Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
(ou Um paralelo entre as Ilhas dos Amores – Mahattan/São Luís)
O Inferno de Wall Street é uma sátira, uma tremenda gozação, cujo pretex-to, para ironizar a corrupção do Bra-sil e, particularmente, a do Maranhão, se centra no desmascaramento da hipocrisia universal detectada em políticos e religiosos célebres, através de uma visão anárquica sobre a vida e os procedimentos de monarcas, reis, oligarcas e nepotistas, de sangue real ou meramente megalomaníacos faraônicos. Um painel humorístico, dantesco e satânico sobre a verdade inconfessável de curriolas e quadrilhas de ladrões oficiais que posam de protetores do povo. Uma visão sincera, mas apocalíptica da maldade e do sadismo do ser humano, quando no poder ou atrelado a ele. Um escancaramento do escândalo aristocrático-burguês em nível do travestimento da falsa moral palaciana e assembléica, cuja extensão em imagem e semelhança mais fiel está na hipocrisia de quase todas as igrejas de inúmeras denominações. Ah, Sousândrade nos vinga ao colocá-los em xeque-mate.
Usando os EUA como pano de fundo e pretexto, de lá, exilado, ele teve o descortínio dos podres poderes de um país honesto, mas através de falsas estatísticas, na realidade um camelódromo de reproduções fajutas, de cópias piratas da realidade. Sim, Sousândrade fez a alegoria de um Brasil envolto em lençol de lama, um país de heróis sem nenhum caráter, onde a falsa moral, a máscara, o encubamento, os bastidores, os agiotas, os roladores de dívidas, os vilões, os camuflados desfilam de santos, mas do pau-oco. O paradigma para representar essa farsália é a Bolsa de Nova Iorque, símbolo universal do carnaval da usura, em que é permitida a prática da alienação do erário público no particular. Em Sousândrade, políticos, banqueiros e religiosos são parasitas típicos dos bens do povo alienado no controle e poder, essa máquina devastadora que promove o enriquecimento ilícito de uma minoria. Como a parodiar Karl Marx ele nos diz que a religião é o ópio do povo, não por desígnios de Deus, mas em virtude de, em nome de Deus, se montarem verdadeiras Bolsas de Valores.

O Inferno de Wall Street é um delírio, um pesadelo, propositalmente montado como um quebra-cabeça, aparentemente sem pé nem cabeça, para ser lido e entendido, 50 anos depois. Sátira violenta, virulenta, venenosa, mortal, grotesca, belamente escrita por um poeta que teve a antevisão do câncer universal da humanidade. Após um porre homérico, o Guesa tem visões alucinatórias, como por exemplo, a ruína ou quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, que corresponde cabalisticamente à Queda da Monarquia, no Brasil. É um episódio louco, apocalíptico, escrito em metalinguagem ou em linguagem nonsense.
Sousândrade camufla o que diz através de neologismos, acoplamentos de palavras, polilingüismos e polissemias, que nos permitem ler, nas entrelinhas, que o Brasil, se não é o que queríamos que fosse, pelo seu potencial natural, é o país do carnaval, não no sentido sério da palavra que quer dizer brincadeira, diversão, mas no sentido perverso de ponte para a corrupção. Os porres e as alucinações do Guesa, no Tatuturema e em O Inferno de Wall Street permitiram a Sousândrade uma visão real do Brasil, a partir da Bolsa de Valores de Nova Iorque e uma visão profética do que são hoje, sem tirar nem pôr.
TATUTUREMA
(MUXURANA histórica:)- Os primeiros fizeram
as escravas de nós:
nossas filhas roubavam,
logravam
e vendiam após.
(TEGUNA a s´embalar na rede e querendo sua independência:)- Carimbavam as faces
bocetadas em flor,
altos seios carnudos,
pontudos,
onde há sestas de amor.
(MURA comprada escrava a onze tostões:)- Por gentil mocetona,
Boa prata da lei.
Ou a saia de chita
bonita,
Dava pro-rata el-rei.
(TUPINAMBÁ ansiando por um lustro nos maus PORTUGUESES:)- Currupiras os cansem
No caminho ao calor,
Pariathins orelhudos,
Trombudos,
Dos desertos horror!
(Coro dos Índios:)- Mas os tempos mudaram,
já não se anda mais nu:
hoje o padre que folga,
Que empolga,
vem conosco ao tatu.
(TAGUAIBUNUSSU conciliador; coro em desordem:)- Eram dias do estanco,
Das conquistas da Fé
Por salvar tanto impío
Gentio......
-Maranduba, abaré!...
