Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
O carnaval em si tem como es-sência a criação de uma vida paralela à realidade rotineira, com a finalidade de gerar no ser humano um estado de espírito de euforia tal, que o entorpeça, através de música propícia, dança, diversão e outros estimulantes dos sentidos, ao ponto de coletivamente poder-se evadir do cansaço, da fadiga e do stress. Após quatro dias de folia e um de purgação, acredita-se que o folião, tornado à realidade, na quarta-feira de cinzas, voltará inteiro e renovado para os hábitos familiares e para o trabalho. É isso que a sociedade espera, pois o carnaval tem um caráter singular de terapia ou de sonoterapia de olhos amplamente abertos. Essa é a essência do carnaval. Quanto a uma minoria que usa o carnaval para finalidades espúrias de deturpação, violência e criminalidade, roubos, furtos e defraudações, felizmente não representa o verdadeiro espírito carnavalesco, cuja base é a alegria contagiante, a fantasia da realidade, a alegoria em praça pública. O carnaval, em essência, é um momento lúdico e mágico de descontração, de prazer e de dessintonização com a rotina, caracterizado pela mudança brusca de hábitos ou padrões de comportamento habituais, como violação do horário de praxe, mudança radical de indumentária, costumes alimentares, em tudo se permitindo a extravagância, os excessos, a pândega, no limite do paradoxalmente grotesco, simultaneamente estafante e relaxante. A etiqueta, a ética, as convenções sociais, a estratificação da sociedade em classes, os preconceitos são abolidos, para que tenha trânsito livre a terapia coletiva da cura do stress, através da greve de quatro dias consecutivos contra a tristeza, a melancolia, o saudosismo, a monotonia e o tédio.
Para dar continuidade às edições sobre o Carnaval, assunto de comprometimentos, dimensões e implicações universais, pela sua complexidade e trajetória milenar, pelo seu caráter polêmico, contraditório e ambíguo e, sobretudo, pela sua importância, do ponto de vista de ser uma das raras, mas poderosíssimas válvulas de escape que propiciam ao ser humano fugir da rotina, os editores do Guesa Errante escolheram textos de três profissionais, cujas áreas de domínio de conhecimento trabalham conteúdos que estão diretamente ligados a uma melhor interpretação do que seja a essência do carnaval, a psicanalista Beth Bittencourt, da Sociedade Psicanalítica do Maranhão; o teatrólogo Aldo Leite, professor da Universidade Federal do Maranhão e o Doutor em Antropologia Sergio Ferretti, professor da Ufma.
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