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A commedia dell’arte
Mõkânmôkos - A Arte do Riso na Praça II
Editorial

Edição 51

Mõkânmôkos - A Arte do Riso na Praça II

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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O batuque da lei ou no batuque tem lei

Beth Bittencourt Ao povo de São Cristóvão, povoado do município de Viana (MA)

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O batuque, que se fundamenta na brincadeira e se materializa nos tambores, se transforma em fantásticas produções que revelam o Desejo, conforme a psicanálise o nomeia, alguma coisa que difere radicalmente da vontade, enquanto aquilo que se pensa ter domínio sobre, ou que esteja na ordem das intenções e não da produção. O desejo traz a dimensão do inconsciente, esse corte trazido por Freud e que coloca o ser falante no lugar de não domínio sobre si próprio, atravessado pelas pulsações- Eros e Thânatos – misturados, comandando a orgia da criação.

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Se em São Cristóvão o batuque tem mandante, nas escolas de samba do Rio tem lei. Tem alguém que sustenta o lugar, que aponta um limite e que engendra a possibilidade de uma produção. Lei que vale a palavra de um homem, conforme o mestre do carnaval, Joãozinho Trinta, nos diz: Quer dizer, você é homem, então você tem palavra. É na palavra, é na voz, é no som, no verbo. Na Beija-Flor, marginais são os outros. A lei é séria.

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Mas que brincadeira é essa que é o carnaval? Brincadeira que rola pelo país todo, e mais, em cada lugar há diferenças de batuque. Cada lugar produz uma nuance na produção dessa alegria, fermento de nosso povo, fonte de nossa originalidade. Joãozinho diz que carnaval é carne, e mais, que o que vale é a carne. E, é claro, o gozo daí advindo. As teorias perdem a importância, segundo ele, diante disso. Não posso esquecer Lacan, que diz que a melhor psicanálise é aquela que se faz na brincadeira, talvez por esta revelar o infantil, que é o que importa à psicanálise. Ou seja, a marca da genialidade, a marca do infantil e de suas produções que, enquanto efeitos do real, nos apresenta dimensões nunca vistas. Mas, se há cultura no brincar, que advém de várias etnias que aqui se encontram entre tambores, penas e paetês, é preciso uma operação tal, que traga possibilidades de produzir esse conto épico que é o carnaval do Brasil. Produção essa que tem como exigência fundamental a alegria, um despertar de sensações, uma janela que abra para um deslizamento de significantes que busca o inesperado, o inusitado, o momentâneo. Não é à toa que o batuque dos blocos tradicionais ou das escolas de samba só triunfem quando se exibem ao público e, junto com eles, numa espécie de transe, surge a emoção sagrada da vitória da consagração. (...) Deus e o Diabo na Terra do Sol: Vadinho, marido de Dona Flor, morrendo em pleno carnaval e ressuscitando o erotismo e perturbação na bela Dona Flor, ou então morrer só na quarta-feira, até lá a carne vale quanto custa seu gozo, e a fantasia exibe seu estatuto de realidade.

No Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia, Joãozinho prova que do lixo sai a nobreza e, para reluzir, ouro e lata; se na vida sou mendigo, na folia eu sou rei. Ou na Festa do Divino, onde imperadores e imperatrizes brotam da precisão e mostram sua realeza; ou ainda nos bailes de São Gonçalo, onde o veludo da fantasia e o som da rabeca mostram a nobreza da produção, ou nos blocos tradicionais que, com seus singulares toques de tambor, revelam o Brasil épico: ...como na epopéia, o irreal corteja o real e a lenda rememora a história para celebrar a descoberta imaginária do paraíso na terra. Épico que se revela pelo visual, pela dança, pelo corpo – esse santuário constituído por sons de atabaques e que traz a marca da arte brasileira, onde a carne responde à vibração do som e os adornos ajudam a construir o carnaval, mito de brasilidade, fruto dessa fragmentação étnica que insiste em sua diferença, resiste à mídia e escapa da identidade fechada, como a Europa nos dá testemunhos.

O carnaval é o resultado dessa polifonia sincrética que nos constitui e que nos coloca a pensar, porque, se tem lei no batuque, por que no cotidiano e no Estado o lugar da Lei está vazio?



*Beth Bittencourt é psicanalista, membro da Sociedade Psicanalítica do Maranhão.
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