Data de Publicação: 29 de novembro de 2005

Por onde anda Jean Klay? – eis a nossa persistente inquietação dos últimos dez anos, desde que, ao revolver pastas, tendo que selecionar textos, montar novos kits de leitura (visando o nosso sempre renovado processo de ensino e aprendizagem, no Ensino Médio em cada nova jornada letiva), assim, ilhada de palavras, tínhamos sempre à vista o já amarelado exemplar de Sacada Cultural, contendo a matéria do poeta-jornalista Cunha Santos Filho, seguida da publicação do conto premiado de Jean... Da reportagem do poeta, o excerto:
“São Luís está pródiga em acontecimentos culturais que permanecem sem divulgação. Há cinco anos, a professora Dinacy Corrêa instituiu, no Centro de Ensino do 2º. Grau Gonçalves Dias, o Concurso Gonçalves Dias de Redação Criativa, com um objetivo no mínimo estimulante: desenvolver nos alunos a capacidade de expressão artística e o gosto pela arte da palavra, conforme ela própria define.
O Concurso, que conta com o apoio da Secretaria de Cultura do Maranhão, Prexae/Ufma e Academia Maranhense de Letras, estabeleceu este ano o tema Memórias: meu tempo de criança, instituindo prêmios nos valores de NC$ 150,00, NC$ 100,00 e NC$ 70,00 para os primeiro, segundo e terceiro colocados. O terceiro colocado foi o estudante Ismael Martins Silva, o segundo, Francisca Maria Lima e o 1º. Jean Klay Mafra Cruz (...).Divulgamos, neste número, o texto premiado em 1°. Lugar (...)” (Suplemento Cultural JP, Ano I, nº. 04, de 09/08/1989). (Segue-se o texto).
Somaram-se os anos (15, quase 16 anos!). E sempre a mesma inquietação. Pensamos até em colocar um anúncio no jornal: “Procura-se um escritor”... De repente, a idéia (como não pensamos nisso antes?): rastreá-lo pela Internet. E... simples! – logo estávamos conversando. Nosso reencontro, se deu no Sousa (Reviver – 04/01/05). Ele veio com a esposa (Kássia Raquel, 20) e a filhinha (Kauanne Victória, 2). Apesar dos tantos anos passados, reconhecemo-nos no primeiro cruzamento de olhares. Nem é preciso dizer da emoção inexprimível em reencontrar Jean. Poder revê-lo, olho-no-olho, saber como ele está agora (gordo), quantos anos já tem (34 – Nasceu em 12/08/70, em São Luís, no Turu), onde está morando (Divinéia), onde trabalha (Socorrão II, como Técnico em Enfermagem), quantos filhos tem (quatro; os três primeiros - Janderson, 15, Ronygeidson, 14, Johannes, 13, são da primeira mulher, Rosângela, que abandonou o lar em 91, deixando nos filhos pequenos uma falta impreenchível. O caçulinha, de apenas três meses, ficou com uma seqüela: um distúrbio chamado dislexia ou dificuldade de aprendizado)... Sem palavras.
