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A Pedagogia da Paixão segundo Almodóvar

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Em ritmo de inauguração, o cartão de visita do Cine Praia Grande
Em ritmo de inauguração, o cartão
de visita do Cine Praia Grande
Antes de qualquer coisa, é um prazer incomparável estar novamente aqui no Guesa, compartilhando com vocês, amigos leitores, os acontecimentos referentes à Sétima Arte, em nossa Ilha. Estaremos sempre atentos aos filmes em cartaz nos cinemas, lançamentos em DVD, a programação de cineclubes e nos diversos lugares onde haja o interesse em divulgar a cultura cinematográfica para a nossa sociedade insular. Para lograrmos êxito em nossa empreitada, gostaria de contar com a colaboração dos estudantes e quaisquer outros interessados que possuam alguma atividade nesse sentido, para que divulguem por aqui seus projetos e respectiva programação.

Pudemos conferir em nossas telas, no início de dezembro último e, diga-se, com grande atraso em relação ao resto do país (pra variar!), o mais recente filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar, A Má Educação, com Gael Garcia Bernal, Fele Martinez, Daniel Gimenez Cacho, Luís Homar, Javier Câmara, Nacho Pérez, Raúl Garcia Forneiro.

Tudo bem, que já estamos em 2005 e o filme já não está em cartaz. Pouco importa. O que interessa é deixar aqui registrado algumas impressões sobre a refinada película de Almodóvar.

A PEDAGOGIA DA PAIXÃO

Pedagogia, porque Almodóvar nos dá uma verdadeira aula de cinema, na condição de grande mestre que é. E paixão, porque a última cena do filme é um close na palavra PASIÓN (paixão) até que a mesma fique gigante na tela, fora de foco, ilegível. Nada mais obscuro do que a paixão e vocês hão de concordar comigo, amigos leitores.

Ao início da projeção, o que vemos nada mais é do que um filme dentro de um filme. Almodóvar utiliza a metalinguagem, ou seja, o cinema falando sobre o próprio cinema, de forma magistral como o fez o diretor francês François Truffault em A Noite Americana.

O centro da narrativa é a crise criativa do cineasta Enrique Serrano (Fele Martí-nez), que busca desesperadamente um enredo para seu próximo trabalho. Enquanto vasculha os jornais em busca de alguma notícia que lhe renda alguma história interessante para ser adaptada, Serrano recebe a visita de um amigo dos tempos do colégio chamado Ignácio Rodríguez (Gael Garcia Bernal), que, ansiando por fama e sucesso, lhe oferecia seus serviços como ator profissional e também uma história de sua própria autoria, inspirada na infância dos dois num colégio de padres, onde, juntos, os amigos descobriram o amor e a paixão pelo cinema. Cabendo, nesse ínterim, uma crítica à igreja católica, de onde, desde sempre, chegam aos nossos ouvidos escabrosas histórias de padres que abusam sexualmente de crianças indefesas. Nesse sentido, lembrei de Nietzsche, que sempre criticou em seus escritos essas instituições constituídas geralmente por pessoas fracas, que não têm coragem de assumir seus desejos perante o mundo, e se escondem atrás de muros. Dentro de suas batinas inflamam-se de desejo por aqueles que estão vulneráveis à sua autoridade e poder e a quem somente resta medo, culpa e um perturbador silêncio que trespassa e compromete vidas inteiras.

Serrano lê avidamente o manuscrito de A Visita, acometido de pueris lembranças, e decide adaptar para o cinema o texto do amigo. Daí em diante, o que vemos projetado na tela são ora o filme de Serrano, ora o filme de Almodóvar. Serão eles a mesma pessoa? Esse é outro traço marcante de A Má Educação – seu caráter autobiográfico. Realmente, podemos reconhecer na película muito da vida de Almodóvar, pois sua educação (má ou não), também se deu num colégio de padres, com freqüentes idas ao cinema e à literatura, para preencher o vazio da solidão, já que ele se considerava diferente das outras crianças. E mais, os loucos anos pós-Franco, ou simplesmente a Movida Madrileña (movimento de intelectuais que buscavam renovar a sociedade espanhola), a pop arte, o kitsch, as drogas, os travestis, e até mesmo seu método de trabalho - que consiste em buscar nos jornais alguma notícia que lhe rendesse uma boa história para adaptar – revelam indisfarçável semelhança com a vida do diretor espanhol. Afinal, não foi à toa que de um recorte de jornal saiu o argumento de seu penúltimo filme Fale com Ela, em que uma mulher acorda após anos em coma. Esses são alguns elementos da refinada trama de A Má Educação.

Almodóvar reconhece que esse é seu filme com mais referências pessoais. Pessoal, porém não autobiográfico. Será?

Como disse antes, A Má Educação é uma verdadeira aula de cinema, uma obra de beleza plástica admirável, atuações brilhantes e purpurinadas, principalmente as do galã mexicano Gael Garcia Bernal, que dá literalmente um show na pele de vários personagens, sobretudo interpre-tando a performer Zahara, um misto de mulher, acaso e deserto.

Portanto, amigos leitores, não levem em consideração o fato do filme já ter saído de cartaz, pois muito em breve o mesmo estará disponível nas locadoras. Fica aí a dica para os que o perderam na tela grande.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br