Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Porque a poesia dos iluminados e transfigurados é a que melhor representa o espírito da Boa Nova ou da Nova Aliança, deixemos que essas vozes calem profundamente em nossos corações, nos arremetendo às cavernas mais subterrâneas de nossas almas.
No Secreto Jardim poderemos nos surpreender e encantar com a nossa memória, ao fazermos um inventário interior que nos leve ao eterno retorno que começa indiscutivelmente pela nossa ligação ao amor materno, desdobrado em outros amores a partir do útero onde, pela primeira vez, deve ter acontecido o encontro com Deus, em pleno estado de graça e de silêncio.
Que através dos raros assinalados, aos quais foi conferido o dom de falar por línguas e pela própria língua dos anjos, possamos, descendo os degraus da fonte da sabedoria, dizer com Cruz e Souza que Somente a dor nos transcendentaliza!
Que a confraternização universal que se vive no Natal e Ano-Novo tenha um olhar para o Sermão da Montanha tão belamente falado por Cristo e relido por Paulo de Tarso, Francisco de Assis, João da Cruz, Rabindranath Tagore e Kahlil Gibran.
SERMÃO DA MONTANHA
JESUS CRISTO, segundo o apóstolo Mateus:
Bem-aventurados os pobres de espírito/ porque deles é o Reino do Céu. / Bem-aventurados os aflitos, / porque serão consolados. / Bem-aventurados os pacíficos, / porque possuirão a Terra. / Felizes os que têm fome e sede de justiça, / porque serão saciados. / Felizes os que são misericordiosos, / porque encontrarão misericórdia. / Felizes os puros de coração, / porque verão a Deus. / Felizes os que promovem a paz, / porque serão chamados de filhos de Deus. / [...]
(MATEUS, 4-5, 5. Bíblia Sagrada. São Paulo: Edição Pastoral, Paulinas, 1990, p. 1242-1243)
PAULO DE TARSOPaulo é uma das figuras mais importantes do Novo Testamento. As informações sobre sua vida estão nos Atos dos Apóstolos e nas cartas que ele escreveu. Nasceu por volta do ano 10 da nossa era, na cidade de Tarso da Cicília (At 9, 11). Filho de judeus, da tribo de Benjamim, cresceu à sombra da mais perfeita tradição judaica (Fl 3, 5). Jovem ainda, foi para Jerusalém, onde se especializou no conhecimento de sua religião. Tornou-se mestre e fariseu, ou seja, especialista rigoroso e escrupuloso no cumprimento de toda Lei judaica (Antigo Testamento) e seus pormenores (At 23, 3).
Cheio de zelo pela religião, começou a perseguir os cristãos (Fl 3,6), até que se encontrou com Jesus Cristo na estrada de Damasco (At 9,1-19). A experiência de Jesus mudou completamente sua vida até a morte, situada por volta dos anos 67.
Paulo é homem bem preparado. Além de conhecer a fundo a religião de seus pais, possui boas noções das filosofias e religiões gregas do seu tempo. Escreve e fala em grego. [...]
(Op.cit.,Cartas de São Paulo aos Coríntios, Introdução Geral, p.1437)
Acima de tudo o amor
Ainda que eu falasse a língua dos anjos,
se eu não tivesse amor,
seria como sino ruidoso
ou como címbalo estridente.
Ainda que eu tivesse o dom da profecia,
o conhecimento de todos os mistérios
e de toda a ciência;
ainda que eu tivesse toda a fé,
a ponto de transportar montanhas,
se não tivesse amor, eu nada seria.
Ainda que eu distribuísse
todos os meus bens aos famintos,
ainda que entregasse
o meu corpo às chamas,
se não tivesse amor,
nada disso me adiantaria.
O amor é paciente,
o amor é prestativo;
não é invejoso, não se ostenta,
não se incha de orgulho.
Nada faz de inconveniente,
não procura seu próprio interesse,
não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça,
mas se regozija com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará.
As profecias desaparecerão,
as línguas cessarão,
a ciência também desaparecerá.
Pois o nosso conhecimento é limitado
limitada é também a nossa profecia.
Mas, quando vier a perfeição,
desaparecerá o que é limitado.
Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
raciocinava como criança.
Depois que me tornei adulto,
deixei o que era próprio de criança.
Agora vemos como em espelho
e de maneira confusa;
mas depois veremos face a face.
Agora o meu conhecimento é limitado
mas depois conhecerei
como sou conhecido.
Agora, portanto, permanecem
estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor.
A maior delas, porém, é o amor.
(Op.cit. p.1474)
FRANCISCO DE ASSIS Fundador da Ordem Monástica dos Franciscanos. Nasceu em Assis, Úmbria. Viveu entre 1182-1226. As Fioretti conservaram os vestígios de sua vida, que Giotto ilustrou em admiráveis afrescos (capela superior de Assis).
Francisco de Assis se destacou pelo voto de pobreza e por ter uma relação amorosa e terna com Deus. Procurou a reconciliação entre os impulsos do coração e as exigências do pensamento.
Segundo Leonardo Boff, ele procurou uma calorosa recepção dos distantes e distintos, feitos próximos, e dos próximos feitos irmãos; uma aceitação jovial daquilo que não podemos mudar; uma inocente liberdade em face das ordens e
regras estabelecidas; [...]
Oração da Paz de São Francisco de Assis
Senhor,
Fazei de mim um instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre,
Fazei que eu procure mais consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado,
pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.
(BOFF, Leonardo. A Oração de São Francisco. Rio de Janeiro: Sextante, 1999, p.6)
Kahlil GibranKahlil Gibran nasceu em 1883, no Líbano, onde morreu em 1931. Sua concepção orientalista sobre o amor casa-se com o pensamento de Cristo. Suas obras completas apresentam títulos em diversos gêneros, compreendendo contos, aforismos, romances e poemas. A sua obra-prima é O Profeta, espécie de síntese de seu pensamento cristão.
Quando o amor chama
Quando o amor chama, siga o sinal,
ainda que o caminho lhe pareça íngreme.
Quando suas asas o envolvam, abandone-se,
ainda que, por entre as plumas, lhe fira uma lâmina.
E quando o amor fala, não hesite em acreditar,
ainda que a voz dele perturbe os seus sonhos,
como o vento do Norte varre o jardim.
Porque o amor coroa e o amor prega a uma cruz.
Assim como cresce para você, o amor desbasta os seus ramos.
Assim como ele se eleva a seu cume e acaricia
os mais tenros brotos que tremulam ao sol,
também desce às raízes, agitando-as
em seu extremo esforço de agarrar-se à terra.
Como a um feixe de trigo, ele colhe você.
Sacode você para descobri-lo até à nudez.
Peneira você para livrá-lo do que não serve.
Tritura você e escancara-o em íntima candura.
Com as mãos, cultiva você até a sua ternura extrema,
depois o expõe à sua chama sagrada,
porque você é pão sagrado na sagrada festa de Deus.
Fará tudo isso para que você possa conhecer
os segredos do seu coração,
e assim iluminado,
tornar-se parte do coração da vida.
Mas se você tem medo e procura
apenas paz e prazer no amor,
melhor que se esconda e se retire
para um mundo desprovido de estações:
ali, rirá, mas não todo o seu riso,
ali, chorará, mas não a última lágrima.
O amor não dá senão ele mesmo, e só de si recebe.
O amor não possui e não se deixa possuir,
Porque ao amor somente amor basta.
(GIBRAN, Kahlil. Gibran e o Amor. São Paulo: Paulinas, 2003. p.32-33)
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