Não fomos professora de Jean. Ele era aluno do Matutino, e militávamos no Vespertino. Naquele ano (89), o GD completava os seus 15 anos de fundação. Não querendo que a data passasse em branco, apresentamos à diretora da Casa, à época a Professora Socorro Coelho (Socorrão), uma vasta programação cultural, comemorativa da efeméride, incluindo a ampliação do Concurso (até então restrito às nossas turmas), abrangendo os três turnos do Colégio. Ela (a diretora) não só deu total apoio, como tomou a frente do Projeto, conseguindo a adesão do então Secretário de Educação João Martins Neto, da então Coordenadora de 2º Grau Ana Luísa Nazareno, do teatrólogo Tácito Borralho e tudo se realizou com muito brilho e entusiasmo. Interessa-nos aqui o Concurso que, como já foi dito, contou com o patrocínio da Secretaria de Cultura (prêmio em dinheiro), do Dac/Prexae/Ufma (prêmio em livros) e da Academia Maranhense de Letras (idem). Jean veio até nós, inscrever o seu trabalho. Tinha, então, 18 anos - mas já ia ser pai e disso só agora ficamos sabendo: “Professora quando eu peguei aqueles 150 cruzados, fui direto pra a Rua Grande, comprar o enxoval do meu primogênito que ía nascer e não tinha nadinha”... (Bate-papo no Sousa). Sua professora de português, que o acompanhara no processo redacional, chamava-se Auridéia. Ao ler o manuscrito, sentimos que ele ganharia o 1º. lugar. E a banca examinadora, muito sabiamente, concedeu a primeira colocação a esse trabalho, ainda sem título, e que intitulamos Anos de ternura. É o que vamos ler, a seguir, numa reedição que homenageia esse líder comunitário, escritor anônimo, amante fiel das letras... Conheçamo-lo, em sua dicção adolescente, a partir dos seus
ANOS DE TERNURAJean Klay Mafra Cruz “Eu era belo, quando criança. Nasci numa madrugada de lua cheia, sob o signo de Leão.Tinha cabelos louros e soltos, que mamãe pintara de preto, para não ficarem iguais aos de meu verdadeiro pai, que a mim negou sua paternidade.
“Mamãe ensinou-me as primeiras palavras. Tinha paciência. Ensinou-me também as cores, para que eu não as confundisse. Aos três anos, comecei a estudar numa escola particular. Ela me levava à tarde, depois do almoço. Era longe, da Divinéia para o Turu, cerca de uma hora e meia de caminhada. Minha mãe não se cansava. Deixava-me no colégio e ficava me esperando, à porta, por não poder ir para casa e voltar para me pegar mais tarde.
“Seu Rabecão, o dono da escola, era engraçado. Fazia-nos rir, com um enorme crucifixo no pescoço, a assemelhar-se a um desses santos que têm um rosário ou uma cruz na mão.
“Fui filho único. Filho querido. Filho mimado. Mamãe ficou estéril depois que eu nasci.
“Acompanhei minha mãe na abertura das primeiras ruas ou pequenas veredas do lugar onde morávamos. O canto dos pássaros, da vida, a nos a bater na porta, o bem-te-vi, que anunciava um novo vizinho, tudo me fascinava. As manhãs eram tranqüilas e cheias de sol. Havia muita vida ali. Era um paraíso. Tudo era motivo para emoção. Havia cheiro agradável por todo o lugar. Havia grotas por onde passava a enxurrada das chuvas. Fizemos pontes de tábuas para pisar. Era amedrontador à noite, mas gostoso pela manhã.
“Éramos só eu e mamãe e os anjos que oravam por nós. Morávamos num quartinho que ela mesma fizera. Ela me levava junto, sempre que saía para capinar terreno dos outros. Eu não me importava de ir com ela. Era bom. Quando o vento passava pelo meu rosto suado, era como abraçar a vida que parecia passar naquele momento. À tardinha, quando voltávamos para casa, tomávamos banho de poço e, em casa, jantávamos aquele peixe seco que, não sei se para os outros, mas, para mim, era muito gostoso. E aquele recendido cheiro aguçava mais ainda o meu apetite.
“Mamãe trabalhava continuamente para que não passássemos privações. Primeiramente, em casa de família, depois por conta própria, pois, desde que me tivera, com quatorze anos, não a contratavam mais, por ter filho pequeno e ser mãe solteira. Devia ter meus quatro anos quando, numa casa do Olho d’água, uma senhora negou-se a empregá-la, por causa de mim.
“Na Vila Palmeiras, quando eu tinha dois anos, ficava aos cuidados dos vizinhos, enquanto mamãe ía para o mangue, pegar caranguejos e sururus, para vender pelas ruas, num cofo.
“Eu era lesto, cambotinha e barrigudinho. Vivia sempre com uma pequena bacia, onde as pessoas botavam algo para eu comer. Em um dia daqueles, caí, ao subir as barreiras que me levavam para aquelas casas e quebrei a cabeça, sendo assim interrompido no exercício de minhas pernas tão andarilhas.
