Anuário #01 - São Luís, 2003
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A genialidade de Sousândrade no enredo da Favela

Edição 52

A genialidade de Sousândrade no enredo da Favela

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Por: Manoel Santos Neto

Especial para o Guesa Errante


Joaquim de Sousa Andra-de, o Sousândrade (1832/1902), o grande poeta que morreu em São Luís pobre e abandonado, agora prepara-se para a revanche. Ele vai entrar em cena, no Carnaval deste ano, como o protagonista do desfile da Favela do Samba. A idéia de criar um enredo sobre Sousândrade excitou a imaginação de estrelas consagradas do Carnaval maranhense e acabou juntando, numa mesma frente de batalha, três velhos lutadores da cultura popular: o jornalista e professor Euclides Moreira Neto, o empresário e produtor cultural Renato Dionísio e o jornalista e escritor Herbert de Jesus Santos.

Logo no início do ano, Herbert Santos aventurou-se num concurso de sambas-enredo. Teve sorte e conquistou o primeiro lugar com o samba da Favela para 2003, cujo tema é De Sousândrade e louco, todos nós temos um pouco. Mas genial e errante só O Guesa. De parceria com o compositor Júlio Braga, Herbert enfrentou o tema com a propriedade que lhe é peculiar. Afinal de contas, trata-se de um dos nossos grandes poetas vivos falando de um outro grande poeta que já se foi.

Como a distância entre a poesia e a música é muito curta e como poetizar é como se fosse musicalizar sentimentos humanos, o poeta da Madre Deus não teve muita dificuldade para estilizar a vida de Sousândrade, o Guesa Errante. A idéia do tema, concebida pelo presidente da Favela do Samba, Euclides Moreira Neto, foi imediatamente absorvida e encampada pelo patrono e maior entusiasta da escola, o empresário Renato Dionísio, como também pela Academia Maranhense de Letras, na pessoa do professor Jomar Moraes. Afinal, Sousândrade é um dos patronos da Academia e Herbert de Jesus Santos tem Sousândrade na condição de, mais que um poeta, uma espécie de herói da literatura maranhense.

“Ele é um dos poucos maiores brasileiros do Maranhão”, resume Herbert na linguagem já muito peculiar de suas crônicas. Herbert conta que sendo o primeiro prefeito (intendente seria o termo mais adequado) de São Luís, Sousândrade promoveu uma verdadeira revolução na cidade, criando, em fins do século XIX, 12 escolas mistas, o que não existia por aqui àquela época. Herbert cita o fato de Sousândrade também ter doado suas terras aos escravos apenas para comemorar o advento da República, sistema político pelo qual o poeta de O Guesa lutou a vida inteira. Herbert volta a remexer o legado do poeta, para lembrar desta vez o fato de Sousândrade ter libertado escravos na África durante o périplo que fez pelo mundo e que deu origem àquele que talvez seja o mais importante livro da literatura maranhense: exatamente Guesa Errante. Poema que Herbert de Jesus Santos trata como sendo “o mais portentoso poema épico americano”.

Uma das obras do poeta da Madre Deus - Bazar São Luís – foi até agora a que mais se popularizou porque foi escolhida como tema de enredo da Unidos de Fátima, no carnaval de 1989. Na época, a Flor do Samba foi a campeã, com o enredo Nem tudo que reluz é ouro, com o qual comemorou seu cinqüentenário de fundação. Foi um Carnaval memorável.

Sonho de apoteose – Agora, é a Favela do Samba que produz um belo e emocionante espetáculo para celebrar Sousândrade. Renato Dionísio, Euclides Moreira Neto e os demais carnavalescos da escola trabalham com disposição para deixar a platéia em estado de choque. Por essa razão, o empresário Renato e o professor Euclides – hoje reconhecidos como duas peças-chave do Carnaval maranhense – multiplicaram-se nas últimas semanas e, na condição de comandantes-chefes do desfile da Favela, assumiram funções múltiplas. A dupla junta-se a coreógrafos, figurinistas, cenaristas e organizadores de alas e comanda uma seleta equipe que inclui o carnavalesco Júlio Matos, os escultores Ilmar Azevedo e Rodrigues Sousa, o chefe de barracão, Luís Carlos Pinheiro, o “Vovô”, e os puxadores de samba Luís Vovô, Carlos Murilo Sá Pereira, o “Cacá”, Celso Brandão, Ivan Coracinha e Wallace Godinho.

Para desfilar com Sousândrade na avenida, a Favela do Samba irá se apresentar com 21 alas, cinco carros alegóricos, um quadripé, uma bateria com 120 ritmistas, dois casais de mestre-sala e porta-bandeira, uma comissão de frente com 12 integrantes, 40 passistas e uma ala de baianas com 60 integrantes.

Carnaval de poesia - No ano passado, a Favela do Samba levou para a avenida um enredo baseado no romance “Saraminda”, do escritor e senador José Sarney. Disputando ombro a ombro com a Favela, a Turma do Quinto, em 2002, sambara ao som do enredo – “Nauritânia, A Poesia de Barbas Brancas” – baseado na vida e obra do poeta maranhense Nauro Machado. Neste ano, a Favela, que já levou para a avenida “Os Canhões do Silêncio”, do poeta José Chagas, aposta pela terceira vez num tema literário, agora invocando o legado de Sousândrade.

