçava os foliões, da Madre de Deus à Praça do Cemitério:
Maria, engoma a minha fantasia
que este ano a escola tem que vencer.
Já tenho até um samba preparado
que vai ser cantado
na hora que a escola descer.
Já falei com Lino Mota,
o chefe da marcação.
Já falei com o Vavá
e também com Zé Leão.
Vou conversar com Rosendo
e também com Mestre Orfila,
porque a escola este ano
forma na primeira fila.
Pois é, pois é, pois é,
o samba se faz no corpo
e o compasso é no pé.

Tempos depois, enviei o samba numa fita cassete para os produtores do CD “Memória – Música no Maranhão” (Comissão Maranhense de Folclore/Secma, 1997), projeto que registrou composições de 18 autores tradicionais – alguns já falecidos – e teve a direção musical de João Pedro Borges. A música de Cristóvão foi interpretada no disco pela cantora maranhense Mundinha Araújo.
Por ocasião do projeto Brasil de Todos os Sambas, realizado pelo Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, também coloquei o samba no repertório do espetáculo Pregoeiros do Maranhão, que ali, eu e Antonio Vieira apresentamos entre os dias 29 de janeiro e 1º de fevereiro, com a participação dos músicos Luís Felipe (sete cordas), Pedro Amorim (cavaquinho), Marcelo Bernardes (flauta, sax e clarinete), Pedro Miranda, Paulino Dias e Cláudio Amaral (percussão).
“Maria” foi interpretada pela carioca Teresa Cristina, que teve participação especial no show juntamente com as maranhenses Rita Ribeiro e Célia Maria. “Adorei o samba”, confessou a cantora.
A música finalmente integra o CD “Alô Brasil” (fruto da insistência de admiradores do autor), 1o da Série “Sabiá” (Funcma, 1999), reunindo 10 sambas de Cristóvão, interpretados por Cláudio Pinheiro, Gabriel Melônio, Regional 310, Wellington Reis, Roberto Brandão, Inácio Pinheiro, Rosa Reis e Fátima Passarinho, além de Ubiratan Sousa, diretor musical do disco. Traz ainda a voz remasterizada do próprio autor no samba “Araçagi”, gravado anteriormente no Compacto “Velhos Moleques” (Sotaque Produções/MUS, 1986).
Curiosamente, o samba recebeu o título de “Mestre Orfila” neste CD, que, apesar de ter sido o primeiro da série criada pela Fundação de Cultura do Maranhão, foi lançado dois meses depois do segundo – “Pregoeiros”, de Antônio Vieira e Lopes Bogéa –, em 22 de novembro de 1999, com uma grande festa no Largo da Madre de Deus, para desagravar a mancada. Sem falar que Cristóvão havia falecido um ano antes, sem ver o disco pronto, depois de tantos gols marcados.
O ATAQUE E A DEFESANuma tarde regada a cerveja, pinga e tira-gosto de torresmo, nos anos 70, Cristóvão assistia na TV a um jogo de futebol entre o Flamengo e o Vasco, na casa de Dona Amélia, sua irmã mais velha, ao lado de parentes e amigos. A partida mal iniciara, quando perguntaram ao sambista a sua opinião sobre o resultado e ele, tirando do bolso uma caixa de fósforos, respondeu:
Tá difícil,
difícil está de resolver.
Não se pode fazer um prognóstico
de quem vai ganhar ou perder.
Bem, como já se sabe, vieram as “explicações” improvisadas sobre a partida de futebol, que acabou virando partido-alto, com a turma endossando o refrão. Estavam ali presentes os ex-craques do Ferroviário Futebol Clube Luís Henrique Baldez (Preto) e Euclides Américo Filho (Esquerdinha), além do compositor Eudes Silva Américo, os dois últimos sobrinhos de Cristóvão.
Foi também de improviso, e sem pendurar as chuteiras, que Santo Cristo defendeu a sua posição na grande área do samba quando um fanfarrão de outro bairro e time adversário invadiu a Madre de Deus, argumentando que o nosso ídolo não fazia mais milagre nem música que prestasse. Sem engulhar o “xarope”, Cristóvão deu o troco em cima da bucha:
Já me disseram
que você encheu na Vila,
até disse pra Orfila
que eu já não sei fazer samba.
Pegou meu nome e dele fez um veneno,
fez o meu cartaz pequeno,
disse até que eu não sou bamba.
A verdade a Vila vai saber,
eu vou abafar você
com um samba bossa-nova.
Você não acaba
com o meu cartaz de bamba,
eu ainda faço samba,
esse agora é uma prova.
Este samba, intitulado “Veneno”, foi incluído no CD “Alô Brasil”, na voz de Fátima Passarinho, entre outras preciosidades.
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