Anuário #01 - São Luís, 2003
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O inferno de Wall Street
Sousândrade: Um Guesa no Carnaval
Editorial

Edição 53

Sousândrade: Um Guesa no Carnaval

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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(ou Da orgia homérica do Tatuturema à alucinação orgiástica do Inferno de Wall Street)

Tatuturema constitui uma das primeiras versões macunaímicas sobre o Brasil autêntico dos políti-cos, da corrupção e da male-molência de quantos se valem do eterno car-naval da Terra Papagalorum e Pelicanorum para tirar proveito da ignorância e ingenuidade popular. Este não é o Brasil de nossos sonhos, o da regurgitação e do decoreba, infelizmente o poeta nos mostra esta triste realidade.

Sousândrade é mais uma vez um antecipador e permite aqui que o Guesa dê o seu depoimento sobre um país e uma sociedade anárquicos. E numa época romântica, ele esculpe um retrato realista de uma sociedade que se permite a corrupção, a fraude,o suborno e a escravidão, enfim o pistolão e a troca de favores.

Representando o povo oprimido, o Guesa se permite ser, no Brasil, o primeiro anti-herói ao tomar um porre em nome da triste memória nacional.

Tatuturema é assim um momento báquico, dionisíaco, em que é liberada toda a lubricidade. Um instante de carnaval dentro do poema O Guesa, Canto Segundo. Instante mágico, alucinatório, espécie de dança ritual orgiástica, promíscua. Segundo Frederick Willians, “O episódio, na versão de Sousândrade, se inicia quando os índios, já bêbados, estão sentados ao redor do fogo e começam a cantar uma canção trágica e melancólica: com a chegada dos iberos, nossas mulheres foram raptadas, nossas terras roubadas e nossos espíritos quebrados. Em troco, recebemos uma civilização corrupta, administrada por políticos desonestos que introduziram em nosso meio as doenças, a luxúria, o assassínio e uma religião hipócrita, pregada por padres sem Deus. (...) O episódio do Tatuturema é o inferno, uma apresentação psicodélica da história brasileira, incluindo até coros à moda grega e comentários cujo tom é amargamente irônico.”

Tatuturema é, sem dúvida, uma oportunidade única de representação alegórica da alta sociedade brasileira satirizada pelo proletariado (que, no poema, está representado pelos índios). Uma farra orgiástica, homérica, carnavalesca, durante a qual os personagens mostram os bastidores do poder. Aqui, durante a bebedeira, é permitido ao povo ironizar, satirizar e dar uma vaia retumbante nos poderosos, e em público, ainda que a pantomima ou alegoria não vá além do texto. Felizmente, neste carnaval de 2003, a verdade irá à passarela. Pelo menos isso já consola, amacia o nosso ego e alimenta a auto-estima do povo brasileiro, tão sofrido que vive mais à base da comiseração. Deus permita que a visão futurista de Sousândrade se torne realidade e que os políticos não sejam punidos somente durante a farsa do carnaval.

Biografia

É exatamente difícil reconstituir a vida de Sousân-drade. Não se lhe conhecem parentes que sobre-vivam, seus pertences pessoais, livros, papéis e documentos foram ou perdidos ou destruídos, e ele morreu no olvido, muito solitário, há mais de setenta anos (21/04/1902). Mas sua memória sobrevive. (...) Dizem também que tinha boa disposição, constantemente sorria, gostava de ensinar e estava sempre pronto a informar e instruir. Tinha especial predileção pelos jovens e foi entre eles que encontrou seus maiores admiradores. Acerca de suas qualidades pessoais, registre-se que era rigorosamente honesto e incapaz de violência. Os seguintes fatos dão bem a medida de seu caráter: ofereceu água aos seus vizinhos, numa época de escassez em que muitos a vendiam; distribuiu gratuitamente suas terras de Codó e Cururupu aos ex-escravos em regozijo pela Proclamação da República e se dispôs a pagar os reparos de que necessitava o Liceu Maranhense. (...) Não deve causar grande admiração o fato de Sousândrade ser incompreendido no provinciano e tradicional meio luso-brasileiro que era São Luís. De muitas maneiras sua vida sugere o arquétipo do intelectual latino-americano lutando para unir as forças contraditórias do barbarismo e da civilização. Não obstante, ele estava sempre fazendo as coisas diferentemente. Ao contrário de seus contemporâneos, não foi a Coimbra para obter o grau universitário, e sim a Paris. E em vez de estudar Direito ou Medicina, como era comum, teria estudado Engenharia, na Sorbonne (1856). Depois de formado, passou algum tempo viajando pela Europa (sua visita a Londres foi interrompida quando pediram que deixasse o país por ter falado contra a monarquia inglesa e, particularmente, a Rainha Vitória).

Na sua poesia, Sousândrade faz repetidas referências a uma infância feliz vivida na Fazenda Vitória, de cuja prole senhorial era o único varão e o mais novo dos três filhos. Uma de suas irmãs se chamava Ana. Teve a felicidade interrompida quando a mãe, Maria Bárbara, por quem tinha especial carinho, morreu de tifo. Pouco tempo depois, morria-lhe o pai. Ao que tudo indica, por confiar em “amigos”, perdeu grande parte de sua herança. Contrariado com a perda dos pais e da herança, rebelou-se e viveu vida boêmia no Rio de Janeiro.

Encontrando-se em dificuldades, procurou o Imperador e lhe pediu ajuda financeira, no que não foi atendido. Teve, então, que vender seus escravos para levantar recursos com que educar-se na França.