Para celebrar o autor de O Guesa, Renato Dionísio e Euclides Moreira Neto trabalham a mil por hora. Às vésperas do Carnaval, eles chegam ao limite de sua dedicação pessoal. Como financiador da escola, Renato Dionísio chama para si o peso da maior responsabilidade, preparando o desfile que sempre organiza sonhando com um fantástico espetáculo de alegria e criatividade.

Acadêmico do povo

Menino pobre criado no subúrbio de São Luís - filho de um pescador, que foi matraqueiro do Boi da Madre Deus e batuqueiro da Turma do Quinto, e de uma operária de fábrica de tecelagem, o jornalista e escritor Herbert de Jesus Santos é hoje figura representativa de um dos veios mais importantes da literatura maranhense contemporânea.

Único em seu estilo, ele também é especial pela obstinação com que constrói sua obra literária e busca chegar à plenitude de seu potencial artístico. O poeta da Madre Deus já é dono de uma obra que inclui quatro livros publicados e seis inéditos. Venceu o primeiro concurso literário de sua vida disputando o formidável certame do Sioge com o livro de poesias Uma Canção para a Madre de Deus, palco principal de suas tribulações poéticas. Com o livro de crônicas Um Dedo de Prosa, ganhou em 1985 o Prêmio Maranhão Sobrinho do concurso literário do Sioge. Com Bazar São Luís ganhou o segundo lugar no concurso promovido pela Funcma em 1987 e com a novela A Segunda Chance de Eurídice arrebatou o segundo lugar do Concurso Cidade de São Luís promovido anualmente pela Func. Foi premiado pelo Sioge, em 1982, com a publicação do livro de contos Quase todos da pá virada.

Entre os alfarrábios do poeta estão guardados, no aguardo de novos concursos, um livro de contos - Serventia e os outros da patota -; um de poesia - Os bem-te-vis de Atenas -, dois de crônicas - Antes que derramem a Lua cheia e Sotaque da Ilha -; uma novela - A terceira via-; e um texto de revisão ortográfica - Assim está escrito.

Aos 52 anos de idade, casado e pai de três filhos, o poeta da Madre Deus – que escreve semanalmente a coluna Sotaque da Ilha no JP Turismo - confessa que gosta de ler as crônicas de Cunha Santos Filho, José Chagas e Ubiratan Teixeira e atualmente, até por dever de ofício (como revisor profissional), está lendo a poesia de Luís Augusto Cassas. Entre os grandes nomes da literatura do Maranhão, além de Sousândrade, Herbert destaca Gonçalves Dias, Josué Montello, Nauro Machado, Ferreira Gullar e Erasmo Dias. Ele faz questão de salientar também João Mohana, como um dos maiores escritores maranhenses; e entre os escritores nacionais, que também lê (além do romancista Machado de Assis) os cronistas Fernando Sabino e Rubem Braga e os poetas Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Mário Quintana.

Professor do samba – Graduado em Comunicação Social e hoje membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, Herbert Santos, o poeta que vive num meio onde a maioria das pessoas mal tem dinheiro para pagar as contas do fim do mês, orgulha-se da vida modesta que leva. Com a sua poesia, seus livros e suas crônicas, não ficou lugar para a dúvida: o escriba da Madre Deus é um artista popular com um faro e uma competência indiscutível para a crítica social. “Sinto-me honrado de poder lutar para construir uma carreira literária e jornalística com toda dignidade possível, procurando fazer tudo com o maior empenho, para merecer o respeito dos meus conterrâneos”, assinala.

Por três vezes, Herbert Santos lançou-se candidato a uma cadeira na Academia Maranhense de Letras. E por três vezes perdeu as eleições. Se a Academia negou-lhe uma cadeira, o escritor de Uma canção para a Madre de Deus consagra-se, neste Carnaval, como o grande poeta popular, que também é capaz de transformar idéias e delírios em tema sólido da arte do povoléu.

Samba-enredo da Favela do Samba – Carnaval 2003

O samba-enredo
De Sousândrade e louco todos nós temos um pouco, mas Genial e Errante só o Guesa
Compositores
Herbert de Jesus
Santos e Júlio Braga

A Lira da Favela é Guesa Errante
obra de um poeta genial
tesouro literário fascinante
no meu coração faz carnaval

No ponto onde o condor negreja
e o brilho de um artista colossal
o “Big Ben” não quer o Bem
plantou a tirania mundial

Sou índio guerreiro
vou amazonar
na poesia
sousandradear

Tatuturema – as visões são tão reais
terror, armagedon, moneycracia,
decadências pátrias e morais
World Center é o Inferno de Wall Street
A Bolsa ou a Vida
a bolsa é da elite
Bochica dá a vida pela paz

Nas pedras da Vitória
reluz a sua glória
o Mestre se despede
até demais!

Cururupu e Codó
na Libertação
negro, branco, índio
Bandeira do Maranhão!
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