Anuário #03 - São Luís, 2005
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Das Rubaiyat de Omar Khayyam; ao Mundo e Eu, de João Mohana
Editorial

Edição 97

Das Rubaiyat de Omar Khayyam; ao Mundo e Eu, de João Mohana

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Que em cada dia de 2005, o Sol nos encontre despertos e nos toque os corpos, radiantes e dispostos, indo de encontro sempre ao presente e ao Oriente, acordados bem antes do amanhecer. Assim, seremos tomados pela sensação de que vivemos um pouco mais do que esperávamos.

Para compartilharmos da sabedoria desse mistério do dia presente, fomos intuídos a procurar ouvir, ler e encontrar o que de melhor foi falado ou escrito sobre o assunto, através de poetas iluminados e transfigurados como o Qohelet ou Eclesiastes (Salomão), Jesus Cristo (via Apóstolos), Omar Khayyam, Rabindranath Tagore, João da Cruz e João Mohana. Entre eles há um denominador comum, a busca de viver o dia presente com amor, entusiasmo e alegria. Mesmo Khayyam e Eclesiastes (Qohelet ou Salomão), que são extremamente agnósticos ou pessimistas e quase almas gêmeas, em se tratando de viver, optam pelo dia presente. Como Cristo, eles propõem que o dia de ontem e o dia de amanhã não sejam senão referências comparativas que estimulem a viver melhor o presente. Concentrar-se no presente, eis uma terapia capaz de varrer de nossos organismos todos os radicais livres do corpo, da alma e do espírito, como diriam Cristo, Omar Khayyam e o escritor João Mohana.

O amor conjugal, Khayyam o celebra como o fez Salomão em O Cântico dos Cânticos, com paixão, alegria, suavidade, encanto, magia, enternecimento e erotismo.

Observemos como as concepções do Qohelet, Cristo, Omar Khayyam e João Mohana se casam. Eles são pragmáticos e existencialistas e propõem a prática do Carpe diem horaciano (Odes,1,11,8): Aproveite o dia presente!, ou seja, o dia de hoje.

Omar Khayyam, em alguns momentos, tem pontos-de-vista extremados: Feliz o que expirou / No dia em que nasceu / Mais feliz ainda quem / Não chegou a nascer! Estes versos são ressonâncias do Eclesiastes, ou melhor, releitura do ponto de vista da paráfrase poética. O agnosticismo (pessimismo, pragmatismo) que revela, tem como fonte o próprio Eclesiastes, tão bem relido pelo poeta persa que, também, melhor do que ninguém no campo literário, dialoga com o pensamento de Cristo, de um ponto de vista da mais coerente praticidade, o que exclui de seus textos quaisquer ranços de distorção, tendenciosidade ou hipocrisia.

Esperamos que tirem proveito desta nossa proposta da Missa do Galo, a missa do galo mesmo, que com o seu canto firme e estridente nos abala, acorda e alerta para o dia presente que começa na madrugada de todos os dias do ano, antes dos primeiros raios de Sol ou com os beijos da Aurora com sua boca cor-de-rosa.

A vigília na madrugada possibilita o privilégio de privar do silêncio, do recolhimento e da meditação, num momento em que a maioria dorme e repousa.

A importância do texto poético de Omar Khayyam, por exemplo, está na longevidade que ele conseguiu atingir. As Rubaiyat têm uma contemporaneidade impressionante. São como os vinhos excelentes, quanto mais velhos, melhores.

Há algo de moderno, de autêntico, de atual na filosofia de vida que o poeta nos passa.

Omar Khayyam é simultaneamente um poeta de mil anos atrás e de hoje. Portanto, um poeta perene e inesgotável.

É imperdível o diálogo que, através das Rubaiyat, Omar Khayyam estabelece com os grandes sábios do passado e, ao mesmo tempo, com os textos que nos legaram.

Primeiro ele dialoga com a milenar filosofia chinesa que vai do Tao-Te-King, de Lao-Tsé, à genial poesia de Su Tungpo e estabelece com estes um encadeamento com o pensamento bíblico do Qohelet ou Eclesiastes que, em hebraico, significa pregador, e são pseudônimos de Salomão. Com esses poetas comunga um anseio de sinceridade e verdade diante da vida humana, do ponto de vista de sua provisoriedade biológica e da sobrevivência sobrenatural. Cruza linhas de pensamentos que incluem pragmatismo, agnosticismo, realismo, pessimismo, amor, paixão, perdão e compaixão. Pois Khayyam sempre esteve bem antenado com a filosofia de vida de Jesus Cristo.

