Anuário #03 - São Luís, 2005
Busca 



 


Galeria de anônimos ilustres
Respirando
A Pedagogia da Paixão segundo Almodóvar
Lopes Bogéa, o Profeta de Jericó
Das Rubaiyat de Omar Khayyam; ao Mundo e Eu, de João Mohana
Editorial

Edição 97

Lopes Bogéa, o Profeta de Jericó

Diminuir corpo de texto Aumentar corpo de texto

Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Índice Texto Anterior Próximo Texto 
Lopes Bogéa
Lopes Bogéa
Sou pedra bruta, procurando me lapidar...” (1) A frase, registrada no seu livro À Luz de um Novo Dia, já rascunha o caráter do compositor, escritor e jornalista Lopes Bogéa, falecido em 13 de dezembro de 2004, vítima de metástase, após cirurgia para a retirada de um tumor intestinal.

Nessa obra, publicada em 1976, ele relata em versos a sua evolução no universo maçônico, com o ascetismo de um ourives que busca a perfeição do rubi. Dá pistas de uma vida repleta de histórias e desventuras que ainda não foram devidamente contadas.

Já posto no forno pelo compositor maranhense Zeca Baleiro, será mantido o projeto de registrar em CD cerca de 17 músicas de Lopes Bogéa. Uma pequena e importante amostragem da obra desse autor, que possui mais de 300 composições, em sua maioria inéditas.

Algumas, como o coco Pamonha, inspirada nos pregões locais, são de uma simplicidade franciscana:

Pamonha, Pamonha, Pamonha...
Tá quentinha!
A pamonha só é boa
quando é feita por dindinha. (2)


A intenção era o próprio Bogéa cantar suas músicas. Foi várias vezes ao estúdio, mas, já castigado pela doença e com o fôlego comprometido, o material gravado não pôde ser aproveitado. “Vamos retomar após o carnaval esse trabalho, que terá a participação de intérpretes locais e nacionais”, anuncia Zeca.

Esse registro, que chegou a despertar o ânimo do Velho Moleque na Terra, certamente vai ser motivo para um verdadeiro rendez-vous nas Alturas, para onde estão se mudando os melhores apóstolos da música maranhense.

PRESEPADAS DO JOÃO

João Batista Lopes Bogéa, filho caçula de Antônio Pinho Bogéa e Euzébia Lopes Bogéa, nasceu em Jericó, município de Guimarães (MA), no dia 24 de junho de 1926, com fogueira acesa e bumba-meu-boi troando. Com apenas um ano, foi trazido para São Luís e criado pela irmã Domingas Lopes dos Santos, esposa do vidraceiro João Lélis dos Santos.

Talvez inspirado no santo, o pai adotivo construiu logo a bacia em que Lopes iria tomar banho – uma espécie de Jordão domiciliar. A casa ficava na rua Cândido Ribeiro, antiga rua das Crioulas. São Luís, na época, significava também a possibilidade de estudar para quem saia do interior.

Lopes Bogéa freqüentou os colégios Sousândrade, Maristas Champagnat e Ateneu Teixeira Mendes, depois ingressou na Escola Técnica de Comércio do Centro Caixeiral. Em 1953, concluiu o curso de contabilidade e tornou-se professor, depois de anos trabalhando com o pai na Vidraçaria São João Batista.

Apesar da boa referência bíblica, João Batista (o compositor) não era tão santo assim. Devido às presepadas que aprontava, o pai decidiu colocá-lo na Ordem 17 de Outubro, da maçonaria, em 18 de agosto de 1954. Passou a freqüentar as reuniões do templo e a tomar juízo. “ Me endireitei”, como ele mesmo dizia. Em parte, data vênia.

