Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Por: Aldo LeitePor Commedia Dell’Arte foi denominado o gênero que se contrapunha aos espetáculos grandiosos feitos longe do povo, procurando aproximar-se dos clássicos e situados sempre no interior dos palácios e salões refinados da nobreza renascentista italiana.
A resposta do povo foi esse tipo de diversão, a comédia artesã, que iria exercer enorme influência no teatro europeu, inventando um repertório vastíssimo, o qual iria dominar, por três séculos, a partir da Itália, a França, a Espanha, etc.
Foi principalmente no século XVII que, devido a decadência da tragédia e das pastorais, por um lado, diminuídas pela ópera e, de outro, pela decadência da comédia escrita, o teatro italiano refugiou-se nessa forma cênica, ampliando, com o apoio do povo, as pantomimas que se vinham improvisando nas feiras populares há dois séculos, graças aos atores, misto de cômicos e acrobatas.
Na commedia dell’arte os personagens são sempre os mesmos, as célebres máscaras italianas, cada ator interpretando sempre o mesmo personagem. Este único personagem atuava sempre dentro do mesmo papel, do mesmo tipo. Variavam os enredos ou argumentos, mas nunca os personagens, cujo caráter era conhecido das platéias que acorriam a ver como determinadas situações, criadas pela variedade de temas, aconteciam.
Aqui está a síntese de tudo, a arte dos jograis e histriões, as habilidades dos charlatães de feira, as piadas ousadas dos brijões palacianos, bem como o popularesco de um longo manancial acumulado de canções, anedotas, ditos populares, tradições e lendas. E é nessa farsa que renasce o eterno conflito dos sexos, o antagonismo entre o homem do campo e o da cidade, o nobre e o burguês. A improvisação é o traço marcante da encenação. Não havia texto pronto, acabado, e sim um roteiro em que os atores se baseavam, sempre em consonância com a reação da platéia. Não há espetáculos iguais para o público, nem para os atores. Este teatro surge e continua na rua, ao ar livre, na linguagem crua e desbocada do povo, sem os ademanes dos salões elegantes, rude, direta. E por esta razão sofre o desdém dos ilustrados. É vulgar demais para o gosto daquela nobreza deslumbrada. Assim, enquanto vivem e olham só para os salões, o povo vibra nas ruas, voltando ao princípio de tudo, relembrando os coros das bacantes, os rostos lambuzados de borra da uva, as representações dionisíacas.
Tudo ali é símbolo, as máscaras estabelecem o perdido elo com o passado. Com o passar dos anos, a commedia dell’arte foi pouco a pouco se firmando em toda a sociedade, chegando a influenciar autores célebres, a exemplo de Molière.
Seus autores eram igualmente músicos, cantores, acrobatas. Faziam a um só tempo um jogo bastante próximo dos palhaços circenses do nosso tempo. Cada um possuía seus próprios truques, respeitados pelos demais. Cada qual com seu repertório de piadas e trocadilhos, empregados no momento certo para deter um efeito ou os aplausos do público.
As máscaras vêm desde a Grécia antiga, com suas características específicas, assim como no teatro romano e outras fases do teatro mundial. Na commedia dell’arte, igualmente, as máscaras caracterizavam cada personagem, segundo a sua origem, entre outros.
Os personagens vão sofrendo alterações de nomes, permanecendo, contudo, a característica original. Em toda a Europa, vão sendo adaptados segundo seus próprios costumes, etc. Assim, um personagem pode ser encontrado com várias denominações. Entre os mais conhecidos, destacam-se Pierrô, Arlequim, Colombina, Capitão, Doutor, Pantaleão, Polichinelo, Comadres, Alcoviteiras, Palhaços, Acrobatas, entre vários outros.
* Aldo Leite é teatrólogo e professor da Universidade Federal do Maranhão-UFMA.- Próximo texto:
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