Com rara habilidade e simplicidade, ele intertextualiza, relê, desconstrói e reelabora com novos arranjos os textos dos sábios iluminados e transfigurados do passado que o antecede, dando-lhes mais verossimilhança com o pão-nosso-de-cada-dia.

O padre João Mohana nos trouxe uma terceira via de leitura desse manancial perene e consolador que nos vem de Cristo através dos Evangelistas, contemplando particularmente o Sermão da Montanha, em O Mundo e Eu, obra indispensável hoje para que se tenha uma melhor compreensão da Boa Nova.

Com sabedoria, quer dizer, com humildade e simplicidade ele conversa conosco sobre a vida, sobre o caminho da vida, demonstrando que, com humildade, amor, perdão e compaixão, a dor de viver pode ser transcendentalizada, para usarmos aqui uma palavra tão belamente inspirada do poeta Cruz e Sousa, Somente a dor nos transcendentaliza!

Quando temos amor a nós mesmos, adquirimos a capacidade do perdão e do compadecimento. Então, podemos deixar de ser hipócritas e viver de maneira alegre e autêntica o momento presente, transformando a sua fugacidade, brevidade e precariedade em eterna lembrança na memória.

Omar Khayyam

Omar Khayyam nasceu e morreu em Nishapur, província de Khorassan, na Pérsia (1050-1123). Foi poeta, mas em vida era conhecido, sobretudo, como matemático e astrônomo.

Seus poemas estão impregnados pela filosofia agnóstica: não se pode negar nem afirmar coisa alguma, devemos contentar-nos com saber que tudo é mistério – a criação do mundo e a nossa, o destino do mundo e o nosso, jamais saberemos nada, jamais elucidaremos um só dos mistérios do universo; pelo seu imediatismo: goza o momento que passa, não te preocupes com o passado, nem com o futuro - o passado é um cadáver que se deve enterrar; o futuro é indevassável, os homens falam de um Paraíso depois da morte, mas é bem possível que ele não exista e, portanto, cria um paraíso para teu gozo na terra, [...]


Rubaiyat

1
Sabem todos que nunca
Murmurei uma prece.
Sabem todos que nunca
Escondi meus pecados.

Ignoro se realmente
Existe uma Justiça
E uma Misericórdia.
Nada temo no entanto.

Nada temo. Antes, nelas,
Se é que existem, confia
Minh’alma, porque sempre
Fui um homem sincero.

2
O que é melhor? Sentarmo-nos
Numa taverna e o exame
De consciência fazermos,
Ou bem numa mesquita

Prosternarmo-nos de alma
Fechada? Não me inquieta
Saber se um Senhor temos
E o que fará de mim.

3
(Releitura da Boa Nova, particularmente do Sermão da Montanha)

Olha com indulgência os homens
Que se embriagam. Dize que tens
Outros defeitos. Se quiseres
Ter a paz, a serenidade,

Volta-te para os deserdados
Da existência, para os humildes
Que sob o peso do infortúnio
Gemem, e sentir-te-ás feliz.
4
Procede sempre de maneira
Que de tua sabedoria
Nunca sofra o teu semelhante.
Domina-te. Jamais te entregues

À ira. Se queres chegar
Um dia à paz definitiva,
Sorri aos golpes do Destino,
E nunca batas em ninguém.

5
(Releitura do que o Eclesiastes e Cristo disseram sobre as preocupações com o dia de ontem e o dia de amanhã)


Não vos preocupeis (não vos inquieteis, não andeis ansiosos) pois com/pelo dia de amanhã, pois o dia de amanhã cuidará de si mesmo (pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações ou pois o amanhã se preocupará consigo mesmo). Basta a cada dia o seu próprio mal (Basta a cada dia o seu trabalho)., Mateus 6,34

Uma vez que se ignora o que é que nos reserva
O dia de amanhã, busca ser feliz hoje.
Vai sentar-te ao luar e bebe. Pois talvez
Não vivas mais quando amanhã voltar a lua.
(Rubaiyat)
[...]
12
Nenhum poder sobre o destino
Te foi dado, sabes. Portanto
Que adianta a ansiedade em que ficas
Pela incerteza do amanhã?