Bogéa era um aguerrido questionador das políticas culturais. Não esperava ovo no fiofó da galinha. Tirou do bolso a publicação de quase toda sua obra literária, que inclui À Luz de um Novo Dia (1976), Prosopopéia (1979), Pregões de São Luís (1980), Pedras da Rua (1988) e Quadriculando (1993). Deixou inéditos Presépios e Pastorais, Crônicas e Croniquetas, Pinceladas em Aquarelas.

Pregões de São Luís, depois de ter seus textos musicais gravados em vinil (1988), foi reeditado pela FUNCMA, em 1998, e novamente gravado em CD, sob o título de Pregoeiros, com arranjos de Ubiratan Souza, onde se destacam faixas como o samba-maxixe Pião:


Roda, roda, roda, roda
meu piãozinho de coco.
Na palma roda o meu mundo,
lá fora o mundo é de louco...


A primeira música de Bogéa, Manchete de Jornal, foi composta em 1954. Depois teve várias obras gravadas por Ary Lobo, como 350 Anos de São Luís, em parceria com João do Vale (RCA/1962), Romeiro (Copacabana/1963) e Papai Noel do Rico e do Pobre (CBS/1972). Outras foram registradas por Nonato e Seu Conjunto, grupo Cobras do Norte e cantores locais, como Fernando de Carvalho que recentemente gravou Hora dos Anjos em seu disco de Natal.

Participou, também, ao lado de Cristóvão Colombo, Agostinho Reis e Antônio Vieira, do Compacto Velhos Moleques (Sotaque Produções/MUS, 1986), onde gravou Encruzado.

Não obstante a sua empírica formação musical, Bogéa foi regente do Sexteto Musical e da Orquestra São Luís, em 1964, com o apoio do pianista Ribamar Costa Filho. Mas também abraçou a batucada. Foi ele quem deu nome à escola Flor do Samba, foi seu primeiro padrinho e ganhou o primeiro “campeonato” com Aquarela do Brasil, em 1976.

Enveredou pelo jornalismo, a princípio como rádio-escuta da Rádio Timbira do Maranhão, onde, entre 1966 e 1973, foi diretor artístico, repórter e redator. Foi ainda colaborador do Jornal Pequeno e conselheiro da Ordem dos Músicos do Maranhão. Antes, porém, recebeu conselhos de Dona Leutres da Silva Bogéa, com quem se casou em 1969, mudando-se para a rua Riachuelo, no bairro do João Paulo.

Com ela teve dois filhos: Jorge e Heleudes da Silva Bogéa, médica veterinária e guardiã do espólio deixado por Lopes, que inclui uma imagem do padroeiro e padrinho São João Batista, numa redoma de vidro.

Bastante piedoso, dedicou 50 anos de sua vida ao Asilo de Mendicidade de São Luís, onde era Diretor de Patrimônio, sendo também porta-estandarte da loja maçônica Renascença Maranhense e membro-fundador da Academia Maçônica de Letras, ocupando a cadeira nº 18, cujo patrono é o escritor José Nascimento Morais.

Foi exonerado do cargo de fiscal de renda por motivos políticos e, finalmente, aposentou-se pelo INSS.

“ Torço para que esse velho teimoso jamais perca esta marca tão nossa, tão dele (...) Lopes Bogéa ilustra a tese de que ser criador, em arte, não basta um código genético, mas é também indispensável uma (...) disciplina infatigável”, dizia o padre João Mohana, que se destacou como pesquisador do romanceiro musical maranhense.

A CABEÇA DO SANTO

Bogéa era tido como uma espécie de “profeta”, assim como João Batista, filho de Zacarias e Isabel, que anunciou a vinda do primo Jesus. Em 1972, quando a firma Serveng-Civilsan concluiu as obras iniciais do Porto do Itaqui, ele fez a música Exaltando Minha Terra, onde apregoa a chegada de uma siderúrgica em São Luís.


Minha terra é de esperança,
O progresso lá avança
Cada dia, dia mais...
Siderúrgica chegando,
Itaqui-Porto exportando
Minério de Carajás...