“Depois disso, mamãe passou a me levar consigo, para a sua labuta do dia-a-dia. Não queria mais ver como eu fiquei ao quebrar a cabeça: ensangüentado e chorando. Além do mais, eu agora era o seu estímulo na busca do nosso pão de cada dia. Mais tarde, certamente, descobriria que, em verdade, os vizinhos nem sempre estavam a postos quando das minhas traquinagens de criança e que ela é que era mesmo a minha protetora e eu o seu protegido. Descobriu, ainda, mais tarde, outro meio de passar mais tempo comigo, em casa: aprendeu, na prática, a ser manicure e, à noite, costurava à mão.
“Passara-se algum tempo, quando um senhor, contristado com a nossa situação, ofereceu-se para ser meu padrinho e realizar a festa do meu batizado, junto com a família dele. Assim, eu e mamãe passamos a contar com um número maior de pessoas a nossa volta. Eu passara, a partir dali, a ser mais mimado e ainda mais querido. E não era difícil mamãe compartilhar-me com os demais.
“Nesta viagem que faço ao passado, revivendo a criança que fui, não poderia esquecer que foi na Divinéia que, ao capinarmos um terreno vizinho, mamãe conheceu aquele que viria a ser para mim o pai que nunca tivera (até então, tinha apenas ela como mãe e pai). E aqui não poderia deixar de dedicar algumas palavras a esse homem maravilhoso, que me amou como filho, e a quem eu amarei, sempre, como Pai.
“Era mais velho que minha mãe (18 anos). Moreno, inteligente... Passou a morar conosco, aumentou a nossa casa que ficou sendo também dele. Nos quatro anos que tinha, ainda me lembro dele fazendo, com cimento, um belo e enorme coração, que depois pintara de azul e rosa e no qual escrevera: CASA
PROTEÇÃO DE SANTA TÂNIA.
“À noitinha, quando íamos para o Olho d’Água, sentávamos no sofá da sala da casa da madrinha. Meu pai, com um violão, e eu no colo de mamãe, ficávamos a ouvir as belas canções cantadas por ele. Essas canções, por algum motivo, me faziam chorar. Lembro-me que uma delas falava de um pássaro que não sabia voar, mesmo sendo grande e tendo longas asas. Chamava-se Guarapirá! - “Pássaro grande Guarapirá senta na areia não sabe voar...” Ele vigiava a casa da madrinha, que estava em construção. Chegando lá, eu ia para o terraço, que ficava frente ao mar. Dali, eu via a maré encher, ficando cada vez mais próxima.
“Quando criança, eu namorava a lua. Mas nem mesmo sabia o que era tal coisa luminosa lá no alto. Um dia, sabendo como se chamava, fiquei feliz, por estar enamorado de algo tão lindo e com um nome tão belo.
“A madrinha do meu pai, vez por outra, ía nos visitar, levando consigo um violão, para que ele tocasse, enquanto ela cantava sucessos de Clara Nunes. As canções me soavam bem, aos ouvidos. E era mágico, ver, ao longe, no mar, o navio passar com suas luzes acesas, junto a alguma outra embarcação.
“Vovô vigiava, também, uma casa naqueles arredores. O gostoso de lá era a galeria (lugar por onde passava a água da chuva para a rua). Eu escorregava no limo até o final. No fundo do quintal, havia fruteiras, criações de patos, capotes e galinhas, que faziam o seu coro diário, tornando as nossas manhãs e tardes mais alegres. Foi nessa fase que mamãe e eu nos reencontramos com parte da nossa família, até então, dispersa... (Filha de pais severos, minha mãe fora expulsa de casa, ao ficar grávida de mim)...
“Os anos se passaram e viajamos para uma nova terra, tendo que enfrentar um novo tipo de gente, novos costumes... Partimos daqui, levando conosco um irmãozinho para mim. Um bebê, que meus pais adotaram, para me fazer companhia.