Então, se és um sábio, procura
Tirar do momento presente
O maior proveito possível.
O futuro o que te trará?

13
Chegada é a estação inefável,
A estação da esperança, quando,
Impacientes por expandir-se,
Buscam as almas a aromada

Solidão. Cada flor que cheira
Será a branca mão de Moisés?
Será cada brisa que sopra
O doce hálito de Jesus?

14
Não anda firme em seu caminho
O homem que não colheu o fruto
Da verdade. Se conseguir,
Porém, da árvore da Ciência

Arrebatá-lo, saberá
Que passado e futuro em nada
Diferem daquele enganoso
Primeiro dia da Criação.
15
Além da Terra e do Infinito
Eu procurava o Céu e o Inferno.
Mas uma voz solene disse-me:
– “Procura-os dentro de ti mesmo”.
[...]

20
Mais rápido que a água do rio,
Que o vento do deserto, escoam-se
Os dias. Dois não me interessam:
São o de ontem e o de amanhã.

21
Não posso evocar o dia
Do meu nascimento, nem
Dizer quando morrerei.
Que homem saberá fazê-lo?
[...]

23
É inútil, Khayyam, penares
Por teres pecado tanto.
Depois da morte só existe
O nada ou a Misericórdia.

24

(Kayyam reflete sobre a vida após a morte e, aqui, o seu pensamento bate com o do Eclesiastes)

Nos conventos, nas sinagogas
E nas mesquitas é costume
Irem refugiar-se os fracos
Que a idéia do Inferno apavora.

O homem que conhece a grandeza
De Deus não acolhe em sua alma
As sementes más do terror
E da imploração lamentosa.
[...]

28
Convence-te disto:
Um dia tua alma
Deixará teu corpo
E serás lançado

Para trás do véu
Que há flutuando sempre
Entre este Universo
E o desconhecido.

Enquanto esse dia
Não chega, procura
Ser feliz. Esquece
Todo outro cuidado.

Pois não sabes de onde
Vens, tampouco sabes
Para onde irás
Depois de tua morte.

29
Os doutores e os sábios mais ilustres
Caminharam nas trevas da ignorância.
O que não impediu que em vida fossem
Tidos por luminares do seu tempo.

Que fizeram? Pronunciaram
Algumas frases confusas
E depois adormeceram
Para toda a eternidade.
[...]

31
Ninguém pode compreender
O que é mistério, ninguém
Pode ver o que se esconde
Debaixo das aparências.
[...]

85
Amigo, não faças plano
Para amanhã. Sabes lá
Se poderás terminar
A frase que vais dizer?

Talvez bem longe amanhã
Estejamos deste albergue,
Já iguais aos que faleceram
Há mais de sete mil anos.
[...]

95
Não pedi para nascer.
Forcejo por aceitar,
Sem cólera nem espanto,
O que a vida me oferece.

E quando me for embora,
Partirei sem indagar
Explicação desta minha
Estranha estada na Terra.


(KHAYYAM, Omar. Rubaiyat. Tradução de Manuel Bandeira. Rio de Janeiro:Ediouro Publicações S.A., 2001, p.11-15; 21-24; 28; 30; 34-35; 75; 84)


João Mohana

O escritor e padre João Mohana, em sua Biblioteca
O escritor e padre João Mohana, em sua Biblioteca
O sacerdote João Mohana nasceu em 1934. Médico formado pela Universidade da Bahia. Exerceu a profissão durante cinco anos, ao longo dos quais se dedicou também ao estudo da Psicologia. Mais tarde, aprofundou seus conhecimentos nas áreas de Filosofia e Teologia.

Autor de uma vasta obra, entre elas A Vida Sexual de Solteiros e Casados e O Mundo e Eu.