Na verdade, a Amazônia Mineração S.A. (AMZA) já havia sido instalada para adiantar terreno, visando a exportação de minério de ferro, cuja prospecção se iniciara em 1967, na Serra de Carajás pela US Steel. Logo a CVRD abocanharia a empresa, lançando em 1979 o Programa Grande Carajás.

Bogéa só não previra que tal siderúrgica, antes de ser implantada, seria objeto de um Deus-nos-acuda em torno dos impactos sociais e ambientais na ilha, dividindo ecologistas e políticos, o que não impediu o compositor de continuar auferindo adjutórios dos céus.

Em julho de 1973, por ocasião do Centenário de Santos Dumont, recebeu diploma e medalha de prata do Ministério da Aeronáutica pelo hino O Pai da Aviação. Abiscoitou ainda, em 1999, a medalha do Mérito Timbira e, no ano seguinte, homenagens do SESC, da Câmara Municipal e do Conselho Comunitário da Madre de Deus, além do Troféu Zé Pequeno, do JP, em 2004.

A veia mística de Bogéa revela coincidências geo-bíblicas com o padrinho festeiro, se levarmos em conta que o rio Jordão, onde o São João Batista fazia pregações e batizou Jesus, era próximo de Jericó, mesmo nome do povoado de Guimarães, onde o compositor nasceu.

Porém, diferentemente do santo, que comia gafanhotos no deserto da Judéia, o nosso João Batista engoliu muitos sapos. Em 1975, a sua música Romaria, com arranjo do Pe. Jocy Rodrigues, fez parte do repertório do Coral da Universidade Federal do Maranhão no III Festival Internacional de Coros de Porto Alegre-RS.

Com essa música, o grupo maranhense arrebatou o primeiro lugar no festival e pouco depois gravaria um LP. Para surpresa de Lopes Bogéa, a campeã Romaria não foi incluída no disco e nenhuma explicação foi dada pelo diretor do coral, Prof. Mário Cella.

Nessas ocasiões, ele recorria ao Livro de Jó. Mas nem todo bom samaritano é de ferro.“ De vez em quando perdia a paciência, chegando mesmo a destruir muitos de seus escritos”, conta Heleudes, desfazendo, porém, o mito de que o poeta era muito esquentado e que as pessoas tinham de pensar duas vezes antes de visitá-lo. “Era, na verdade, bastante divertido”.

Heleudes diz que ultimamente ele passava o dia em sua Clínica Veterinária (também São João Batista), anexa à residência da família, no João Paulo. Lá instalado, abria os jornais, cumprimentava quem passava pela rua e empenhava-se em atender ao telefone. Quando perguntavam quem era, respondia: “É o vigia!”.

Se não conseguiu de todo lapidar-se como gostaria, Lopes Bogéa, pelo menos, a exemplo de Pedro, tornou-se uma das pedras do alicerce sobre o qual se ergueu o templo, não só da música maranhense, mas também de uma literatura, cuja argamassa é a alma do seu povo, tão querido por ele e tão desprezado pelo poder.

Bogéa era tão inimigo da hipocrisia e da imoralidade quanto São João Batista. Mas, para não ter sua cabeça servida numa bandeja a Salomé (não aquela que fazia doce de buriti, mas a filha de Herodíades, mulher de Herodes Antipas), fechava o corpo com uma lapada da Melindrosa e costumava cantar:


Não entra contrário
que eu cheguei primeiro,
não entra guerreiro
que esse terreiro é meu...

(1) BOGÉA, Lopes. À Luz de um Novo Dia. São Luís: Gráfica Maranhense, 1976, p.21
(2) BOGÉA, L. e VIEIRA, A. Pregões de São Luís (2ª ed. rev.) São Luís: Edições FUNCMA, 1999, p.85-86.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Copyright 2005 Jornal Pequeno. Todos os direitos reservados
Email: info@guesaerrante.com.br