De volta ao Brasil, segundo parece, cursou um ano na Escola de Medicina do Rio de Janeiro, viajou pelo Amazonas (1858/1860) e casou-se, no Maranhão, com Mariana de Almeida e Silva,(...) O casamento com Mariana, dois anos mais velha que ele, proporciona-lhe respeitabilidade e bens materiais. Como a maioria das mulheres do seu tempo, D. Mariana não estudara, chegando, mesmo, a ser analfabeta. Isto certamente explica a indiferença com que via a atividade literária de seu marido. Ele, contudo, a amava, e nessa época pensava que nela encontrara a esposa perfeita. (...) O poeta e sua família moravam afastados da cidade, num elegante sobrado às margens do rio Anil. Era uma vivenda aprazível, cheia de árvores frutíferas, a que chamou Quinta Vitória, evocando a fazenda paterna no rio Pericumã. Perto havia outras chácaras, algumas casas e uma praça circundada de sobrados baronescos. Ao lado, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, que deu nome ao bairro. Ali, mais tarde ( 7 de setembro de 1874), seria solenemente inaugurado um monumento a Gonçalves Dias. Além disso, Remédios tinha choupanas de pescadores e a Cadeia Municipal em frente à morada de Sousândrade. Demolido o prédio da cadeia, surgiu uma pequena praça que, em 1947, recebeu o nome do poeta. Hoje, nesse local, se encontra o Hospital Presidente Dutra. (...) Hoje essa propriedade pertence à Marinha. Existe ali uma construção que segue mais ou menos as mesmas linhas arquitetônicas da antiga.

Até 1871, Sousândrade já gastara muito de suas economias, hospedando amigos em sua mansão e proporcionando-lhes outras prodigalidades. A pequena filha Maria Bárbara tinha compleição doentia. Pensou o poeta que a mudança de clima seria favorável. Provavelmente porque no casamento as coisas não corressem bem, quando Sousândrade resolveu acompanhar a educação de Maria Bárbara em Nova Iorque, Mariana foi excluída dos planos de viagem. Por isso, permaneceu no Maranhão. Pai e filha tomaram em Belém do Pará, a 6 de maio de 1871, o vapor “North American”, com destino a Nova Iorque, onde desembarcaram a 19 do mesmo mês.

Maria Bárbara foi matriculada no Instituto do Sagrado Coração, de Manhattanville, localizado aproximadamente sete milhas do centro de Nova Iorque. Seu pai alugou dependência de uma casa de família, de cuja janela podia avistar as torres da igreja anexa ao colégio. Enquanto nos Estados Unidos a principal atividade de Sousândrade foi trabalhar no seu poema de treze cantos, O Guesa (...) .

Achando-se nos Estados Unidos por ocasião do Centenário da Independência (1876), Sousândrade viajou a Filadélfia, a fim de visitar a exposição. (...) Durante sua permanência nos EEUU, Sousândrade teve a oportunidade de ver um governo republicano em ação. Embora elogiasse o país por seu desenvolvimento e pela liberdade de seu sistema - nele via a esperança do futuro – condenou fortemente as distorções econômicas e as injustiças sócio-políticas associadas ao seu progresso. Desses aspectos negativos da vida americana, deixou contundente registro no Canto X d’O Guesa, especialmente na parte conhecida como O Inferno de Wall Street.

Retornando a São Luís, em 1885, após uma breve temporada no Chile, Sousândrade já unido a sua esposa e novamente morando na Quinta Vitória, dividia seu tempo entre a poesia e as lutas contra a monarquia brasileira.

Quando proclamada a República, em 1889, Sousândrade foi nomeado Primeiro Intendente (Prefeito, hoje) de São Luís. Também presidiu a Comissão que redigiu o primeiro projeto da Constituição Republicana do Maranhão. Concebeu a bandeira maranhense, escolhendo cores que representassem as três raças principais na formação étnica maranhense (vermelho, preto e branco), num arranjo que muito lembra o pavilhão norte-americano. Enquanto isso, Maria Bárbara estabeleceu qual seria a escola mais prestigiosa de São Luís – o Colégio Industrial, através do qual ela introduziu na sociedade sanluisense muitas práticas e costumes norte-americanos, incluindo classes mistas e as comemorações natalinas de concepção estadunidense em que entrava um Papai-Noel rotundo e fantasiado de vermelho e branco.

Até o fim da vida, Sousândrade produziu e publicou poesia: (...)1899 também foi o ano em que sua esposa e filha o deixaram para viver em Santos, Estado de São Paulo. Seu último grande projeto consistiu na tentativa de estabelecer a Universidade Atlântida, em cujo benefício, inclusive, viajou ao Rio de Janeiro, na esperança de obter apoio e para cuja sede estava disposto a doar sua Quinta Vitória. Mas tão grande sonho não alcançou realizá-lo. A primeira universidade do Brasil somente viria na década 30 e, quanto à sua, o Maranhão precisaria esperar mais trinta anos.

Nos últimos anos, Sousândrade vivia de aluguéis e do pequeno salário de professor de Grego, no Liceu Maranhense. Foram seus alunos que o encontraram doente em sua casa e o levaram ao Hospital Português, mantido pela Real Sociedade Humanitária 1o. de Dezembro, onde viria a falecer pouco depois,a 21 de abril de 1902, praticamente às vésperas de completar 70 anos de idade.

(Texto extraído da obra Sousândrade: Vida e Obra. Frederick Willians. Edições SIOGE, São Luís, MA, 1976, pp. 6-13.

Obs.: As explicações das fontes bibliográficas dos rodapés, aqui não consignadas, poderão ser conferidas na obra supracitada).
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