Stress

Os laboratoristas fazem hoje um exame cuja finalidade é pesquisar a taxa de adrenalina no sangue. A adrenalina é um hormônio secretado pelas glândulas supra-renais. O aumento deste hormônio no sangue – chamado em linguagem técnica: hiperadrenalinemia – provoca no organismo humano um emaranhado de sintomas, que pode ser tanto mais emaranhado quanto mais alta for a taxa de adrenalina circulante e tanto mais suscetível for o organismo. Hipertensão, rupturas capilares, palpitações cardíacas, ruborização incontrolável, dores, suores profusos, oscilação térmica, instabilidade de pulso, mal-estar respiratório, agitação nervosa, derrame cerebral, paralisias parciais, edema pulmonar agudo, enfarte, etc. – são todos sintomas e sinais de adrenalina aumentada na corrente circulatória.

Um médico norte-americano, Dr. Cannon, foi quem primeiro teve a idéia de dosar a taxa de adrenalina numa pessoa antes e após uma atitude raivosa.

O resultado foi surpreendente. Antes da raiva a taxa de adrenalina estava normal. Depois da raiva, subira vertiginosamente.

Isto quer dizer que nos momentos de raiva, de ódio, as glândulas supra-renais são excitadas e aumentam a descarga de adrenalina no sangue, assim como, quando vemos alguém espremer um limão, as nossas glândulas salivares descarregam saliva.

A diferença está em que a adrenalina é bem diferente da saliva, e que o excesso não pode ser eliminado com uma cusparada.

Um teólogo, ao tomar conhecimento desse fato, põe-se logo a pensar nas implicações éticas e passa a admirar o silêncio que envolveu a divina sabedoria. Deus rotulou de pecado a raiva consentida, o ódio, o rancor, a vin-gança, e nos pediu que perdoássemos os que nos tentam a cometer esses pecados, a fim de nos livrar da hiperadrenalinemia e de todo o seu macabro cortejo patológico.

Não sabíamos dosar a adrenalina, nem sabíamos que existia a adrenalina, e Deus já nos defendia dos efeitos dela.

Mais sério, ainda, é isto: hiperadre-nalinemia e pecados de ódio são fenômenos irreversíveis. Estrangulam a pessoa dentro dum círculo vicioso. Quanto maior é a raiva, maior é a hiperadrenalinemia; e quanto mais aumenta a adre-nalinemia, mais aumentam os efeitos raivosos. Quanto mais pecador se torna, desse tipo de pecado, mais hipertenso se torna. E vice-versa.

Este círculo vicioso só o perdão vence.

Imagine o leitor uma pessoa já habi-tualmente hipertensa, ou com tendência à hipertensão. Imagine essa pessoa vi-vendo habitualmente num estado de ódio, cristalizada no rancor e no desejo de vingança. Pobre corpo no furacão. Nem a defesa das janelas fechadas pode ter. Porque a fúria é dentro.

Mas não é preciso que seja um pe-cado vulcânico, para provocar repercussões somáticas, corporais. Não. Aquele pecado silencioso, velado, que ninguém suspeita, que só Deus e eu conhecemos, esse pecado que é um pano-de-fundo em meus dias, que deita comigo e acorda comigo, que franze o rosto por dentro quando encontro Fulano, que franze o rosto por fora quando eu me lembro que Sicrano existe, esse pecado de indiferença, de silêncio educado, de frieza etiquetada, de orgulho porcelanoso, de críticas veladas ou ostensivas, de inveja, de ciúme mórbido, esse pecado de aspereza sistemática embora jamais de rompantes, este pecado afeta o organismo, quer deitado quer de pé. Eriça o sistema neurovegetativo, superexcita as glândulas gástricas, transformando o estômago num saco superácido, e a boca num hall em mesmo estilo, distoniza a vesícula biliar, perturbando a função digestiva do fígado, ou então vulnera a parede do duodeno e do estômago, causando úlceras gastroduodenais, podendo inclusive atingir o colo, provocando colites. [...]

Há poucos meses tive ocasião de conversar com uma peregrina de consultórios e farmácias. Se, entre as receitas que recebeu, tivesse recebido uma prescrevendo perdão para a cunhada, teria obtido por menor preço o que todo o dinheiro não conseguiu comprar. “Perdoai as minhas ofensas assim como eu perdôo a quem me tem ofendido.” (Mt 6, 12). Esta fórmula é um cheque de saúde. [...]

Gosto de encontrar na pena do evangelista São Lucas, que por sinal era médico, aquela insistência em armar-nos espiritualmente para a defesa de nossa saúde.