(Perulera sacerdotisa matando reis de França:)Cum espirito tuo
São Coatis sacristãos,
Dea Eliza é vigária
Yankária
Das...magnetizações!
Falando dos sepulcros, GOMES-DE-SOUSA, Dr. VILHENA e M. Hoyer:)- Deus é X no horizonte?...
- Governistas dão leis?...
- Tendo à rama a ciência,
A consciência
Da uva à queda vereis?...
(Desconsolados agiotas e comendadores:)- De uns arrotos do demo,
No revira se haver...
- Venha a nós papelório
Do empório,
E de Congo o saber.
(Damas da nobreza:)- Não precisa prendê
quem tem pretos p´herdá
e escrivão p´escrevê;
Basta tê
Burra d´ouro e casá.
(Escravos açoitando de milagrosas imagens:)Só já são senhozinhos
Netos d´imperadô:
Tudo preto tá forro;
Cachorro
Tudo branco ficou!
(GEORGE e PEDRO, liberdade-libertinagem:)- Tendo nós cofres públicos,
Livre-se a escravidão!
Comam ratos aos gatos!
Pilatus
Disse, lavando a mão.
(Príncipes declinando do tesouro em favor da instrução pública:)Tribus há que não pagam
ao seu legislador,
Patriotas honrados,
Amados,
Só da pátria ao amor.
(Ministro português vendendo títulos de honra a brasileiros que não tem:)- Quem de coito danado
Não dirá que vens tu?
Moeda falsa és, esturro
Caturro,
D´excelência tatu!
(Voz dogmática de fora:)- Luzo-hispano-brasílio
Antro de Belzebubs!
Lácio em fim!...Reis, da raça
Da graça;
Réis, dos antros...da luz!
(KONIAN-BEBE rugindo:)- Missionário barbado,
Que vens lá da missão,
Tu não vais à taberna,
Que interna
Tens-na em teu coração!
(VIOLA rindo:)- D´este mundo do diabo
Dom Cabral se apossou,
E esta noite d´Arábia
Astrolábia
Desde então se bailou.
(D. João VI. Escrevendo a seu filho:)Pedro (credo! Que sustos!)
Se há de ao reino empalmar
Algum aventureiro,
O primeiro
Sejas....toca a coroar!
(1º Patriarca:)- Quem que faz fraca gente,
Calabar-Camarão?
Ou santelmos delírios,
Ou sírios
Das gargantas do Cão?
(2º Patriarca:)- Brônzeo está no cavalo
Pedro que é fundador;
Ê!ê!ê! Tiradentes,
Sem dentes,
Não tem onde se pôr!
(O GUESA, rodando:)- Eu nasci no deserto,
Sob o sol do equador:
As saudades do mundo,
Do mundo...
Diabos levem tal dor!
(WAYANORICKENS, fumando e assoprando nas caras:)- No cachimbo-conselho,
Qual um porco a roncar,
Enroscava olho e rabo
O diabo
Em cornudo sonhar.
(Sábios olhando do vértice do solar parallaxe pelo telescópio do equador:)- Vênus fica, passando
Pelo disco do sol,
Mosca; o ângulo obtuso,
Confuso
Qual n´um olho um terçol.
(Alviçareiras no areial:)- Aos céus sobem estrelas,
Tupan-Caramuru!
É Lindóia, Moema,
Coema,
É a Paraguassu;
-Sobem céus as estrelas,
do festim rosicler!
Idalinas, Verbenas
De Athenas,
Corações de mulher;
-Moreninhas, Consuelos,
Olho-azul Marabás,
Palidez, Juvenílias,
Marílias
Sem Gonzaga Thomás!
(Políticos fora e dentro:)-Viva, povo, a república,
O’ Cabrália feliz!
= Cadelinha querida,
Rendida,
Sou monarco-jui...i...iz. (Risadas).
E lei por uso do tatuturema
Que, onde pôs-se a mão, a presa feita,
Ninguém se fuja ou se conheça ou tema.
Então, então, praticam-se do incesto
Os mais leonílios, mais brutais horrores!
Qual a repercussão no império infesto,
De Gomorra novíssima os amores. –
E estale a corda que feriu tais sons!
- Deixo eu este assunto depravado:
Que desculpem-me o triste recitado
Do que às bordas se vê do Solimões.
Chamem eles, embora, louco ao sábio
Que os cancros sociais descobre à luz;
Cúmplice é quem protae torcendo o lábio,
A aqueles para os quais veio Jesus;
Quem deixa a corrupção lavrar oculta;
Quem por lei do interesse, ou covardia,
Não vê que a humanidade se sepulta
E que a pátria decai dia por dia.
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