“A nova terra era Brasília, que conheci já quase no final da minha infância. Lembrando esse tempo, reflito: quando eu era criança, era mais puro, mais humano... Tinha costumes, como muitos outros meninos, e até fazia coisas que os demais da minha idade faziam. Mas, eu era amigo, protetor de plantas e de animais, era calmo e gostava até mesmo de quem não gostava de mim. Tinha também o meu lado misterioso. Costumava me isolar e, calado, ficava buscando coisas novas. Era também triste, às vezes chorava à toa e cantarolava canções com aquele som que se faz com a boca fechada (hum- hum-hum!...).
“Não gostava muito de futebol, de petecas nem de soltar pipas. Achava cansativo e não me agradavam, às vezes, tais brincadeiras.
“Ah! Quando eu era criança, sentia-me outro ser. Transparente, como em frente a um espelho sem o seu aço, porém visível. Na criança que fui, aprendi a amar e a ver a vida com bons olhos. Sonhava em ser escritor. Tinha alma de poeta. Fui um irmão para tudo e para todos. Por isso, me sentia leve. Foi como criança que aprendi a estar mais perto de Deus”.
* * * * * * *
Bonito, não? Uma sensibilidade dessas, pensamos, não pode ficar confinada ao anonimato, mas tem que vir à luz e brilhar... E agora, um breve colóquio esclarecedor...
Bem, Jean, e o teu padrasto, o homem maravilhoso que te serviu de pai? “Não mora mais com minha mãe. Se separaram há alguns anos atrás”. Podes dizer o nome dele? “Leocádio Diniz Cruz. Ele se casou com minha mãe e me adotou. Eu tenho o nome dele na minha certidão. É um homem extraordinário, um referencial para mim. Infelizmente, ele e minha mãe foram se desentendendo, em várias incompatibilidades. Ele hoje é pastor missionário da Assembléia de Deus. (Silêncio) “Tive depois um segundo padrasto, Mariano Silva Araújo, com o qual não me adaptei. Também se separou de minha mãe, faz algum tempo. Ela está solteira de novo e bem remoçada, até namorando”... (Risos) E a casa com o coração de cimento, ainda existe? “Não”... E o nome de tua mãe, é mesmo Tânia? “Não, é Lucenildes Mafra Cruz”. E quem é Santa Tânia? Pensamos que seria o nome de tua mãe... “ Não, era uma santa da devoção dele, me parece que uma menina que foi assassinada no Rio, pela amante do pai... Uma história horrível, que até foi recontada há poucos tempos no Linha Direta...” Ah! Tânia Maria... É isso, o povo andou acreditando que ela virou santa, fazia milagres... (Pausa) E o bebê, teu irmão adotivo, o que viajou com vocês pra Brasília? “O Jefferson... Morreu em 2002, atropelado na Avenida dos Holandeses, quando ía para o trabalho. Era o primeiro emprego (pedreiro). Ele tava esperando o primeiro filho... Morreu junto com um colega, atropelados por um estudante de odontologia da UFMA. Nós o amávamos demais. Minha mãe ficou arrasada, deprimida... Agora é que está se recuperando”. E o teu pai biológico, vocês se relacionam? “Já o vi, mas nunca falei com ele... Minha mãe chama ele de Babito. É motorista de táxi e pertence à família Serpa”. Você parou os estudos, Jean? “Fiz magistério no João Paulo II, na Divinéia e ensinei dois anos, na Escola Primavera, no Cohatrac. Ainda pretendo prosseguir meus estudos, na área de Letras, ou Enfermagem”. E a questão trabalho, como deslanchou na tua vida? “Depois que deixei o magistério, trabalhei de garçon, por três anos, fui também vendedor de revistas, depois agente de saúde, por seis anos, na Bemfam (Sociedade Civil de Bem Estar Familiar) e por último, estou no Socorrão 2, na Cidade Operária”... E lá na Divinéia, como você se integra na Comunidade? “Muito ativamente. Fui coordenador de catequese por oito anos e me envolvo com vários movimentos e atividades, principalmente com teatro. Escrevo e dirijo as peças que representamos na comunidade, pelo Natal, pela Páscoa, pelas festas da Igreja. Não vou parar de escrever nunca”.
E assim tivemos o prazer de conhecer Jean ...
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