“Não andeis demasiadamente preocupados com a vossa vida, pelo que haveis de comer; nem com vosso corpo, pelo que haveis de vestir. A vida vale mais do que o alimento e o corpo mais do que a roupa. Observai os corvos, eles não semeiam, nem ceifam, nem têm despensa nem celeiro, entretanto Deus os sustenta. Não valeis mais do que eles? Olhai como crescem os lírios, não fiam nem tecem, contudo, digo-vos, nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada ao fogo, quanto mais vós, homens de pouca fé! Não vos atormenteis com o que haveis de comer ou beber; e não andeis com vãs preocupações.” (Lc.12, 22-30)

Como é forte este não vos atormenteis. Não vos preocupeis, não vos aflijais, não vos angustieis, não vos inquieteis, não desespereis. Dedicai-vos sobretudo ao presente, concentrai-vos no momento que está passando. Como é terapêutico. Ou antes, como é profilático. Um cristão tem o direito, e o dever, de se ocupar do futuro. “Quem de vós, querendo edificar uma torre, não se senta antes para calcular os gastos, a fim de ver se tem com que concluí-la?” (Lc 14,28.) Mas jamais tem o direito de se preocupar. “O pão nosso de cada dia dai-nos hoje.” (Mt 6,11)

Não é uma doutrina maravilhosamente antistressora? Ao mesmo tempo em que nos impele a uma atuação leal e saudável, livra-nos do cinismo, que é a abdicação de qualquer esforço. [...]

Prescrevendo várias virtudes distensoras, Deus não nos armou para as tensões da vida?

Recomendando a alegria, Deus não defendeu antecipadamente o equilíbrio nervoso de todos os atentados da tristeza? (Mt 5,11-12.)

É pouco sabido que a alegria é uma imperiosa virtude cristã e a tristeza consentida é um pecado, pecado grave até, se a tristeza é dessas que é ramal do desespero. Não sendo pecado (quando apenas sentida), a tristeza é ainda condenável, por ser fácil ocasião de pecado, tapete psicológico macio para as pantufas do demônio.

Em hipótese alguma a teologia vê a tristeza com bons olhos.

Nem em ocasiões de ascese Deus permite a tristeza. “Quando jejuardes não fiqueis tristes como os hipócritas, que mostram um semblante abatido, para manifestar aos homens que jejuam. Quando jejuardes, perfumai vossa cabeça e lavai vosso rosto...” (Mt 6,16-17)

(MOHANA, João. O Mundo e Eu. São Paulo: Livraria Agir Editora, 1984, p.15-17,18,22,24)

João da Cruz

Nasceu na Espanha em 1542, onde morreu em 1591. Foi o fundador da Ordem dos Carmelitas Descalços.

A doutrina de João da Cruz se fundamenta em alguns princípios de radicalidade total. Visam a mesma meta: a união amorosa com Deus. Sua existência é movimentada e atribulada numa experiência interior que atinge os cumes da união mística.

Este poema, por exemplo, é tipicamente uma releitura sintética do pensamento que Lao-Tsé expressa no poema Tao-Te-King, cujas versões e/ou traduções de auto-ajuda nem de longe correspondem às traduções originais do texto poético.

O princípio básico de Lao-Tsé é o seguinte: A busca da plenitude e da sabedoria começa pelo esvaziamento pois, se o cidadão já se sente pleno de sabedoria, embora, talvez não saiba de nada, não está aberto para receber mais nada, pois já acha que está senhor da situação. Em outras palavras, o texto do Tao-Te-King nos ensina que tudo começa com o primeiro passo, cuja base são a simplicidade e a humildade. O que já está cheio, se lhe pomos algo a mais, transborda. Só o que está vazio, poderá vir a ficar pleno. Ouçamos Juan de la Cruz:

Para chegar a saborear tudo,
não queiras ter gosto por nada.

Para chegar a saber tudo,
não queiras saber de coisa alguma.

Para chegar a possuir tudo,
não queiras possuir nenhuma coisa.

Para chegar a ser tudo,
não queiras ser nada.

Para chegar a não ter gosto,
deves ir por onde não gostes.
Para chegar ao que não sabes,
deves ir por onde não sabes.

Para chegar a possuir o que não possuis,
deves ir por onde não possuis.

Para chegar ao que não és,
deves ir por onde não és.

Quando te demoras em alguma coisa,
não estás te lançando em direção a tudo.

Para chegar inteiramente a tudo,
em tudo deves te abandonar.

E quando chegares a ter tudo,
Deves tê-lo sem nada querer”.


(SESÉ, Bernard. João da Cruz, Pequena Biografia. São Paulo: Paulinas, 2000, p.110)


Rabindranath
Tagore


Rabindranath Tagore nasceu em 6 de maio de 1861 em Giorosonko, em Calcutá, Índia, onde morreu em 7 de agosto de 1941.

Foi simultaneamente poeta, filósofo, romancista, novelista, dramaturgo, compositor musical, epistológrafo, pintor e crítico literário.

Tagore sonhou, aspirou todos os ideais relacionados com a realidade espiritual de Bengala e da Índia, no século XIX. O século XX encontra nele a maior representação das manifestações e expressões espirituais no panorama universal, por isso a sua vida foi um evento extraordinário para a história do mundo inteiro.

Em seus poemas, Tagore previu, profetizou essas calamidades que ha-veriam de se abater sobre a África e a Ásia, se a Índia continuasse a deixar-se contaminar pelo capitalismo selvagem do Ocidente. A Onda da Morte, Tsunami, que atingiu treze países do Oceano Índico, particularmente a Indonésia, a Tailândia e o Sir Lanka, matando mais de 160 mil seres humanos, não seria surpresa para ele, se estivesse vivo. Teria sido, sim, uma profunda tristeza.


Última Prece

Esta é minha última prece:
com mão firme e forte,
arranca de mim toda a minha fraqueza,
peço-te do íntimo do coração,
ó meu Senhor!
Ficando difícil a felicidade,
dá-me forças na dor
para que ela,
serena e sorridentemente,
possa esquecer-se a si mesma.
Dá-me forças na devoção
para que eu floresça na virtude,
nas afeições e no amor
e frutifique no trabalho.
Dá forças aos pequenos
para que não se aviltem
nem se curvem diante do poder.
Dá forças a meu espírito
para que eu possa engrandecer
as pequeninas coisas
do dia-a-dia.

Dá-me forças quando eu repousar
minha cabeça
a teus pés, para que eu possa
ser para sempre inabalável.
(p.147)


Tesouros

Ó Honorável, dá a meu espírito
a graça de não misturar
as perdas do espírito
com as perdas de bens.
O valor eterno
das riquezas de que está repleta
tua terra inteira
e, destes prados tão distantes,
o céu da luz, do canto,
dos tesouros de beleza,
permaneçam sempre em meu espírito livre,
firme, sereno, simples e contente.

Jamais eu culpe o destino.
Que não me desgoste
por qualquer dor,
por qualquer decadência ou perda
de ínfimas porções
em todo o universo.
Não tenho e não tenha lugar
na sociedade dos ricos;
que meu trono no mundo
esteja em todos os lugares.
Ó Deus, desejo ardentemente
esta graça!
(p.120)

Galgar o Cume

Já que, ó Rei, para abaixar-se
diante d (p.81)
Diante de Ti
Cada dia,
ó Doador da vida,
estarei diante de ti.
De mãos postas, Ó Deus da terra,
estarei diante de ti.

Sob o céu sem fronteiras,
no silêncio, solitário,
de coração humilde e com lágrimas no olhos,
estarei diante de ti.

Neste mundo mutante,
no corre-corre da vida,
em meio aos homens da terra,
estarei diante de ti.

Quando neste mundo
minha missão terminar,
ó Rei dos reis, sozinho, em silêncio,
estarei diante de ti.
(p.25)

(TAGORE, Rabindranath. Noibeddo. São Paulo: Paulinas, 2002)e ti é preciso
galgar o cume,
estende teus braços
e, inclinando-te, leva-me
pela difícil estrada pedregosa
até o inacessível amigo.
Leva para frente todo dia
teus filhos prediletos
que, na longa estrada,
andaram padecendo
dores mais terríveis
que a morte.
Ó Testemunha Íntimo,
na dor conhecerei
e farei conhecer
o inextinguível eu
que está dentro de meu coração.
Que nenhum medo
o faça triste,
que nenhum desejo
o torne teimoso,
que permaneça resplandecente
na trilha da inteligência,
nas dificuldades da vida,
que faça o dom da luz,
que o repouso da morte
o faça glorioso
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